A origem dos laços

A origem dos laços

O acolhimento, o vínculo com a mãe e a relação afetiva construída na maternidade são alguns dos assuntos analisados pela filósofa Maria Clotilde Rosseti Ferreira

A relação entre mãe e filho, desde a gestação, é repleta de nuances que impactam no desenvolvimento do vínculo, seja ele relacionado à cultura, à história ou aos fatores externos. Essa conceituação é um dos temas a que se dedica a professora titular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) Maria Clotilde Rossetti Ferreira, que, há mais de 50 anos, estuda o desenvolvimento infantil, especialmente nos três primeiros anos de vida.

Graduada em Filosofia pela PUC-SP, em 1958, Clotilde se especializou em Psicologia Clínica na Faculdade Sedes Sapientiae (SP), em 1962. Concluiu Doutorado em Psicologia pela University of London e Pós-Doutorado no Institute of Child Health, em Londres. 

Participante ativa do Centro de Investigações sobre Desenvolvimento Humano e Educação Infantil (CINDEDI) da USP Ribeirão Preto junto de vários mestrandos, doutorandos e alunos de iniciação científica, Clotilde analisa o desenvolvimento da comunicação, interação e relação afetiva nos primeiros anos de vida e contribui, diretamente, para o avanço das pesquisas sobre o assunto.

Para celebrar o Dia das Mães, Clotilde conversou com a Revide e se aprofundou sobre as questões relacionadas ao vínculo maternal.

Segundo Clotilde, o avanço da tecnologia permitiu uma maior interação entre o bebê e a mãe desde a barriga e, consequentemente, o vínculo é estabelecido antesA formação do vínculo materno é imediata e inerente ao resultado positivo da gravidez?

Para John Bowlby, psicanalista inglês que influenciou políticos, sociólogos e assistentes sociais e que é autor de trabalhos sobre a criança, a mãe e o ambiente, o apego é realmente uma relação afetiva desenvolvida evolutivamente com a espécie como forma de sobrevivência. A  imagem da mãe para a criança é de alguém que a protege, que fica sempre próxima a ela, que a imita e que, com isso, tem-se a possibilidade de estar em constante aprendizado. Bowlby vem de uma sociedade inglesa onde as famílias eram basicamente mãe, pai e filho, sem extensões de outros parentes e, até hoje, sua teoria ainda é predominante e atual, entretanto, existem vários questionamentos se olharmos outros grupos sociais e outras culturas, como a africana, por exemplo, a criança não está somente sob o cuidado da mãe. As reuniões, sempre com muitos membros da tribo, fazem com que a criança seja assistida por diversas pessoas diferentes e o vínculo pode ser estabelecido com várias das mulheres presentes. Isso é visto nas famílias atuais, em que parentes, vizinhos e até a babá e as cuidadoras da escola desempenham essa função. 

O que ocorre em casos de pais adotivos?

O acolhimento à criança que chega à nova família deve ser de todo mundo. Na adoção, normalmente, os familiares já estão envolvidos há muito tempo na espera dessa criança e, muito mais frequente, há o envolvimento de parceiros que participam de todo o processo adotivo. Embora uma mulher ou um homem sozinhos também possam adotar uma criança. Em comparação, um executivo nem sempre tem a disponibilidade de participar ativamente de todos os exames que a mulher deve fazer ao longo da gestação. A adoção é uma maternidade-paternidade sonhada há muito tempo e, geralmente, houve um investimento muito grande antes dessa alternativa. A expectativa para a chegada dessa criança, muitas vezes, é maior, mas o vínculo é sempre uma construção conjunta e pode ser demorado quando se trata de uma criança maior. 

Como, de fato, o vínculo afetivo entre mãe e filho interfere na vida da criança?

A contribuição que o vínculo proporciona à criança é importantíssima para a segurança, para que ela aprenda com o outro a ‘ser’. ‘Pessoas são pessoas através de outras pessoas’, já dizia Nelson Mandela, e é preciso estabelecer vínculos para aprender as coisas com o outro. Uma tartaruga, quando nasce, por exemplo, é deixada na areia e vai direto para o mar — é um comportamento inato. No homem, esse comportamento inato não existe, é preciso aprender a mamar, a andar, a falar, e, se a mãe não ensinar, ele morrerá de fome. Do ponto de vista motor, o ser humano é o mais imaturo de todos os seres vivos e o outro, por sua vez, organiza o mundo e a apresenta à criança de acordo com sua cultura, vivência e relação com outras pessoas. Nas diversas sociedades e em diferentes tempos históricos, existe uma variedade de vínculos e ele não é mais exclusivo da mãe. Estudos enumeram que um bebê pode ter várias pessoas com quem estabelece vínculos. Na prática, isso ocorre com algumas pessoas: pais, avós, tias e irmãos. 

Há diferença entre vínculo e amor?

Existe uma ideia geral de que toda mulher vai amar seu filho desde o primeiro momento ou que toda mulher deseja ser mãe. Isso não é verdade. O exemplo pode estar no número de mulheres que optam por não serem mães ou que adiam a maternidade por conta de outras prioridades, como a carreira, por exemplo. Essa concepção talvez venha de outra geração, quando as mulheres eram exclusivamente mães e donas de casa, mas, na verdade, o que acontecia era que elas não tinham tempo para pensar nessas questões, pois tinham filhos seguidos e não dava tempo de estabelecer vínculos tão fortes. Em alguns casos, os irmãos mais velhos eram os que cuidavam dos mais novos e essa relação era estabelecida com eles. As mães não tinham muito tempo de ficar pensando em teorias, vínculos e a construção do amor... Por sua vez, o vínculo estabelecido com um irmão mais velho não impacta no amor que a mãe sente por ele. Esse amor cor-de-rosa, do comercial de margarina, não é muito real.

Para a psicóloga, é necessário entender o caminho da mulher no desenvolvimento do amor maternoSe vínculo e amor são diferentes, por que, mesmo no século 21, assuntos relacionados à maternidade são alvos de discussões?

A mãe é muito cobrada e, muitas vezes, com o nascimento do bebê se sente deprimida e não sabe como lidar com a situação. Mas a sociedade trata como se a mulher fosse capaz de cuidar mesmo diante de tanta dificuldade com o sono, os hormônios e até a amamentação. Ela sente raiva, amor, tristeza, um misto de sentimentos. É a verdadeira história: no nascimento, amor e ódio chegam juntos. O amor está ali, o afeto existe, mas parece que ele é o principal nesse contexto, quando o fundamental é cuidar da mãe, dar o apoio, acolher. Por isso, em alguns casos, a depressão é tão frequente. E o espaço que a mulher tem hoje na sociedade faz com que isso fique mais evidente.

Podemos dizer que a relação do filho com a mãe “moderna” é diferente quando comparada a outras gerações? Por quê?

O avanço da tecnologia permitiu uma maior interação entre o bebê e a mãe desde a barriga e, consequentemente, o vínculo é estabelecido bem antes. O mesmo acontece com o pai, que, antes, podia apenas sentir os movimentos do bebê na barriga no quarto ou quinto mês de gravidez. Os aparelhos de ultrassom, cada vez mais desenvolvidos, hoje permitem que ele acompanhe o crescimento do bebê e, assim, o vínculo vai sendo estabelecido. Esse é um avanço da modernidade que contribui ativamente para a construção da relação — e talvez seja essa uma diferença entre as gerações. 

Diante de diversas teorias, há diferentes maneiras de se entender o amor materno. Sendo assim, é possível responder se ele é mito ou verdade?

O amor materno existe, entretanto, é necessário entender o caminho pelo qual a mulher passa para expressar esse sentimento. É uma questão total de acolhimento a ela nesse período, que é  um dos mais importantes da vida, uma fase difícil psicológica, fisiológica e emocionalmente. Estamos falando em casos de família que possui condições estáveis para gerar um bebê, mas o que acontece quando o assunto é uma parcela de mães que vivem em condições menos favorecidas? A resposta está no grande numero de mães adolescentes, entre 13 e 15 anos, que gestam e dão à luz sem apoio. Enquanto elas sofrem discriminação por serem pobres, ninguém garante que as famílias que saem em grandes revistas possuem uma família estruturada. A verdade é que sem vínculo, independente de qual seja, a criança definha e o amor, por vezes, é o alicerce para a construção de laços tão fortes que independe de características, moldes ou formatos pré-definidos. Basta amar. E ponto. 

Como foi sua trajetória para se aprofundar em um assunto tão atual e relevante?

Cursei Filosofia em 1958 e me especializei em Psicologia Clínica em 1962. Meu esposo, Sergio Henrique Ferreira, era médico e foi convidado a lecionar na USP. Foi quando nos mudamos para Ribeirão Preto e eu comecei a atuar no Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria, passando a atuar na área de Psicologia infantil e me imergi nessa história a fundo. Junto com uma assistente social, passamos a analisar o comportamento das crianças internadas em relação aos enfermeiros que trabalhavam no regime de trabalho de 12 por 36 horas. Nesse formato, ambos sofriam quando as crianças deixavam o hospital e havia uma quebra no vínculo entre elas. Além de estarem separadas das famílias, elas não tinham um cuidador que fosse referência. Depois de um período de doutorado na Inglaterra, voltamos para a Faculdade de Medicina. Após anos de trabalho, criamos o primeiro laboratório observacional de pesquisa, onde analisávamos, por meio de um espelho unilateral, o comportamento das crianças quando estavam com a companhia das mães e outras cuidadoras. Em 1976, tornei-me docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e passei a pesquisar a reação delas nas creches ou em instituições de abrigo em Ribeirão Preto, a construção de vínculos com a mãe e com outros membros da família e a interação entre elas. De lá para cá, tenho tentado contribuir, ao máximo, com pesquisas acerca do assunto com materiais para serem usados pela população www.cindedi.com.br. Estamos participando de um estudo internacional, envolvendo um conjunto de países como Nova Zelândia, Austrália, Escócia, Finlândia e Estados Unidos que analisa a transição da criança no primeiro ano de vida  da casa para a creche. 


Texto: Cristiane Araujo  | Fotos: Luan Porto

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