A receita da longevidade

A receita da longevidade

Com uma conscientização maior em relação à saúde e ao bem-estar, população eleva os índices de expectativa de vida

Em 2060, o Brasil terá cinco milhões de pessoas com 90 anos ou mais. Essa projeção populacional é resultado de um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base nas informações levantadas na última edição do Censo Demográfico. A expectativa de vida deve chegar aos 78 anos para homens e 84 para mulheres. Atualmente, esse número gira em torno de 71 anos para eles e de 78 para elas, uma estatística já alta em relação à década de 60, por exemplo, quando esse índice não passava dos 48 anos.

Segundo o médico geriatra e nutrólogo Nelson Iucif Jr., a longevidade é fruto de uma combinação de fatores: acesso a saneamento básico, condições mais favoráveis de trabalho, maior esclarecimento em relação aos cuidados com a saúde e à importância da prevenção, equilíbrio na alimentação, estímulo à prática esportiva, valorização do bem-estar e equipamentos modernos que permitem o diagnóstico de doenças de forma precisa e precoce são alguns deles.

Para o especialista, a somatória desses fatores, acrescida do empenho pessoal, faz com que a população consiga avançar no tempo com energia para fazer tudo, ou quase tudo, o que realizava durante a fase adulta. Isso inclui ter autonomia para ir e vir, ir ao cinema, ler um livro, relaxar, viajar e confraternizar com os amigos. “Atividades como essas atenuam e desaceleram os efeitos que o passar dos anos provoca no nosso organismo”, explica Dr. Nelson. Porém, para desfrutar dos benefícios da terceira idade com qualidade de vida, o ideal é se preparar desde cedo. “O processo de envelhecimento se inicia por volta dos 25 anos. As alterações são quase imperceptíveis, mas evoluem continuamente. Por isso, quanto antes nos preocuparmos com essa questão, melhor. O que plantamos hoje é o que colheremos no futuro”, pontua o médico.

Deise Falcão sabe bem como funciona essa dinâmica. Desde a juventude, procurou ser saudável e proativa. Mesmo nos períodos em que era mais exigida no trabalho, atuando como professora, pesquisadora e redatora da revista científica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas na UNESP de Araraquara, encontrava uma forma de se cuidar. Essa decisão tomada no passado fez toda a diferença no presente. Aos 75 anos, mantém a mente funcionando em alto nível. Lê livros, jornais e revistas diariamente. Assim, coleciona argumentos para conversar sobre os mais variados assuntos. A política está entre os temas prediletos.

O corpo também preserva uma vitalidade invejável. Ainda mais se for para viajar. Conhecer lugares, pessoas e culturas é uma das grandes paixões de Deise. A lista de destinos no currículo impressiona. Além de muitos roteiros feitos em território nacional, ela já visitou Canadá, Estados Unidos, México, Colômbia, Venezuela, Argentina, Uruguai, Chile, Portugal, Inglaterra, França, Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Suécia, Suíça, Dinamarca, Tailândia, Cingapura, Índia, Nepal, Bali, Marrocos, Egito, Israel, Turquia, Grécia, Rússia, Finlândia, Austrália, Nova Zelândia e Japão, entre outros. Lembranças devidamente registradas na memória e em inúmeros álbuns de fotos.

“Comecei a viajar logo no início da minha carreira. Aproveitava a participação em congressos e emendava com as minhas férias. Viajei sozinha, com amigos e, na grande maioria das vezes, na companhia do meu marido. Passeávamos o dia inteiro, descobrindo as particularidades de cada lugar. Era uma aventura. Depois que fiquei viúva, e com as limitações aparecendo, as viagens ficaram mais difíceis. Em vez de me abater, optei por me adaptar à nova realidade. Agora, viajo principalmente com um grupo de turistas montado por uma agência, que me dá segurança e ainda rende boas amizades. Fico feliz por continuar fazendo algo que eu gosto tanto”, enfatiza.

Para aqueles que não tiveram esse zelo antigamente, vale ressaltar que sempre é tempo de tomar uma atitude. “Estudos recentes têm demonstrado que mesmo pessoas mais experientes conquistam resultados expressivos quando se dispõem a redefinir seus costumes”, enfatiza o geriatra. Foi o que aconteceu com Nadir Rodrigues Marcondes. Com uma carreira acadêmica consolidada, ela se dedicava integralmente ao serviço. Ocupava cada brecha no expediente com mais tarefas, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Mesmo depois de passar por sérios problemas de saúde, Nadir não parou. Só quando se aposentou, aos 59 anos, conseguiu enxergar a vida sob outra perspectiva. “Não parava nem um minuto sequer no trabalho. De repente, a vida conforme eu conhecia não existia mais”, lembra. Segundo ela, foi um choque se ver em casa, sem ter que cumprir aquele rigoroso cronograma profissional.

Ao focar sua atenção no campo pessoal, Nadir constatou alguns pontos desfavoráveis. “Estava com artrose, o que me causava dificuldades para andar e subir escadas. Precisava do auxílio de uma bengala para me locomover, o que me deixava desmotivada e com a autoestima baixa. Estava insatisfeita. Percebi que era hora de rever as minhas prioridades”, comenta. A partir daí, a transformação foi completa. Matriculou-se na academia, no estúdio de pilates, passou a fazer sessões regulares de procedimentos estéticos e acompanhamento nutricional. As dores foram sumindo e os movimentos, que eram restritos, voltaram ao natural. Em dois anos, perdeu 14 quilos e ganhou uma aparência renovada. “Foi uma mudança interior que refletiu no exterior. Fiquei mais calma, comecei a enxergar as coisas de forma mais leve e me tornei até um pouco mais vaidosa. Não me arrependo das escolhas que fiz, mas vendo o quão bem eu estou, penso que poderia ter começado antes e aproveitado ainda mais”, conclui.

A história de Nelson Fernandes de Oliveira também serve como exemplo. Com uma agenda absolutamente repleta de compromissos, o sedentarismo fazia parte do seu dia a dia. Havia outro sério agravante: o cigarro. Ao realizar exames de rotina, levou um susto. “As taxas de colesterol, triglicérides e ácido úrico estavam bem alteradas. Vi que era hora de mudar”, lembra. O primeiro passo foi abandonar o vício e, em seguida, aos 65 anos, ele se matriculou na academia. Aos poucos, foi conquistando metas. Com 71 anos, tem fôlego de sobra para encarar, duas vezes por semana, uma série de exercícios montada especialmente para ele. Eliminou dez quilos, fortaleceu a musculatura e aprimorou tanto os índices clínicos quanto a mobilidade, o condicionamento e a capacidade respiratória. “O esforço valeu a pena. Tenho prazer de ir à academia. Estou melhor hoje do que quando tinha 30 anos. Sinto-me jovem. Trabalho, faço as atividades físicas e ainda tenho ânimo para curtir a minha família. É bom demais. Pretendo continuar nesse ritmo por muito tempo”, comenta Nelson.

O diretor e personal trainer da Clínica Corpore de Ribeirão Preto, Gustavo Gironi (à direita na foto, com Nelson), afirma que o número de alunos nessa faixa etária vem crescendo consideravelmente. “Muitos deles chegam aqui sem grandes expectativas pelo histórico de sedentarismo ao longo da vida. À medida que notam a evolução, não param mais. Eles percebem que podem superar seus limites e essa conquista é recompensadora. O exercício se torna uma rotina agradável. O ambiente também propicia a interação com os outros alunos e essa sociabilização, inclusive com representantes de diferentes gerações, é superpositiva”, ressalta Gustavo. Porém, antes de tudo, passar por uma avaliação médica criteriosa é fundamental. Assim, é possível montar um treinamento personalizado, seguro e eficaz, de acordo com as limitações e as habilidades de cada um.


MENTE EM EQUILÍBRIO

Além do cuidado com a saúde do corpo, a mente também precisa estar preparada para encarar esta etapa da vida. “Gradativamente, as capacidades verbais e motoras vão mostrando fragilidades. A memória já não funciona tão bem, o reflexo e os movimentos são mais lentos, assim como a percepção. Esse declínio mexe com a autoestima do idoso, podendo até desencadear sintomas depressivos. É preciso desenvolver um sentimento de aceitação diante desse processo natural da vida. Porém, isso não quer dizer conformismo ou comodismo. A pessoa tem que superar as limitações mantendo seus objetivos, aproveitando o tempo livre para colocar em prática sonhos e desejos antigos”, indica a psicóloga, com especialização em Psicologia da Saúde: Psicologia Hospitalar, Luciana Piovezam Batista.

A especialista tem vasta experiência no assunto, pois trabalha no Núcleo de Atenção à Saúde (NAS) na Unimed de Ribeirão Preto, espaço que reúne as estruturas do Serviço de Medicina Preventiva (SEMPRE), do UNILAR - Cuidados Domiciliares e do Departamento de Saúde Ocupacional (DSO). “Conduzo um grupo montado especialmente para a terceira idade, onde desenvolvemos diversas atividades que promovem a integração e fortalecem o lado emocional”, ressalta Luciana. Os resultados são impressionantes e vão desde a diminuição no consumo de medicamentos, até a melhora nas funções cognitivas e na sociabilização.

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Carolina Alves e Ibraim Leão
Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido.
Estagiária de produção: Julia Verzola.

Compartilhar: