A primeira casa do bairro

A primeira casa do bairro

Felício veio com a família da Itália com apenas um ano de idade e construiu a primeira casa do Jardim Irajá

Aos 97 anos, o dono e construtor da primeira casa do bairro Jardim Irajá, Felício Bombonato, recorda quando, segundo ele, essa parte da cidade - hoje considerada nobre -, “era somente mato”. “Comprei o terreno do meu  cunhado, que morava em Batatais, e era muito meu amigo. Comecei a limpar o terreno e a fazer o alicerce em 1976, um dia passou um senhor que me disse: ‘O senhor é louco de fazer casa nesse mato!’, mas não demorou muito e uma outra casa já começou a ser levantada aqui perto, foi construída por um rapaz de Brodowsky”, lembra Felício.

A casa onde o pedreiro e construtor vive até hoje com a família fica na rua Thomás Nogueria Gaia, esquina com a Dr João Gomes Rocha e levou seis anos para ficar pronta. Trata-se de um sobrado de “tijolinho à vista”, cercado por árvores plantadas ao longo dos anos pelo próprio Felício, entre elas, mangueira, craveiro-da-índia e magnólia. Do terraço da residência, a família tem uma ampla e privilegiada visão da zona sul da cidade. O Irajá, hoje, é também um dos bairros mais valorizados da cidade. “O preço do m² de terreno para venda no Jardim Irajá está em torno de R$ 1.000”, afirma o corretor de imóveis Antônio Domingos Filho.

O Jardim Irajá
Situado entre os limites das avenidas Maurílio Biagi, Presidente Vargas, e Professor Joaõ Fiusa, o Jardim Irajá, que se junta aos bairros Jardim Santa Cruz, Jardim Itamarati e Vila Matilde para formar o Subsetor Sul 3 na divisão geográfica da cidade, possui uma população total de 19.010 pessoas, segundo dados do IBGE. O Jardim Irajá é historicamente constituido a partir de um espaço que era conhecido vulgarmente como “pasto das cabritas”. “O local sempre foi conhecido como Jardim Irajá. Já foi chamado por vários nomes, mas nenhum, inclusive ‘pasto das cabritas’, procede”, conta Domingos, morador do Bairro a mais de 30 anos. 

Em 2010, o Jardim Irajá teve o boom de seu desenvolvimento devido a construção de muitos prédios próximos ao bairro.“O Jardim Irajá é cercado por muitos investimentos relevantes. Posso dizer que 2010 foi o ano referência para esse bairro. No início muitos se assusturam com o lançamento da Avenida João Fiusa mas, em 2010, quando viram que aquela região iria ‘vingar’, muitos procuraram investir ali”, conta Antônio Marcos Melo, Delegado Regional da CRECI (Conselho Regional dos Corretores de Imóveis) de Ribeirão Preto.

Antônio Marcos lembra que os investimentos da Pereira Alvim, localizada na Avenida Leais Paulista, o lançamento do Jardim Botânico e a construção de vários hipermercados na região do Jardim Irajá, tornaram o bairro um lugar bem quisto, tanto para se morar quanto trabalhar. “Hoje o bairro vive um novo momento, transformando-se também em forte referencial comercial e de prestação de serviços”, conta o delegado.

Outros tempos
Filho dos italianos Rosa e Frederico, nascido na comuna italiana Castelbelforte, Felício Bombonato — o primeiro morador do Jardim Irajá —, mudou-se para o Brasil com a família com apenas um ano de idade. “Meu pai foi chamado por meus avós maternos, Vittorio Mani e Hermína, para vir tentar a vida no Brasil. Ao chegar, eles foram trabalhar na fazenda São José, do senhor Manoel Nogueira, na época prefeito de Batatais”, lembra o primeiro morador do Jardim Irajá.

Arquiteto por formação, o pai de Felício construiu sua primeira casa a pedido do próprio Manoel Nogueira em 1917. “A casa, felizmente, continua existindo, restaurada, na esquina da rua Coronel Joaquim Rosa com a avenida Doutor Chiquinho Arantes, em Batatais”, conta.

Em meados de 1926, o pai de Felício aprendeu a fazer ladrilhos com Dino, filho de Antônio Spanó, italiano que tinha uma fábrica de ladrilhos em Ribeirão Preto, na Vila Tibério e, então, inaugurou sua própria fábrica em Batatais, mas um acidente de trabalho interrompeu os planos de toda a família. “A fábrica foi registrada com o nome da minha mãe - Santa Rosa -, e foi mantida até 1929, aproximadamente um ano após a morte de meu pai. A fatalidade e a crise que assolava o mundo naquela época inviabilizou seguir adiante com os negócios e foi preciso vender a fábrica e a casa”, conta Felício Bombonato.

Com apenas 14 anos, Felício precisou separar-se da mãe e dos irmãos e vir morar e trabalhar em Ribeirão Preto com o tio. Luigi, que era pedreiro. Em 1932, retornou a Batatais e passou a trabalhar com outro tio, Agelim, como balanceiro e depois como pedreiro. Foi nessa época que conheceu Maria, que viria a se tornar sua esposa, em 1936. 

Pedreiro experiente e conhecido, Bombonato trabalhou na construção de uma ponte no Rio Sapucaí e também construiu bancos, cinemas, capelas, correios e até caixas-d’água. Entre as cidades da região que tiveram - e ainda têm -, obras assinadas por ele estão Araras, Orlândia, Sales Oliveira, Guaíra, Morro Agudo, Igarapava, São José da Bela Vista e Nuporanga. 

Em 1960, seguindo os passos do pai, Felício abriu uma fábrica de ladrilhos e um depósito, em sociedade com os amigos Alfeu Garbellini e Armando Tofeti. Sob o lema “o bom trabalhador é sempre procurado”, encontrou sucesso nas atividades, mas um desentendemento entre os sócios fez com que a “Bombonato, Garbellini e Tofeti Ltda” deixasse de existir, passando cada um a seguir com o próprio negócio. “O senhor Alfeu ficou com o prédio, eu fiquei com a fábrica de ladrilhos e algum material, e o senhor Armando ficou com uma parte do material existente. Montei a Fábrica de Mosaicos e Ladrilhos Bombonato na rua Capitão Andrade, ainda em Batatais, e  fui bem sucedido fabricando mosaicos, pias de granito, vasos e pedras de granelite”, recorda.

A vinda para Ribeirão Preto aconteceu em 1974, motivada pelas oportunidades de trabalho que a cidade oferecia e porque, na época, em plena ascenção imobiliária, Felício Bombonato havia aberto a Ribe Construções em sociedade com mais dois irmãos. “Em 1974 morávamos no Edifício Maria Amélia, no centro de Ribeirão. Ficamos lá até a nossa casa, no Jardim Irajá, ficar pronta. Isso em 1982”, recorda Felício Bombonato Júnior. Ao lado dos irmãos, na Ribe Construções, Felício passou a trabalhar para o desenvolvimento imobiliário de Ribeirão Preto, tendo atuado por muitos anos na construção de diversos imóveis da cidade.

Perto de completar um século de existência, o primeiro morador do Jardim Irajá além de ter visto a  cidade crescer e tomar forma ajudou a construí-la - literalmente - em alicerces bem firmes, e assim construiu também a sua própria história. 

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Texto: Bruno Silva
Fotos: Carolina Alves

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