A polêmica febre amarela

A polêmica febre amarela

A vacina e o cuidado com a proliferação dos mosquitos são métodos para combater a febre amarela. Segundo o secretário Municipal Sandro Scarpellini, 100% da população ribeirãopretana já foi imunizada

Ao longo da história foram muitas as epidemias que provocaram pânico e mataram milhões de pessoas. Algumas doenças combatidas com vacinas foram erradicadas do país e outras, ainda sem cura, podem tranquilamente ser mantidas sob controle. A lista vai de gripes variadas, tuberculose, Aids e cólera até as mais atuais: dengue, zyka, chikungunya e  febre amarela, esta última envolvida numa polêmica que assola os brasileiros com ocorrência de casos em Mairiporã, na região metropolitana de São Paulo. Após o surgimento de macacos mortos na capital —erroneamente associados como transmissores da doença —, a população correu para os postos de saúde em busca de vacinação. 

Em Ribeirão Preto, embora a população tenha se preocupado, não houve registro da doença. O Secretário Municipal de Saúde, Sandro Scarpelini, alerta que não há motivos para alarde, já que a cidade fica fora da zona de perigo. “Fizemos a lição de casa. No ano passado, perto de 100% da população foi imunizada”, tranquiliza o gestor. Sandro relembra a morte de um homem, no fim de 2016, por febre amarela e ressalta que hoje o cenário é diferente. Desde 1992, a cidade faz parte da região recomendada para a vacinação contra a doença. “Com essa morte, foi necessário o reforço da vacinação e nós conseguimos fazê-lo ao longo de 2017, além de cumprir a rotina do calendário de vacinação das crianças, que inclui a da febre amarela”, afirma o secretário. 
Sandro explica que não há motivos para alarde, já que Ribeirão Preto não está situada em região de risco
No ano passado, foram mais de 96 mil doses aplicadas, de acordo com Sandro.  “Acredito ser esse o principal motivo para Ribeirão Preto não ter registrado mais nenhum caso da doença”, reforça. Pessoas que ainda não foram vacinadas devem procurar os postos de vacinação para checar a necessidade. Além disso, foi intensificado o monitoramento de macacos, bem como dos que foram encontrados mortos, encaminhados para exames. “Ao longo do ano, foram encontrados mais de 200 animais mortos. Todos encaminhados para análise e apenas em dois o diagnóstico da causa da morte foi a febre amarela. Além disso, esse é o nosso melhor parâmetro para avaliar a circulação do vírus na nossa cidade e região”, ressalta o secretário.

A febre amarela é uma doença infecciosa causada por um vírus e transmitida por mosquitos. A infecção pode ser categorizada de duas formas: febre amarela urbana, quando é transmitida pelo Aedes aegypti, ou febre amarela silvestre, quando transmitida pelo Haemagogus e Sabethe. Na maioria dos casos, os sintomas incluem febre, calafrios, perda de apetite, náuseas, dores de cabeça e musculares que, normalmente, melhoram em cinco dias. Em algumas pessoas, depois de um dia, os sintomas melhoram, a febre diminui e surgem dores abdominais, lesões no fígado e icterícia (amarelidão), aumentando o risco de insuficiência renal. Há casos, porém, que já começam com sinais bastante graves, atingindo vários órgãos do corpo, principalmente o fígado e os rins. Os sintomas dessa fase são febre alta, icterícia pela inflamação no fígado, vômitos com sangue, urina escura, sangramentos de pele e olhos avermelhados. Em casos mais críticos, o paciente pode adoecer muito rapidamente e falecer. 

Até 50% das pessoas infectadas podem chegar à morte, segundo Valdes Bollela (CRM 75239), infectologista e professor associado da Divisão de Moléstias Infecciosas e Tropicais da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). O especialista aponta que não há um tratamento específico (antiviral) para a doença e, em alguns casos, é necessária a internação em unidade de terapia intensiva para um profundo acompanhamento do estado de saúde do paciente.

Segundo o médico, o único método e o mais eficaz contra a febre amarela é a vacinação, além de evitar criadouros de mosquitos. “Embora possam causar reações, as vacinas estimulam o nosso sistema a produzir os anticorpos contra o vírus. Pessoas que tenham alergia a proteína do ovo ou que tenham alguma doença grave que leve à diminuição da defesa do organismo, como uso de drogas imunossupressoras, Aids, entre outras, e quem já foi vacinado com a dose habitual também não tem indicação de tomar nova vacina”, pontua. Em idosos e gestantes, a aplicação da vacina deve ser evitada e, para ser realizada, é necessária uma indicação médica. Valdes ainda reforça que o adequado seria evitar áreas em que esteja havendo a transmissão silvestre da febre amarela, como parques ou matas, ou que existam macacos infectados. “Essas áreas estão se ampliando no Brasil na direção das regiões Nordeste, Sul e Sudeste”, completa.

O levantamento do Ministério da Saúde aponta que, entre 1980 e 2004, 662 casos de febre amarela foram confirmados no Brasil, sendo, deste total, 339 óbitos, o que representa uma taxa de mortalidade de 51%.  Já no período entre julho de 2017 até meados de janeiro deste ano, foram registrados 35 casos de contaminação pela doença no país. Devido à alta morbi-mortalidade, que gira entre 35% e 50%, está se recomendando a vacinação de todas as pessoas entre os nove meses e 60 anos que moram em áreas de risco. 
Segundo o infectologista Valdes, a vacina, embora possa causar reações, é o método mais eficaz contra a doença
A partir do ano 2000, houve ampla expansão da área de transmissão do vírus da febre amarela devido à aproximação das cidades com algumas áreas silvestres e a chegada do vírus até macacos em regiões em que ele antes não aparecia. “Com a presença de macacos infectados em regiões onde as pessoas não estão imunizadas existe maior risco de haver doença entre humanos”, explica o médico. Os macacos são os maiores hospedeiros da doença, entretanto, não podem ser vistos como vilões. Na verdade, eles são tão vítimas quanto os humanos. A morte deles, no entanto, auxilia a identificação da doença na região em que são encontrados.

Vacinação

De acordo com Luzia Márcia Romanholi Passos, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde e Planejamento da Secretaria Municipal da Saúde, até o fim de 2017 foram aplicadas mais de 842 mil doses da vacina. “Devemos sempre estar atentos, pois Ribeirão Preto é uma cidade com população flutuante e sempre recomendamos que aqueles que aqui residem e ainda não receberam nenhuma dose procurem nossas salas de vacina, caso não tenham contraindicações”, comenta. Este ano, já foram aplicadas mais de cinco mil doses.
Luzia recomenda que aqueles ainda não receberam nenhuma dose da imunização procurem as salas de vacina
Entram no grupo de pessoas que devem tomar a vacina em dose única crianças de nove meses a menores de dois anos; a vacinação fracionada é recomendada para pessoas a partir dos dois anos. Gestantes com indicação médica e viajantes internacionais, desde que apresentem comprovante de viagem no momento da vacinação, também devem se imunizar. Pessoas com condições clínicas especiais (vivendo com HIV/Aids, ao final do tratamento de quimioterapia, pacientes com doenças hematológicas, entre outras) não devem ser vacinadas. 

A diretora destaca que a dose única confere imunidade para toda a vida. Diante da situação atual e da epidemia em alguns estados, o Ministério da Saúde adotou a dose fracionada para que possa proteger um grande número de pessoas. Luzia explica que a diferença entre a dose única e a fracionada está na proteção. “A dose padrão (0,5 Ml) protege por toda a vida, enquanto a dose fracionada (0,1 Ml) protege por pelo menos oito anos, segundo estudo realizado pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Biomanguinhos/Fiocruz)”, orienta a diretora. 

Em relação aos animais encontrados mortos, eles são encaminhados para coleta de amostras do fígado, rim, pulmão, coração e cérebro, e examinados no Instituto Adolfo Lutz de São Paulo. De acordo com Luzia, para controle de ocorrências de febre amarela está sendo feito monitoramento de praças e parques e orientação à população sobre animais mortos. “Em caso de encontrar um animal sob condição suspeita, pedimos que seja feito um comunicado à Divisão de Vigilância Ambiental em Saúde pelos telefones: (16) 3628.2015 ou 3626.3626”, conclui. 

Quem deve se vacinar

Pessoas que viajarão para áreas de risco com recomendação de vacina, com pelo menos dez dias de antecedência
Moradores das regiões de risco, próximas a matas e parques

Quem não deve se vacinar

Crianças menores de nove meses 
Gestantes (salvo com recomendação médica)
Pessoas com câncer em uso de quimioterapia e/ou radioterapia
Transplantados de órgãos sólidos e/ou medula óssea 
Pessoas que fazem uso de corticoide com dose imunossupressora  
Portadores de HIV e qualquer doença imunossupressora  
Pessoas que fazem uso de medicamentos imunossupressores
Pessoas que tenham miastenia gravis, doenças do timo, lúpus, doença de Addison, artrite reumatoide e alergia grave
Mulheres amamentando crianças menores de 6 meses 

História da doença 

O primeiro relato que se tem de epidemia de uma doença semelhante à febre amarela é de um manuscrito maia, de 1648, em Yucatan, no México. Acredita-se, por meio de estudos recentes realizados com técnicas de biologia molecular, que sua origem seja africana. Na Europa, a doença se manifestou antes de 1700, mas em 1730, na Península Ibérica, foi onde ocorreu a primeira epidemia causando a morte de mais de duas mil pessoas.

Em terras brasileiras, a doença apareceu pela primeira vez em Pernambuco, em 1685, permanecendo por dez anos. Salvador também foi acometida por uma epidemia que matou 900 pessoas em seis anos. A realização de campanhas de vacinação e de prevenção no país garantiu o controle da epidemia por 150 anos. Entretanto, o ciclo silvestre foi identificado em 1932 e, desde então, registros de surtos acontecem em regiões classificadas como áreas de risco (estados do Acre, Amazonas, Pará, Roraima, Amapá, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Goiás, Distrito Federal e Maranhão) e de transição (parte dos estados do Piauí, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). 

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