A Páscoa com alegria

A Páscoa com alegria

Além dos aspectos religiosos e históricos, as tradições pascais representam um momento de união e celebração entre as pessoas

A Páscoa é um momento de renovação, seja para quem é religioso ou não. As tradições e os símbolos da data, que representam a fertilidade e a vinda de novos tempos, são usados há séculos nas comemorações desse período. Em culturas e em religiões distintas, a Páscoa é comemorada de formas diferentes, mas com os mesmos valores de fraternidade e união.

O historiador e filósofo Wlaumir Souza analisa as tradições e aspectos históricos que a Páscoa trazO historiador Wlaumir Souza explica que as primeiras festividades pascais vêm de tradições nórdicas e germânicas, em que se comemorava o dia de Ostara, deusa da fertilidade, do renascimento e do amor. “Ostara é uma deusa da primavera, e por isso a época de Páscoa era associada ao culto da fertilidade na Europa, que saía de um rígido inverno e via a natureza desabrochar em flor. Comemorava-se a alegria da vida ressurgir. Por outro lado, a Páscoa remete ao Pessach judaica, em que se revive a passagem à liberdade da escravidão vivida no Egito. Entre os católicos, remete à ressurreição de Cristo, que, segundo os cristãos, teria ocorrido no dia de Páscoa”, comenta Wlaumir. A origem nórdica das festividades de Páscoa também tem a ver com os símbolos que se tornam tão lembrados na Páscoa: o ovo e o coelho que representam a fertilidade. “Coelhos e ovos eram símbolos da fertilidade, da fartura. O hábito de dar ovos coloridos na Páscoa foi trazido para as Américas pelos imigrantes alemães no século XVIII. Eram ovos pintados e escondidos para serem encontrados. Na origem, eram trocados ovos no Equinócio da Primavera. Os ovos como forma de presentear estão em diferentes culturas”, explica o historiador. 

De ovos pintados a ovos de chocolate, houve uma transição inusitada, em que se usava o ouro como material para fazer ovos. “O ato de presentear com ovos de aves esvaziados e pintados foi substituído por ovos banhados em ouro na Inglaterra por Eduardo I, que presenteava os súditos preferidos. Na França, primeiro, os ovos de aves eram recheados com chocolate. Hoje, chegamos à forma atual, mais comercial e lucrativa. Na Rússia, por exemplo, são famosos os ovos de joalherias chamados de Ovos Fabergé, um dos sinais da opulência da elite da Rússia Czarista”, analisa Wlaumir. Para os católicos, a preparação para a Páscoa começa bem antes da data em que Jesus ressurge dos mortos. Segundo o padre Francisco Moussa, pároco da Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto, tudo começa na Quarta-Feira de Cinzas. “Neste dia acontece a abertura do tempo da Quaresma, que deve ser de conversão, reflexão, jejuns, penitência e prática da caridade. Todas estas práticas nos levam a seguir os ensinamentos de Jesus, que ficou por quarenta dias no deserto e passou pela experiência da Páscoa”, explica o padre. 

Cada evento que antecede a Páscoa marca uma data de grande importância durante esse período de penitência. O Domingo de Ramos, por exemplo, relembra o dia em que Jesus chegou triunfalmente a Jerusalém e foi recebido com alegria, antes de passar pela experiência de paixão, morte e ressurreição. A data também marca o início da Semana Santa. Durante a Quaresma, há também o costume de não comer carne às sextas-feiras. O pároco explica o significado dessa penitência. “A Igreja sempre recomendou abster-se da carne nas sextas-feiras do período da Quaresma para relembrar a Paixão de Cristo. O sacrifício de abster-se da carne seria semelhante ao sacrifício do Cristo, o que nos levaria a estar em comunhão com Ele. Na história da Igreja, a carne sempre foi apontada como um sacrifício digno, devido à sua associação com festas e celebrações. Na maioria das culturas antigas, a carne era considerada uma iguaria e o ‘bezerro engordado’ não era abatido a menos que houvesse algo para comemorar. Como as sextas-feiras passaram a ser consideradas um dia de penitência e mortificação, comer carne nesse dia para celebrar algo não parecia certo”, analisa padre Chico.

O pároco da Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto, Francisco Moussa, explica o significado religioso dos costumes pascaisAntes da celebração do domingo de Páscoa, a Sexta-feira e o Sábado Santo também têm passagens com significados importantes para os católicos. Na sexta-feira, relembra-se a paixão e a morte de Jesus, e o sábado é o dia em que o Cristo não é encontrado em seu túmulo, para ressurgir no domingo. “Na sexta-feira, acontece a Celebração da Santa Cruz ou Ação Litúrgica da Paixão de Cristo, onde toda a Igreja deve se voltar para o lenho da cruz em contemplação e profundo gesto de amor e reverência. A vigília Pascal, no sábado, tem três momentos importantes: a bênção do fogo novo e o acendimento do Círio Pascal, que representa o Cristo ressuscitado; a liturgia da palavra que tem a leitura do Êxodo, que narra a passagem dos israelitas pelo Mar Vermelho, quando fugiam das tropas egípcias, sendo salvos por Deus. Nesta noite, recordamos que somos salvos pelo seu Filho; e o momento em que toda a Igreja renova as promessas batismais, renunciando toda a maldade e as seduções do inimigo, buscando sempre ter uma vida nova no Cristo Ressuscitado”, destaca Chico.

Ele frisa, ainda, que as penitências propostas pela Igreja têm a intenção de promover reflexões, e principalmente, a caridade. “Nos dias atuais, a Igreja ensina que a prática do jejum deve ter um sentido mais profundo e concreto. Ao se abrir mão da carne ou de qualquer outro alimento, o que se faz com o dinheiro que se usaria para comprar o mesmo? Deve-se fazer um gesto de caridade com uma doação. Muitos católicos fazem o jejum da carne nos quarenta dias de preparação para a Páscoa, e quando chega a Sexta-Feira Santa, preparam aquelas ricas e suculentas bacalhoadas, enquanto muitos passam fome e estão na miséria, sendo que a data é dia de jejum e penitência. Por que, nesse dia, em vez de se pagar tão caro no bacalhau não se usa esse dinheiro para ajudar alguma família carente ou algum trabalho social? Assim, ensina a Igreja”, finaliza o padre.

Tradição que une

Para Cris Menegussi, Cleber Castilho, seu marido, e os filhos do casal, Robert, Ana Lívia e o pequeno Caetano, a Páscoa vai muito além da religião e é uma data que reúne tradições e boas lembranças. “A gente gosta de coisas diferentes! Em todas as festas do ano, fazemos algo para marcar aquela data”, conta Cris. A família está sempre junta e compartilhando momentos especiais como a Páscoa, até mesmo criando novas atividades juntos. Essa comunhão entre os cinco estimulou, até mesmo, a mãe a compartilhar sua rotina sobre a maternidade na internet, no Instagram Mamãe 3 Vezes. “Geralmente, fazemos o almoço de Páscoa com a família toda. Neste ano, planejamos fazer nossos próprios ovos de chocolate para presentear! Compraremos as formas e faremos os ovinhos juntos”, revela Cris. Com a chegada de Caetano, de 4 meses, a família já pensa em como serão as próximas Páscoas. Quando os irmãos Ana Lívia e Robert eram crianças, os pais faziam a caça aos ovos para que eles se divertissem, e esse hábito voltará para alegrar as Páscoas de Caetano. “A gente sempre fez algum tipo de brincadeira. Escondíamos os ovinhos, ou mesmo colocávamos água e comida para atrair o coelhinho da Páscoa”, lembra-se Cris, contente. Enquanto o pequeno Caetano é amamentado, a família se lembra de histórias engraçadas de Páscoas passadas. “Houve um ano em que escondemos os ovos e eles estavam demorando para achar. Por fim, fiquei tentando lembrar onde tinha colocado. Lembrei que na verdade eu tinha me esquecido de esconder, e os ovos estavam na geladeira”, lembra-se Cleber.

Já Aline Barchelli Pinheiro ensina seu filho, Bruno Augusto Pinheiro Marcellino, de 5 anos, desde cedo sobre os significados da Páscoa. “Desde quando Bruno era bem pequeno costumo explicar o significado dessa data, que não é só ganhar o ovo de chocolate. Por causa do trabalho, não foram em todos os feriados que conseguimos ficar juntos, mas quando não passamos a Sexta-Feira Santa juntos tem sempre o domingo para compensar. Celebrar essa data com o Bruno teve um significado especial. Costumamos comer juntos, organizar alguma brincadeira, ir a alguma celebração religiosa e, claro, esperar o coelhinho da Páscoa”, conta Aline. Entre as brincadeiras estão pinturas, músicas, contação de histórias, e claro, a espera pelo coelhinho. “Eu encomendava ou fazia patinhas que imitam as do coelho e formam um caminho. Às vezes, monto uma cesta com cenoura como se fosse um ninho, e escondo algumas surpresas. Também já fiz pequenas trocas com o coelho. Teve um ano que o Bruno deixou as fraldas no ninho do coelho para ganhar um ovo de chocolate, e no outro ano, ele deixou a mamadeira, para que o coelho deixasse outro ovo. Mesmo quando passamos o feriado em outro lugar, eu levo as coisas e organizo o caminho do coelho em qualquer lugar, com mais crianças, primos, e tudo vira uma grande brincadeira. Sempre registrei as surpresas, é sempre bom olhar a carinha dele de expectativa e alegria quando encontra o ovinho ou pergunta se o coelho tinha realmente passado por ali”, declara Aline. Neste ano, mãe e filho  escreverão juntos uma carta para o coelho com três pedidos, além do ovo que Bruno quer ganhar. Na cozinha, eles vão preparar juntos, também, receitas de Páscoa como bolachinhas e sobremesas com chocolate. 

Aline Barchelli estimula a imaginação do filho Bruno, de 5 anos, com várias brincadeiras e atividades que os dois fazem juntos na Páscoa

Datas importantes

Para os católicos, o período que antecede a Páscoa é de grande importância para a celebração. Confira o que significam essas datas.

Quarta-feira de Cinzas
É o primeiro dia a Quaresma. Ela acontece sempre quarenta e quatro dias antes da Páscoa. Inicia-se com o rito da imposição das cinzas, como uma marca indicativa de um tempo de penitência e conversão. 

Domingo de Ramos
Celebra-se a entrada de Jesus em Jerusalém, que marca o começo da Semana Santa e prepara os cristãos para reviver a Paixão, Morte e Ressurreição. Os ramos, abençoados nesse dia, são o sinal da vitória da vida sobre a morte e o pecado. 

Tríduo Pascal (Quinta-feira Santa)
Neste dia recorda-se a Última Ceia de Jesus com os discípulos e celebra-se a instituição da Eucaristia. Além disso, ocorre o rito do lava-pés, repetindo o gesto de Cristo que lavou os pés dos seus discípulos.

Sexta-feira Santa
É o dia em que se lembra a crucifixão de Jesus com muito respeito, silêncio, jejum e oração. Não é um dia de luto, mas de meditação diante da morte de Jesus que, morrendo, foi vitorioso

Sábado Santo
As primeiras comunidades cristãs honravam a sepultura de Jesus, passando o Sábado Santo no descanso e na espera, na oração silenciosa e em um rigoroso jejum. Hoje, o jejum não é tão rigoroso, nem o silêncio tão absoluto, mas é um dia de serena e alegre espera. O Sábado Santo, com o Jejum e com a Oração silenciosa, expressa também nossa inquebrantável esperança na ressurreição final e na Segunda vinda do Senhor.

Costumes à mesa 

Para Renato Aguiar, a tradição no almoço de Páscoa deve contemplar a todos os que estão à mesa, dos jovens aos idosos da família. “No almoço de Páscoa, você tem pessoas mais velhas, jovens e crianças. O menu deve ser de comfort food. Você pode ter pratos como o lombo de porco com arroz de pato, um rosbife, que é importante, quando se pensa nas crianças, além de algo dos dias atuais, como uma salada de quinua e pratos veganos”, ensina Renato. 

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