A Páscoa em sua essência
Data que marca a ressurreição de Jesus traz mensagem de esperança em meio à pandemia de Covid-19
Neste domingo, dia 4 de abril, comemora-se a Páscoa. Pelo segundo ano consecutivo, a data — que, para os cristãos, marca a ressurreição de Jesus Cristo — terá uma atmosfera mais reflexiva por causa da pandemia do novo coronavírus. Com recordes no número de óbitos, falta de leitos e de medicamentos nos hospitais, número de casos confirmados em alta, embates políticos e uma economia duramente afetada, não existe espaço para festejar. Além disso, a recomendação do distanciamento social continua, o que impossibilita que as celebrações presenciais nas igrejas e as tradicionais confraternizações familiares aconteçam. No entanto, apegar-se à essência dessa comemoração pode renovar a esperança de que dias melhores estão por vir.
É nessa ideia que a escritora Manuela Titoto acredita. “A Páscoa simboliza o renascimento. Foi o jeito de Jesus nos salvar e deixar seu legado. Ao dar à vida por nós, nosso salvador conseguiu mostrar que a vida não termina e o amor nunca acaba. Neste ano, quando penso na Páscoa, me vem à cabeça a obra ‘Transfiguração’, do renascentista Rafael Sanzio. Nela, na parte superior, Jesus ascende com todo seu esplendor e beleza. Na parte inferior estão os homens, em cores mais quentes e gradativamente mais escuras, numa cena de conflito e desespero. A humanidade está no caos, mas olhando para o céu. A mensagem que esse quadro passa é que a fé é o caminho. Temos de trazer essa mensagem para a nossa realidade”, observa.
A escritora recorda como costumava ser esse dia especial. “Na minha família, sempre acordamos ansiosos para procurar os ovos que o coelhinho escondeu (figura mística para mim, afinal, por que um coelho deixa os ovos, visto que não os produz?). Depois de exercitar esse lado lúdico e encontrar os chocolates, voltamos nossa atenção para o verdadeiro motivo da comemoração: o amor, sacrifício e vitória do Nosso Senhor”, comenta. No ano passado, o cenário já foi diferente. “Ainda não havia muito conheci[1]mento sobre a pandemia. Era tudo incerto. Em tantas conjecturas, parecia que ia passar logo. Lembro claramente de pensar: ‘No meio do ano, as coisas vão voltar ao normal’. Que ingenuidade! Um ano depois, cá estamos”, lamenta.
Para contribuir na reversão desse quadro, a família repetirá a programação de 2020 e ficará em casa. “Apenas nós. E o coelhinho, né? Aposto que ele vai usar máscara e álcool em gel este ano. Estamos cansados. Não sabemos quando isso vai acabar, mas eu desejo que essa Páscoa seja um recomeço, na vida e nos ânimos de todos. Vamos renovar o espírito e agradecer pela vida. Temos que seguir em frente. Uma passagem da Bíblia diz: ‘Para que se nasça novamente, é preciso se livrar das velhas vestimentas’. Uma lição mais valiosa do que nunca. É hora de se agarrar ao fio de esperança que sobrou, com a certeza de que venceremos”, acrescenta a escritora.
Cada um faz sua parte
Muito tem se comentado sobre a importância do senso coletivo na batalha contra o novo coronavírus. Cada um precisa fazer a sua parte, cumprindo as orientações das autoridades competentes com responsabilidade. Ao se cuidar, a pessoa também está cuidando do próximo, da sua comunidade e da população.
Para o infectologista e professor da Faculdade de Medicina de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) Fernando Bellissimo Rodrigues, a pandemia é uma resposta da natureza aos exageros da humanidade. Portanto, para que o mundo consiga renascer das cinzas, é preciso dar alguns passos para trás, em diversos senti[1]dos. “O ser humano invade o espaço de outras espécies, destrói seus habitats naturais, caça animais silvestres e trafica. Se os limites fossem respeitados, as chances de ser contaminado por um vírus como esse seriam infinitamente menores. Estima-se que exista pelo menos 1 milhão e 400 mil vírus circulando em aves e em mamíferos silvestres que são desconhecidos da ciência. Acredita-se que pelo menos a metade deles pode infectar o ser humano”, explica Bellissimo.
Outro ponto mencionado pelo especialista é a intensa circulação, de pessoas e de produtos. “Se essa doença tivesse surgido há 5.000 anos, em uma aldeia qualquer, ela teria dizimado toda a população, mas não teria se espalhado. Hoje, a movimentação desenfreada, além de promover o aquecimento global, facilita o processo de disseminação de doenças. Vamos ter que regionalizar o comércio. Itens básicos para a nossa sobrevivência devem ser produzidos em todos os lugares. A importação e a exportação nunca vão acabar, mas podemos restringir essas operações ao que for, de fato, necessário”, argumenta. O médico ainda destaca que existe uma ação internacional com o objetivo de estabelecer um decrescimento sustentável. “O planeta já mostrou que não tolera esse crescimento ilimitado. Estamos pagando um preço alto por isso. Para vislumbrarmos um futuro melhor, precisamos parar e repensar. Temos que preservar a natureza, minimizar o aquecimento global e implementar um planejamento familiar. Ou o ser humano aprende com essa lição, ou, infelizmente, pandemias como essa vão se repetir em intervalos cada vez menores”, conclui.
A chance de despertar
A Covid-19 está aí, tirando vidas, levando o sistema de saúde ao colapso e comprometendo a fonte de renda, principalmente, da população mais carente. Isso é um fato. “Já a maneira como escolhemos encarar essa realidade é opcional”, afirma Thais Navarro. Com uma trajetória marcada por adversidades, a jornalista e visual designer encontrou, em um momento de máxima fragilidade, uma oportunidade de reviver. “De 2018 a 2019, lidei com um câncer de ovário. Longe de mim fazer drama, mas essa é realmente uma experiência traumática. Depois de duas cirurgias e 12 bolsas de quimioterapia, de ter sobrevivido ao maior impacto que minha saúde já teve, de perder todo meu sistema reprodutivo e de entrar na menopausa aos 30 anos, de perder cada pelinho do meu corpo, eu entendi o quão vulnerável somos e o quão forte podemos ser ao mesmo tempo. Foi um restart no sistema, um despertar grande para o presente, para as escolhas que vão contra ou a favor da minha vida. Foi uma segunda chance”, descreve.
A partir de então, a designer deixou de lado as expectativas dos outros, a obrigação de ficar presa a situações e pessoas tóxicas, e investiu no autocuidado. “Essa não foi a primeira situação difícil que eu passei e, como mulher periférica, provavelmente não será a última. Passei a valorizar mais o tempo comigo mesma e com meus animais e plantas. Cuido da minha alimentação e faço atividade física. Entendi melhor meu papel ativo no meu bem-estar e na minha história. Na minha vivência, fui preparada para quase tudo de ruim. Hoje, busco ser a esperança que eu gostaria de ver no mundo. Tento mostrar para as pessoas que elas não precisam esperar sentir esses problemas na pele para, aí sim, mudarem suas perspectivas”, argumenta. Em um cenário como o atual, Thais destaca a empatia e a solidariedade como poderosas ferramentas de transformação.
Na última semana, inclusive, ela promoveu uma ação nesse sentido. “Como os itens de higiene não acompanham as cestas básicas, criamos uma campanha para arrecadar esses materiais. Em três dias, foram doados R$ 6.575,22 e alguns produtos, que nos permitiram montar 170 kits com shampoo, condicionador, aparelho de barbear, desodorante, absorventes, cremes dentais, sabonetes, máscara e álcool gel (em 100 deles). Fiz adesivos para lacrar os pacotes e um folheto informativo sobre a Covid-19. Com a ajuda de amigos, distribuímos, de casa em casa, na favela da Via Norte, no Simioni. Além disso, 50 kits foram destinados para a ONG Casa das Mulheres, que atende a favela da Locomotiva. Foi muito triste não conseguir ajudar nem 10% daquelas pessoas, mas, é como disse Ariano Suassuna: ‘Como sou pouco e sei pouco, faço o pouco que me cabe me dando por inteiro’”, finaliza.