A poesia dos vestidos

A poesia dos vestidos

“O vestido comporta o enigma do feminino: ele toca algo do corpo da mulher e vai além disso."

Em poucos minutos de conversa, é possível perceber que Bianca Coutinho Dias vive intensamente as mais diversas expressões da arte. Psicanalista por formação, divide-se entre as atividades de sua profissão e a dedicação por outra paixão: a moda. “A minha relação com os tecidos e os vestidos passa por cada narrativa feminina que chega até mim. Por trás de um vestido há sempre uma história, um desejo”, afirma Bia.

Neta de costureira, desde pequena desenvolveu uma relação com os tecidos. Começou costurando para as bonecas, depois para ela mesma e, mais tarde, para as amigas. Fez curso de Corte e Costura e, quando percebeu que a sala de casa estava repleta de caixas de tecidos, resolveu abrir um ateliê. A proposta do negócio é a exclusividade nos tecidos e estampas especiais. Há modelos prontos ou feitos sob medida para o dia, para a noite, para festas e para noivas.

Nascida em Descoberto, Minas Gerais, Bia passou muitos anos em Juiz de Fora, estudou psicanálise no Rio de Janeiro e depois mudou-se para Ribeirão Preto. Hoje, fica na cidade e em São Paulo. Como a escrita sempre atravessou suas atividades, além de psicanalista e estilista, também escreve para algumas publicações, como a Minotauro, revista carioca de artes plásticas e literatura. Aliás, Bianca sempre está envolvida com as mais diversas manifestações de arte.

Suas criações levam a assinatura Vestidos com Poesia, uma forma clara e direta de traduzir seu trabalho, revelando a singularidade, a história de cada um, como uma narrativa transportada para o vestir. Porém, os vestidos de Bia não são apenas retrato de suas clientes, mas também dela mesma. “Penso que, ao desenvolver vestidos, posso dar forma ao meu desejo e, assim, inscrevê-lo no mundo de alguma forma. Nisso me aproximo da poesia e me visto dela”, descreve. A modelagem é sempre leve, fluida, e as estampas são marcantes e coloridas. Por isso, quando escolhe os tecidos, compra apenas o suficiente para um vestido. Assim, não acontecem repetições.

Não são apenas os vestidos que fazem parte do portfólio do ateliê. Bia cria calças, camisas, casacos, entre outras peças, mas o foco da sua criação está nos vestidos. “O vestido comporta o enigma do feminino: ele toca algo do corpo da mulher e vai além disso. Ele possui o corpo e diria ainda, mesmo temendo a ousadia, que ele é o corpo da mulher, pois na escolha de um vestido está aquilo que se quer ‘mostrar-esconder’, está uma história”, define.

Além das estampas exclusivas, o cuidado com o corte está sempre presente. Outro detalhe importante nas peças da Vestidos com Poesia é que todos os tecidos são da malharia Santa Constância. Bia prefere usar seda pura e jérsei de seda para garantir a qualidade e o caimento ideal das suas criações. E é desta forma que a psicanalista exerce sua pluralidade: transitando entre várias frentes de arte, entre textos, terapias, palavras e vestidos, sempre com poesia.

Sobre a criação
“Ao criar a última coleção, pensei em todos os vestidos que já desejei. Passei pelo vestido de Gilda, pelo de Gabriela Cravo e Canela, pelo vestido de veludo azul de Lynch, pelo enigmático de Dolce Vita, dei um passeio pelo vestido de papel que se rasga num lampejo de Jum Nakao. Elaborei essa coleção, pensando em vestidos que já desejei ardentemente os de Audrey Hepburn, Grace Kelly, Jackie O, no vestido de Chez Laurent com a estampa de Mondrian, um Pucci ou um Missoni vintage. A poesia de todos os vestidos de Ronaldo Fraga, aqueles que dizem do Sertão de Guimarães, do Drummond, da Nara Leão e naqueles vestidos boêmios e hippie chics de Woodstock. Bia Dias

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