A próstata e o envelhecimento
Como explica o oncologista Fernando Marin Torres, as chances de desenvolvimento de câncer de próstata aumentam drasticamente com o avançar da idade
Ainda que possa ocorrer mais cedo, o câncer de próstata raramente acomete homens com menos de 40 anos. De acordo com inúmeras pesquisas sobre a incidência da doença, seu aparecimento está intimamente relacionado ao envelhecimento da população. Cerca de 75% dos casos acontece em pacientes com 65 anos ou mais. De acordo com o oncologista Fernando Marin Torres (CRM: 52.074), as chances de um senhor com mais de 80 anos desenvolver um tumor prostático giram entre 40% e 70%.
Segundo o oncologista, o diagnóstico precoce é a mais eficaz ferramenta contra o câncer de próstata, que, geralmente, tem um desenvolvimento lento. Justamente por isso, a mortalidade decorrente desta neoplasia é relativamente baixa. Seguindo a estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA), pouco mais de 20% dos homens diagnosticados em 2018 virão a óbito. Apesar da conscientização da população em relação ao problema já ter avançado significativamente, ainda há certo preconceito envolvido na realização dos exames preventivos. “Por isso, é válido destacar que, quanto mais cedo o tumor for descoberto, melhor o prognóstico, inclusive, no que se refere aos efeitos colaterais da doença”, ressalta o oncologista.
Formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em 1984, o médico tem mestrado pela mesma instituição e especialização em Cancerologia desde 1996. O interesse pela área surgiu ainda na infância, ao acompanhar uma batalha familiar contra a doença. A especialização em Oncologia Clínica sucedeu a residência em Cirurgia de Cabeça e Pescoço e em Oncologia Pediátrica. Um dos idealizadores do Centro de Tratamento Oncológico (CTO) e do Centro de Tratamento em Radio-Oncologia (CTR) de Ribeirão Preto, Dr. Fernando lida com todos os tipos de neoplasias em seu consultório.

Entre os homens que visitam seu consultório, qual porcentagem deles está batalhando contra o câncer de próstata?
Cerca de 40% dos homens em tratamento contra algum tipo de tumor estão lidando com um câncer de próstata.
Qual a faixa etária média desses pacientes?
A maioria deles tem entre 60 e 80 anos, porém, muitos tratamentos foram iniciados quando esses homens tinham entre 50 e 60 anos.
Qual a influência do envelhecimento no desenvolvimento desses tumores? E da genética?
Sabe-se que o avançar da idade tem um alto impacto na incidência do câncer de próstata. A boa notícia para os pacientes mais idosos é que, geralmente, quando a doença se manifesta quando o paciente já é mais velho, o tumor tende a ser menos agressivo. A genética também desempenha um forte papel no desenvolvimento da doença: ter um familiar com câncer de próstata aumenta o risco de um homem desenvolver um tumor deste tipo.
Casos em homens mais jovens estão se tornando mais comuns?
Casos de câncer de próstata raramente ocorrem em homens com menos de 40 anos. A incidência aumenta dramaticamente com o avançar da idade. Para se ter uma ideia, em homens com 80 anos ou mais, as chances de desenvolver a doença estão entre 40% e 70%.
Os hábitos de vida também influenciam?
Sim. A ciência vem comprovando que a ingestão de grandes quantidades de gordura animal — principalmente aquela presente em carne vermelha —, assim como a baixa ingestão de vegetais — especialmente os ricos em licopenos, como o tomate — estão associados a maior risco de desenvolvimento do câncer de próstata. O tabagismo e a obesidade também possuem pequena, mas consistente associação com o aumento de incidência desses tumores, principalmente, dos tipos mais agressivos.
Nesse sentido, o que pode ser evitado para diminuir as chances de desenvolvimento do câncer de próstata?
De forma geral, manter uma vida saudável, evitando obesidade e tabagismo, diminuindo a ingestão de gordura de origem animal e aumentando a ingestão de vegetais são atitudes que diminuem as chances de aparecimento desta doença.
A sociedade já está consciente sobre a importância da prevenção ao problema?
Sim, principalmente após o início da campanha Novembro Azul isso tem melhorado muito. Posso afirmar que, a cada ano, mais homens procuram realizar exames de prevenção. No entanto, ainda existem indivíduos resistentes que, por medo ou apenas por displicência, negam-se a realizar consultas preventivas.
O diagnóstico ainda envolve muito preconceito ou essa é uma questão superada?
É sempre importante abordar essa questão. Diria que, ainda hoje, o exame digital — o famoso toque retal — evoca nos homens sentimentos de humilhação ou submissão. Em função disso, uma parcela substancial da população que deveria manter os exames periódicos em dia foge da prevenção. Essa parcela da população masculina diminui a cada ano graças a campanhas de conscientização, em especial, o Novembro Azul.
Dialogar sobre a doença ainda é muito complicado? Como ultrapassa essa barreira no seu consultório?
Normalmente, quando chega ao consultório do oncologista, o paciente já foi diagnosticado e já realizou vários exames, inclusive biópsias. A discussão que se segue é em torno de como proceder em relação ao tratamento. Nos casos iniciais, consideraremos possibilidades cirúrgicas ou radioterápicas; nos tumores avançados, avaliaremos qual será a melhor estratégia de prolongar a vida e evitar as complicações da doença. De forma geral, tento explicar, de maneira bem didática e respeitosa, todas as possibilidades de tratamento e cada uma das complicações que podem decorrer do tratamento. Acredito que, em posse dessas informações, o paciente pode participar das decisões de forma consciente, levando a uma solução, senão ideal, mais próxima do ideal dentro das peculiaridades de cada caso e das expectativas do paciente.
O próprio homem tem muitos preconceitos em relação à doença? Como quebrá-los?
Com informação, entendimento completo de cada etapa do tratamento e suas consequências, e também com entendimento das escolhas pessoais em relação ao tratamento e suas consequências. Poderíamos chamar isso, a exemplo do que se fala atualmente em relação às mulheres, do empoderamento masculino na decisão terapêutica.
Além da batalha contra o câncer em si, que outros temores os homens costumam levar ao seu consultório?
O principal temor é a impotência, seguida de perto pela incontinência urinária.
A doença é sinônimo de impotência?
De forma alguma. Diria que a impotência se desenvolve em uma pequena porcentagem dos pacientes submetidos à cirurgia ou à radioterapia e em quase todos os pacientes submetidos à terapia antiandrogênica, que depende do uso de medicamentos para diminuir o nível de testosterona que é a forma mais comum de tratamento da doença não localizada, aquela que saiu dos limites da glândula prostática.
Que outras consequências costumam assustar os pacientes?
Entre outros temores, o que mais assusta os homens é a possibilidade do retorno da doença após o tratamento inicial e a chance do tumor acometer outros locais do corpo, principalmente os ossos.

Quais são os profissionais envolvidos no acompanhamento do homem com câncer de próstata?
Um time multiprofissional composto pelo urologista, pelo oncologista e pelo radioterapeuta é o mínimo que deve embasar e orientar uma decisão do paciente em relação ao tratamento. Atualmente, psicólogos e fisioterapeutas também têm participado do tratamento e da recuperação desses pacientes.
Quais são as ferramentas terapêuticas mais utilizadas atualmente?
Inicialmente, o tratamento cirúrgico (por via tradicional, laparoscópica ou robótica) e a radioterapia se impõem como primeira opção, seguidos ou não de terapia antiandrogênica. Em casos mais avançados, o tratamento pode chegar até a necessidade de quimioterapia.
Quanto tempo pode levar o tratamento? Durante esse período, como garantir máxima qualidade de vida?
O tratamento, na maior parte das vezes, resume-se à cirurgia ou radioterapia. A partir daí, o paciente deve realizar exames periódicos. Entretanto, casos mais avançados necessitam de tratamento por toda a vida. Esses pacientes devem ser acompanhados por um time multiprofissional, o que poderá garantir máxima de qualidade de vida dentro das características de sua condição clínica.
Acompanhamento psicológico ajuda? Os homens costumam ser receptivos a essa ideia?
Sim, acredito que a participação de psicólogos durante o tratamento é importante. Alguns pacientes chegam a pedir por este tipo de apoio.
De que maneira a família pode ajudar?
A família é imprescindível, especialmente no momento da decisão pelo tipo de tratamento que será realizado. É importante que todos se informem e compartilhem medos e necessidades com a equipe médica. Quando os entes queridos se mostram ativos durante todo o processo, observamos mais serenidade e esperança por parte do paciente. O inverso também é verdadeiro: quando a família está distante ou se coloca em uma posição de vítima ainda maior do que o próprio paciente, os resultados tendem a seguir uma linha de mais pessimismo. Posturas como essas não ajudam em nada ao paciente.
Por quanto tempo o paciente precisa de acompanhamento?
O acompanhamento deve seguir por toda a vida, seja em seguimentos frequentes, a cada seis ou oito semanas, nos casos mais sérios ou mais espaçados, até anuais em pacientes com doença que foi tratada em fases iniciais. Assim, devemos encorajar fortemente o diagnóstico em fases iniciais, aquele descoberto em um exame de rotina, pois, como observamos, nestes casos o tratamento é mais simples, com grande chance de cura e de menos complicações para o paciente.
Fernando Marin Torres | Texto: Luiza Meirelles | Fotos: Ibraim Leão