A produção de documentários
Em Ribeirão Preto, a produção de documentários está concentrada nas universidades
“Quando a realidade parece ficção, chegou a hora de fazer documentários”. A frase faz parte da chamada para um programa de documentários da TV Cultura, gênero cada vez mais frequente nas exibições. Segundo o jornalista e produtor Hossame Nakamura, que já tem em sua filmografia quatro documentários de sua autoria, o documentário está mesmo na moda.
Apesar do cenário favorável e de fato existir a produção de documentários em Ribeirão Preto, ele afirma que não existe um mercado deste segmento na cidade e faz questão de deixar bem claro que esse aumento nas exibições de documentários não quer dizer que seja algo rentável. “Ribeirão Preto tem ações pontuais de pessoas que fazem um trabalho específico. Porém, não vejo ninguém que tenha uma sequência de trabalhos. Eu, por exemplo, divido o dia a dia na produtora entre trabalho autoral e trabalho comercial”, conta Hossame.
Quando abriu sua agência, em 2007, ele estipulou uma meta: produzir um documentário por ano. E isso ele fez. Em 2008, o produtor lançou o documentário “Hanko”. Em 2009, foi “Blues Everyday”, que comemorava os 20 anos do primeiro festival internacional de Blues em Ribeirão Preto. No ano seguinte, fez “Todas Dimensões de Bassano Vaccarini”. Produziu, ainda, “Matrizes - Alisson Menezes e outros tantos seus”, primeiro documentário feito por ele em HD (alta definição).
Dividido entre produções institucionais de seus clientes e a produção do novo documentário “Diacrônicas Sinfônicas, Sincrônicas Memórias”, previsto para ser lançado em setembro deste ano, Hossame acredita que a maioria da produção de documentários na cidade está centralizada em algumas universidades. “O lançamento de documentários fica restrito a algumas instituições, como a Unaerp e d Barão de Mauá, onde já existe uma predisposição institucional em realizar esses tipo de projeto”, aponta.
Para o jornalista e professor universitário Eduardo Soares, o contato dos alunos, tanto de jornalismo quanto de audiovisual, com a produção de um documentário é fundamental. “A linguagem do documentário é diferente de uma produção para o ‘hard news’. A forma de abordagem das entrevistas, as possibilidades de construção e de narrativa são infinitas e isso possibilita que o aluno tenha liberdade para contar uma história e imprimir seu olhar no trabalho documental, inclusive com a chance de produzir algo que possa concorrer em festivais e participar de mostras por todo o país”, ressalta.
Eduardo acredita que o maior compromisso dos documentários produzidos pelos alunos é com a cidadania. Na visão do jornalista, o documentário tem o intuito de levantar discussões importantes, chamando a atenção para pontos muitas vezes esquecidos. “O próprio nome já diz: a intenção é realmente ser um documento, de protesto, de transformação ou de alerta, que convida a olhar em torno de algo que muitas vezes está esquecido, seja um patrimônio histórico, um bem precioso como a água, ou a vida de um artista”, diz.
Fora do eixo
Cid Machado, que também é produtor e professor universitário, afirma que, no que tange a produção em massa de documentários, Ribeirão Preto está fora do eixo Rio-São Paulo, que são lugares onde se produz a maior parte das obras audiovisuais do país. Assim como Hossame e Eduardo, Cid também não visualiza um mercado de documentários em Ribeirão Preto, mas vê com bons olhos os trabalhos produzidos aqui. “Temos poucos realizadores com produções frequentes, mas isso é suprimido pela qualidade das produções. Como professor, produtor e apaixonado por cinema, não tem como eu não ver com bons olhos”, destaca. Todos os semestres, ele orienta diversos trabalhos de curta-metragem e diz que percebe evolução na qualidade e nos temas abordados. “Posso dizer que saí muito feliz da última sessão de apresentação dos trabalhos de conclusão de nossos alunos”, comemora o professor, que já teve seus documentários veiculados em rede nacional pela TV Cultura.
Produção universitária
Sob a coordenação do produtor Rafael Venturi, o curso de audiovisual da universidade Barão de Mauá chega a produzir dez documentários por semestre. “São produções de excelente qualidade. Temos hoje várias disciplinas que trabalham a ótica do documentário e os temas abordados pelos alunos são abrangentes, com uma edição muito criativa. E o importante é que eles têm contato com outros tipos de linguagens, como a animação e o stop motion, por exemplo”, explica Venturi.
O professor ressalta que o contato com o documentário é fundamental, não só pelo fato de expor a visão que cada aluno tem sobre determinado assunto, mas pelo fato histórico também, já que documentário foi o primeiro gênero cinematográfico da história e, hoje, é o único gênero que é trabalhado à parte, alheio a todos os outros gêneros.
As dificuldades
Para os produtores Cid Machado e Hossame Nakamura, a maior dificuldade de um documentário é conciliar o tempo para a produção e a viabilização do projeto do documentário. “Um produtor não vive só da produção de documentários. Por isso, creio que viabilizar valores, pesquisas e o tema do filme é o mais difícil”, diz Nakamura.
Eduardo Soares reforça que produzir um documentário dentro da universidade também não é tarefa fácil. “O tempo é muito curto, existem outras disciplinas e provas a serem feitas, mas a maioria se dedica bastante. Tenho alunos que foram a São Paulo produzir um documentário da reforma na Praça Roosevelt. Outros conseguiram até apoio de empresas da cidade, que acreditaram na ideia e auxiliaram com verba para a divulgação e as cópias para serem distribuídas”, conta.
Documentários produzidos
Antônio Torres, produtor e diretor do Museu de Imagem e Som (MIS), já produziu 14 documentários, quatro deles sobre a cidade de Ribeirão Preto. “É uma linha que gosto muito de trabalhar. Antes mesmo de trabalhar no Museu, trabalhei em parceria com a Adriana Silva, produzindo documentários sobre Ribeirão Preto, e sempre fizemos tudo na raça”, pontua.
Já no currículo de Cid Machado, estão seis documentários produzidos. São eles: “Secos & Molhados” (2008), que registra os bastidores do curta-metragem “Dose Única”, de Rogério Shareid; “Leitura de Barraco” (2009), sobre um projeto de biblioteca itinerante da USP dentro do contexto do Assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto; orientação e assistência de direção de “Mais Que Dois” (2009), sobre diversidade sexual; “Videomemórias” (2009), em conjunto com grupo da 3ª idade do SESC; “Raindrops in Blue” (2010) experimental sobre um longo período de chuvas em Ribeirão; e “Biblioteca Padre Euclides” (2010), documentário experimental em comemoração à entrega da reforma da biblioteca homônima de RP.
Os prêmios de Hossame Nakamura
“Hanko”
2008 – Prêmio melhor documentário na V Mostra de Vídeos do Interior de São Paulo
2008 – Prêmio melhor curta-metragem no Festival de Cinema Brasil-Japão “100 plus 20”
2009 – Selecionado para 17º Gramado Cine Vídeo
“Blues Everyday”
2010 – Selecionado para o Festival In-edit Brasil
2010 “Todas Dimensões de Bassano Vaccarini”
2011 – Prêmio melhor curta-metragem no II Festival Cultural Cinema de São Simão
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Texto: Bruno Silva
Fotos: Divulgação e Nicolas Rodrigues