A moda no centro da discussão
Especialistas no assunto, Maria de Fátima Mattos e Tuca Lima discorrem sobre diversos aspectos da Moda, da formação à aplicação do conhecimento, incluindo algumas desmistificações
As duas são especialistas em Moda. De um lado, Maria de Fátima Mattos é referência no campo acadêmico. Doutora em Artes e mestre em História, atua como docente de Estética e História da Arte na Graduação e na Pós-graduação, e também é docente pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Educação do Centro Universitário Moura Lacerda. É membro da diretoria da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Moda (ABEPEM) e presidente do Colóquio de Moda, no qual também coordena o eixo Educação e Moda, entre outras atividades.
Do outro lado, Tania Lima, mais conhecida como Tuca, é consultora atuante no mercado de moda nacional e internacional e tem ampla experiência nas áreas de Marketing, Vendas, Eventos e Comportamento Organizacional. É coordenadora, docente e autora de projetos pedagógicos de cursos superiores de Moda em diversas instituições e professora da Pós-Graduação em Negócios da Moda, em unidades do Senac SP, CE e SC nas disciplinas Marketing da Moda, Comunicação em Moda e Análise de Tendências. Também é diretora da Imagem — Consultoria em Moda e Marketing.
Juntas para um bate-papo sobre o assunto que mais dominam, elas analisam a formação oferecida hoje pelas universidades, os movimentos coletivos, as transformações ocorridas com o tempo, as oportunidades de trabalho e as aplicações dos conteúdos nos dias atuais. Maria de Fátima e Tuca também desmistificam alguns conceitos e afirmam que, apesar de toda a bagagem que carregam, não sabem desenhar.
Maria de Fátima: Você trabalha na área de Moda há bastante tempo. Qual é a sua formação?
Tuca: Minha formação é bem eclética. Eu me formei em moda na Europa. Na época, não havia curso Superior de Moda no Brasil. Quando voltei, estudei Comunicação com ênfase em Publicidade e Propaganda e insisti fortemente na questão do Design. Tenho cinco certificados de peso na área de Design de Moda e o meu desenho é o pior que existe. Como a minha família sempre estimulou e acreditou que eu tinha talento, insisti nisso. Já tinha feito cursos técnicos antes, mas não adiantou. Tenho ideias muito boas e referenciais estéticos, históricos, éticos, sociais, comportamentais, mas não desenho bem. Então, eu projeto e alguém passa isso para o papel para mim. Tenho vários ex-alunos que, diferente de mim, fazem desenhos perfeitos, entretanto não criam com tanta facilidade.
Maria de Fátima: Em quais outras áreas você já atuou?
Tuca: Eu sou bailarina, dei aulas de dança e tive uma escola de formação de modelos aqui em Ribeirão Preto. Fiquei fora por alguns anos e, quando voltei, montei a minha escola, mas, naquele momento, não estava preparada para empreender. Depois, pude detectar algumas falhas de empreendedorismo. Como eu tinha estudado Comunicação, fui fazer pós-graduação em Marketing, na USP de Ribeirão Preto. Fiz o primeiro programa e, quando ia entrar para o Mestrado, decidi que não queria fazer aquilo. Nessa ocasião, eu me tornei parceira de uma universidade, em Franca, e o que eu tinha disponível era outra área que também adoro e pela qual tenho muita afinidade: a História. Ainda lá, tornei-me Mestre em Gestão Empresarial, mas participei das duas pós-graduações. Para fazer o doutorado, voltei para a USP de Ribeirão Preto, para estudar Psicologia Social com ênfase em Psicologia do Consumidor de Moda. Fiz algumas disciplinas, mas acabei me mudando para a Bahia com a família, onde meu marido desenvolveria um trabalho. A ideia era continuar os estudos na Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas, em 2001, as universidades públicas estavam em greve. Antes das aulas voltarem, eu, que não me adaptei à Bahia, retornei para São Paulo.
Maria de Fátima: Como foi a sua experiência na Bahia?
Tuca: Tive uma proposta de trabalho muito interessante lá. Fui convidada para ser gerente de marketing e da marca de moda de um grande empreendimento turístico. Com o desenvolvimento dessa marca, eu teria oportunidade de unir a Moda ao Marketing. Eu e meu marido estávamos morando há dez anos em cidades separadas, só nos encontrando nos fins de semana, então era a ocasião ideal para voltarmos a viver juntos, afinal, nossos filhos estavam crescendo. Passei pelo processo seletivo, fui selecionada e, em uma semana, tinha que estar dentro da empresa. Muitas atividades passavam pelo Marketing e, logo de início, percebi que a conduta de negociações da empresa não era condizente com os meus princípios. Mesmo assim, tentei mostrar que podia fazer um trabalho sério, mas vi que aquilo não era para mim. Em oito meses, com tudo estruturado, apartamento montado, mudança total, estava claro demais para mim que eu não me enquadraria naquele esquema, então, pedi demissão.
Maria de Fátima: De volta para cá, você retornou para a área de Moda?
Tuca: Trabalhei dez anos no Senac, em Ribeirão Preto e São Paulo. Eu que montei a área de Moda aqui e ajudei a desenvolver todo o projeto pedagógico do primeiro curso de Moda do Senac em São Paulo também. Além, disso, assumi toda a parte de comunicação interna e externa da empresa. Como eu tinha um cargo de confiança, quando me desliguei para ir à Bahia, assinei um documento assumindo que ficaria um ano de “castigo”, caso quisesse retomar a atividade, ou seja, nesse prazo, eu não poderia voltar a atuar na rede. Com esse impedimento, quando voltei, decidi abrir meu próprio negócio e criei a Imagem — Consultoria em Moda e Marketing. A empresa foi aberta
em fevereiro de 2002 e, logo na sequência, a diretoria do Senac me chamou para retornar, mas eu já estava comprometida com meu negócio. Agradeci a oportunidade, com muita dor no coração, mas tive que recusar. O Senac é uma das empresas mais éticas e idôneas que conheço. Lá, 80% do meu tempo era usado para aprender e os outros 20% para executar. Eles investiram muito em mim e foi uma experiência riquíssima na minha vida.
Maria de Fátima: Percebemos que a formação da área de Moda e Design de Moda mudou bastante nesses últimos 20 anos. Como você avalia isso? Hoje, temos uma formação consistente, que capacita o aluno a ir para o mercado de trabalho?
Tuca: Todos nós que gostamos de fazer bem feito, de estudar, queremos sempre mais. Costumo dizer aos alunos que eles não saem prontos da universidade. Ali, eles experienciam todas as instâncias: fazem styling para revista, vitrinismo, modelagem, entre outras atividades. Depois, precisam definir por uma dessas frentes. Acredito que os cursos estão melhorando e muito disso aconteceu graças a você, Maria de Fátima. Não falo isso apenas por estar na sua frente. Você criou o Colóquio de Moda, que é altamente contribuidor para a área, numa época em que não se tinha nenhum evento acadêmico de Moda para ser oferecido. As pessoas estão percebendo a importância de algumas pesquisas e vertentes que antes não eram exploradas. Há alguns anos, o Brasil não possuía bibliografia na área e nem sempre tínhamos boas traduções. Por conta disso, grande parte da carência em uma boa formação era devido a isso, a essa falta de hábito e acesso às boas leituras. Nesses dez anos do evento, o conteúdo disponível evoluiu bastante.
Maria de Fátima: Dizem alguns especialistas que nós devemos estar onde tudo acontece, referindo-se às grandes oportunidades, lançamentos, criadores, eventos, semanas de moda, etc. Você, que acompanha o mercado tão de perto, acredita que a Moda só acontece nas grandes capitais?
Tuca: As grandes capitais podem impulsionar, mas dou um exemplo diferente para os meus alunos. Estudei na Europa e, quando voltei para o Brasil, ainda jovem, já estava casada, tinha uma carreira toda pela frente, tinha uma campanha de cosméticos para fazer, mas estava grávida e quis vir embora. Aqui, montei a escola de Moda e de dança. Se eu vim para o interior e consegui fazer o que fiz, é possível. Se eu estivesse na vala comum dos grandes centros, não sei se teria me destacado da mesma forma. Na época, peguei dinheiro emprestado com meus pais. Abri a escola em abril e em julho paguei todo o empréstimo. Ali, percebi que podia andar com minhas próprias pernas.
Maria de Fátima: Para trabalhar com moda, é necessário ter formação na área?
Tuca: Sem demérito algum a qualquer outro profissional, mas, muitas vezes, vejo pessoas atuando na área sem ao menos saber usar os termos adequadamente. Por exemplo, empregam a palavra “vintage”, que remete a uma peça original de época, que tem data determinada para que seja usada, para se referirem a estilo. Isso denuncia falta de conhecimento. Eu viajo toda semana, vejo muitos equívocos por aí. Quem quer realmente atuar nessa área, tem que estudar, ler, pesquisar e explorar tudo que possa estar envolvido com a atualidade. Esse é o ponto de partida para tudo. É preciso ter humildade também. Quem não tem humildade, não aprende. Eu costumo ir muito a fundo nos meus estudos. Tem informações que conseguimos na História da Moda que são obtidas através de esculturas, de pinturas, da Arte, enfim. Eu estudei a fundo, por exemplo, a história da Chanel, por conta dos meus estudos na Unesp de Franca. É preciso ler muito, conhecer diferentes autores, saber ouvir e formar uma consciência crítica. Tudo tem que fazer sentido.
Maria de Fátima: Há alguns dias, ocorreu, em São Paulo, a 39ª edição da Casa de Criadores, um evento importante, que fez parceria com o site Passarela, no qual estão disponibilizadas várias peças desfiladas para
a venda. Essa união da Moda com as mídias sociais tem ficado cada vez mais evidente, através da divulgação das marcas, de produtos e de cases de sucesso. O e-commerce é o caminho?
Tuca: Ainda tenho as minhas dúvidas. Eu ajudo a impulsionar empresas nesse sentido, mas sei que é uma área ainda árida. Na Moda, alguns sites oferecem as peças com os tamanhos padrões, mas não fornecem as medidas de cada parte da roupa, o que dificulta a compra por parte de quem tem busto grande, por exemplo, ou qualquer outra particularidade que foge a esse padrão. Então, não acho que seja fácil. Também percebo dificuldade em comprar ou vender sapatos pelo site. O e-commerce precisa crescer. As plataformas disponíveis ainda devem evoluir. Além disso, há uma resistência muito grande porque as pessoas gostam de ir às lojas. Aliás, velhos hábitos estão sendo resgatados.
Maria de Fátima: O Brasil tem tido boas iniciativas de economia criativa, que, para mim, é o caminho para o futuro. Tenho visto que isso movimenta grupos, pequenas localidades e coletivos de Moda e de Design. Sabemos que a indústria criativa se destaca pelo sentido transformador do processo, bem como pelo produto final. Como você avalia isso na perspectiva do branding, das marcas e dos eventos?
Tuca: Eu tenho levado isso, inclusive, para dentro do Sebrae, que é um dos meus maiores clientes. Acredito que até as marcas podem ser coletivas, desde que uma não concorra com a outra, que não atuem no mesmo segmento. Rondonópolis e Cuiabá, no Mato Grosso, têm um polo forte de uniformes e de lingeries. A ideia era formar um grupo e conseguir um mercado forte além dali. Eu percebi que eles tinham boas costureiras, mas pouco conhecimento. Aconselhei com pequenos ajustes, passei a orientar e fornecer pesquisa de tendências e cartela de cores, e hoje vibro com o que eles fazem. As alterações eram muito simples, mas vejo que falta informação e cultura de moda. Por isso, acredito que a economia criativa pode se fortalecer com os grupos. Estou com um projeto que consiste em montar um conjunto e alimentá-lo continuamente com ensinamentos de especialistas de cada segmento, mas fazer com que isso gire e que não acabe nunca.
Maria de Fátima: É perceptível que você respira empreendedorismo, tem um comprometimento muito grande com isso, tanto que o assunto é tema do seu último livro. Como surgiu a ideia de escrever “Dicas de Mulheres Inspiradoras que Estão no Comando de sua Carreira”?
Tuca: Esse livro foi algo muito inusitado na minha vida. Em agosto do ano passado, a minha mãe passava por um período grave de doença e eu voltei para Ribeirão Preto para cuidar dela. A editora Leader me procurou, na época, para fazer um livro sobre liderança e espiritualidade. Eles disseram que haviam chegado ao meu nome através do Marcos Wunderlich, com quem eu tinha acabado de fazer um curso de Coach. Fiquei lisonjeada com o convite, mas tive que recusar. Eu tinha um trabalho programado no Canadá e também logo aconteceria o Colóquio de Moda. Precisava ir devagar, não podia me ausentar nem perder o foco, mas, na sequência, minha mãe morreu. Algumas profissionais de moda e empreendedoras famosas, tais como Costanza Pascolato, Mônica Salgado, a Luiza Trajano, entre outras integrantes do livro, indicaram meu nome e a editora reforçou o convite, dizendo que não abriria mão da minha participação. Eu pedi um tempo, fui para o Canadá e, na volta, escrevi o livro. Sempre quis contar a minha história e aquele era o momento. Era um texto curto, rápido e eu escrevi, mas, quando enviei para a Andréia Roma, uma das coordenadoras da obra, disse para que ela ficasse à vontade para descartar o material, se não estivesse adequado. Procurei ser verdadeira e passar alguma coisa que acrescentasse às pessoas, mas acabei mudando a tônica do que havia sido proposto, revelando não só o sucesso, mas todas as dificuldades no meio do caminho e como as contornei.
Maria de Fátima: Ainda assim o conteúdo foi publicado. Como isso aconteceu?
Tuca: A Andréia retornou revelando que tinha adorado o material e mudaria o direcionamento do livro todo por conta disso. A partir dali, ele não seria mais composto de textos acadêmicos, mas sim de histórias reais, como a minha. O resultado ficou muito legal porque todas toparam. As co-autoras disseram que tinham gostado daquela forma como eu havia escrito e que elas também contariam suas histórias na íntegra, inclusive, Costanza revela como ocorreu sua demissão na editora Abril. Ninguém sabia disso. O livro tem essa e muitas outras histórias interessantes, com um texto leve, quase um romance que estimula as pessoas a ler e acreditar em si mesmas.
Maria de Fátima: Você tem muita competência e já passou por diversas experiências. Qual é a dica que dá para quem está pensando em empreender, principalmente no interior?
Tuca: Sugiro que não tenham receio pelo fato de estarem fora dos grandes centros. Se a pessoa tiver competência, fizer um excelente trabalho e desenvolver bons produtos e serviços, chegará lá. Eu consegui porque sonhei, planejei e projetei. E comecei aqui. Outra dica é que não abram mão do aprendizado constante. Por último, é preciso ter persistência, acreditar em si próprio e ter humildade para saber suas potencialidades e suas limitações.
O marketing como atividade fim
“Esse encontro com a Tuca foi um presente da Revide para nós duas. A Moda é uma área em que um precisa do outro, não dá para ser sozinho e, muitas vezes, as pessoas não se conhecem pessoalmente, principalmente hoje, com a internet. Elas se leem mutuamente e interagem por e-mail mas, pessoalmente, não se conhecem. Nós duas nos conhecemos um pouco e eu sempre fui admiradora do trabalho da Tuca, porém, momentos como esse são raros por conta das nossas atividades. Esse encontro que tivemos aqui foi especial. A entrevista foi muito boa porque pudemos comprovar que o marketing, para a Tuca, é a sua atividade fim. É uma atividade na qual ela se desenvolve até porque, especialmente dela, não faz marketing algum.” Maria de Fátima Mattos, docente na Graduação e na Pós-graduação do Centro Universitário Moura Lacerda, e presidente do Colóquio de Moda