A Páscoa e seus simbolismos

A Páscoa e seus simbolismos

Representando a passagem, a maior festa cristã propõe momentos de reflexão e de preparação para uma vida nova

Ao entrar na casa de Eni Cury de Paula já é possível perceber que ali vive uma família católica. Crucifixos e imagens de santos dão as boas-vindas a quem chega e também representam a fé passada de geração em geração. “Sou filha de pai católico ortodoxo e de mãe católica apostólica romana. Minha família paterna veio do Líbano e meu bisavô era padre. Minha primeira escola foi o Vita et Pax, então, sempre tive uma formação religiosa bastante acentuada”, conta a administradora de empresas.

Às vésperas da Páscoa, o clima da entrada da casa — e de todos os outros ambientes — fica ainda mais especial. “A Páscoa é a festa máxima da igreja católica, pois a nossa fé se baseia na ressurreição de Jesus”, explica Eni, que se prepara para a data fazendo penitências, intensificando as missas e as leituras. Ela diz que a Quaresma é tempo de conversão, de mudança, de reflexão, de crescimento espiritual, momento que deve ser muito bem aproveitado.

O Padre Kleber Tostes Pedro, da Paróquia Jesus Misericordioso e Santa Edwiges, explica que a Páscoa tem origem na tradição judaica e significa passagem. No judaísmo, representa a passagem da escravidão para a liberdade e, no cristianismo, refere-se à passagem da morte para a vida, através da ressurreição. Então, a Quaresma é um momento importante justamente para que os cristãos se preparem para uma vida nova, para a morte de tudo aquilo que o impede de viver a palavra de Deus.

Há sete anos, Eni passou a ter uma participação mais ativa nas ações na igreja. Ela entrou para um grupo devocional da Rosa Mística, fundado pelo Irmão Lazinho, um religioso estigmatino que converte as pessoas através da fé. Semanalmente, Eni recebe o grupo na sua casa para os encontros de adoração, liderados pelo Padre Kleber. Ela comenta que o grande incentivador dos terços em família foi o bispo Dom Joviano de Lima Junior, que faleceu no ano passado. “De um tempo para cá, o papel do leigo na igreja mudou bastante. Hoje, ele também evangeliza e testemunha a fé. É muito importante que sejamos participativos”, salienta.

Eni acredita tanto nisso que é ministra extraordinária da comunhão na Paróquia Nossa Senhora de Fátima. A filha e o genro exercem a mesma função na Paróquia Jesus Misericordioso e Santa Edwiges. Ela tem cinco filhos e os educou nos ensinamentos cristãos. Espera deixar para os netos os mesmos conceitos. “A fé é um dom de Deus, mas eu espero que eles entendam a importância da religião nas nossas vidas”, frisa.

No domingo de Páscoa, toda a família participa de um almoço, faz oração e se presenteia com ovos de chocolate. Mas a comemoração de Eni começa muito antes. Na quinta-feira, participa da cerimônia do lava-pés, em que é encenado o momento em que Jesus lava os pés dos apóstolos como sinal de humildade e de caridade. Na última ceia, Jesus oferece a Deus-Pai o seu corpo e o seu sangue sob a forma de pão e vinho e os entrega aos apóstolos. Nesta mesma celebração, os óleos do batismo, do crisma, da unção dos enfermos e da ordenação dos padres são benzidos. A procissão com o Santíssimo sai para que ele fique em exposição e adoração até a sexta-feira, às 15h, horário de sua morte.

A sexta-feira é um dia de reflexão e de respeito, em que se faz jejum pela morte de Jesus Cristo. Às 15h é celebrada a Paixão do Senhor, composta de três partes: a liturgia da palavra, a adoração da cruz e a comunhão eucarística. Em seguida, acontece o Ofício das Trevas e o Sermão das Sete Palavras, lembrando as últimas palavras de Jesus. No Sábado Santo ou Sábado de Aleluia, a principal celebração é a vigília pascal em memória da noite da ressurreição. A igreja mantém-se de vigília à espera da vitória de Jesus sobre a morte. Padre Kleber aponta que esta é a celebração mais importante da Páscoa. Nesta solenidade, é aceso o círio pascal, representando o tempo pascal. “A ideia é que uma vela acenda a outra. Aqui em casa, o círio é aceso nos momentos de alegria e de aflição”, revela Eni.

No domingo, são celebradas missas festivas durante o dia todo. A Páscoa simboliza a solidariedade, a participação e a reconciliação. Por isso, a igreja incentiva tanto a reflexão, a interiorização e a renovação da fé cristã durante a Quaresma. “Este tempo é ideal para a confissão, para as pessoas se prepararem para a Páscoa, para a vida nova”, reforça Padre Kleber. Nesta época, também é muito comum que a penitência, como sinal de preparação para a nova etapa. Eni faz questão de participar de todas essas manifestações de fé. “Se as pessoas tiverem mais conhecimento, vão se interessar, se motivar e ter um ganho espiritual muito grande. Não é porque nós fazemos a ação litúrgica que deixamos de confraternizar. É preciso conhecer o verdadeiro motivo da celebração”, finaliza.



Alguns símbolos marcam a comemoração da Páscoa e têm um significado específico durante esse período:


A colomba pascal é um pão no formato de uma pomba, criado por um confeiteiro do norte na Itália, representando a vinda do Espírito Santo sobre os povos cristãos. Além disso, a receita típica desse feriado simboliza a paz em Cristo.


O cordeiro foi sacrificado em homenagem à libertação do povo de Deus, que fugiu do Egito, onde era escravizado. Para os cristãos, o cordeiro representa Jesus Cristo, crucificado pelos pecados dos homens.

 

O peixe é o mais antigo dos símbolos de Cristo. O cristão é mergulhado nas graças de Cristo e na vida divina pela água do batismo, no momento em que nasce espiritualmente, como os peixes que nascem dentro da água.

Os sinos cantam a alegria da ressurreição expressa nos cânticos de Aleluia. Depois do silência na Quaresma, seu som festivo proclama a ressurreição de Cristo sábado à noite, anunciando novos tempos e alma renovada.

 

O pão e o vinho representam a eucaristia. Como Jesus sabia do sofrimento que viria, chamou seus discípulos e fez a Santa Ceia, oferecendo pão e vinho, que passaram significar o corpo e o sangue de Cristo em busca da vida eterna.

O círio pascal é uma vela acesa, colocada no centro da mesa do almoço de Páscoa para representar o renascimento, a ressurreição de Cristo. No círio aparecem os símbolos alfa e ômega, monstrando que Deus é o princípio e o fim de tudo.

 

O girassol é a forma de mostrar que a humanidade deve sempre seguir a luz de Deus. Assim como esta flor segue a luz do sol, não importa de que lado ela chegue, os filhos de Deus devem manter sua vida guiada pela fé.

 

O coelho simboliza a rápida e múltipla fecundidade da própria igreja, que está espalhada por toda parte, produzindo e dando sentido à vida. Há um número incalculável de filhos de Deus, frutos da graça da ressurreição.




No cristianismo, o ovo, aparentemente morto, é o símbolo da vida que surge repentinamente, destruindo as paredes externas e irrompendo com vida. Este símbolo também refere-se a ressurreição.

 

 





Realizada pela Prefeitura de Ribeirão Preto, por meio da Secretaria Municipal da Cultura, em parceria com o Centro Cultural Arco-Íris, a encenação pública representa não só a via-crúcis, mas aborda também problemas atuais, como a miséria, a fome, a guerra, as desigualdades, a violência, o ódio, o terrorismo e as injustiças. O maior evento cultural-religioso da cidade é marcado por muita fé e tradição e chega aos 31 anos atraindo grande púbico. Integrando o calendário oficial cultural de Ribeirão Preto, a Caminhada do Calvário tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial da cidade. Este ano, ela acontece no dia 29 de março, sexta-feira, tem início na Esplanada do Theatro Pedro II, passa pelas principais ruas do centro e chega ao Morro do São Bento, onde acontecem as cenas finais da crucificação e ressurreição de Jesus. Toda a encenação conta com cerca de 300 atores e figurantes, e é dirigida pelo professor Osmani de Oliveira.





Antes mesmo do cristianismo, o ovo já representava a fertilidade e o renascimento. A troca de ovos marcava o início da primavera, com votos de uma boa colheita. Quando a Páscoa cristã começou a ser celebrada, a cultura pagã foi integrada à Semana Santa e o ovo como símbolo da ressurreição de Cristo.

No início, eram coloridos e decorados, até que os franceses passaram a rechear ovos de galinha, depois de esvaziados de clara e gema, com chocolate. Mesmo assim, o costume de pintá-los era preservado. A partir do final do século XIX, surgiram os ovos feitos de chocolate. Hoje, são trocados no almoço de Páscoa. Na Doce & Festa Distribuidora, a Páscoa é o período mais aquecido de vendas, tanto que, há três anos, a empresa decidiu produzir sua própria linha de ovos de chocolate. Este ano, estão sendo feitos 50 mil ovos, de 30 gramas a 500 gramas, além dos 30 mil ovos que a distribuidora comercializa de fabricantes tradicionais e de números expressivos de outros produtos, destinados principalmente a doações. Com 22 anos de atuação, a Doce & Festa Distribuidora recebeu outros convites para ter a sua própria linha de ovos de chocolate, mas foi através da Barry-Callebaut, de origem belga, que sentiu confiança para entrar neste mercado. “Diversificamos nossa linha e nos tornamos mais competitivos no preço, diante dos fabricantes tradicionais. Com a parceria, conseguimos aliar qualidade e preço”, afirma a proprietária Carmen Iazetta. Especializada no segmento, a Doce & Festa também oferece barras de chocolate, formas, embalagens, fitas, cestas e toda a matéria-prima necessária para a confecção dos ovos. “Optamos por industrializar nossos ovos para não concorrer com os clientes que fazem produtos caseiros. Esses clientes são muito importantes para a empresa”, frisa Carmen, completando que oferece cursos profissionalizantes na área.

Mesmo com as vendas em alta, Carmen ressalta que é preciso despertar nas pessoas o verdadeiro sentido da Páscoa. “Além de vender, que é o meu negócio, gosto de lembrar o que esse período representa. A Páscoa é uma data de entrega e nunca podemos nos esquecer disso. Os ovos vêm na hora de festejar”, conclui.

 

Texto: Máisa Valochi
Fotos: Carol Alves e Julio Sian
Diagramação: Lucas Chaibub

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