A saúde do coração
o chefe da Divisão de Cirurgia Torácica e Cardiovascular do HC de Ribeirão Preto (FMRP-USP), walter Villela de andrade vicente, antecipa algumas questões que serão destaques em dois eventos concomitan
Um dos órgãos mais emblemáticos do corpo, o coração é cercado por uma certa poesia, afinal, ele seria o responsável pelos sentimentos mais preciosos do ser humano. Preâmbulo a parte, esse músculo é vital e seu bom funcionamento está intimamente ligado à qualidade de vida das pessoas. São inúmeros os profissionais dedicados a ele, já que a Cardiologia é uma das mais amplas especialidades médicas. Neste bate-papo, é a cirurgia cardíaca, de adultos e de crianças, que está em destaque.
Para entrevistar, o chef de cozinha João Roberto Pereira Silva rememora sua trajetória na cirurgia cardíaca, especialidade que só deixou depois de ter se tornado uma referência. Para dar as respostas, o chefe da Divisão de Cirurgia Torácica e Cardiovascular do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (FMRP-USP), Walter Villela Vicente, também responsável pelo grupo de cirurgia cardíaca pediátrica da Instituição. O médico é co-organizador da XIII Jornada Internacional de Cardiologia Pediátrica de Ribeirão Preto e do XIV Congresso da Sociedade de Cirurgia Cardiovascular do Estado de São Paulo que, este ano, acontecem em Ribeirão Preto nos dias 23 e 24 de outubro.
João Roberto: Qual a importância dos encontros que acontecem em Ribeirão Preto?
Walter: De forma geral, a finalidade dos congressos é permitir que os médicos interrompam sua rotina para se atualizar e se inteirar sobre o que de novo está inserido na profissão: últimas informações científicas, trabalhos com grande repercussão e a influência direta dos novos conhecimentos na sua atividade. Além disso, esses encontros constituem uma oportunidade para os profissionais interagirem com os convidados internacionais, e aprenderem outras realidades.
João Roberto: Quais convidados internacionais estarão em Ribeirão Preto para os eventos?
Walter: Receberemos quatro profissionais de outros países. Nos Estados Unidos, alguns poucos hospitais especializados disputam entre si a liderança em cirurgia cardiovascular pediátrica. O Hospital das Crianças da Filadélfia, de onde vem o doutor Jonathan Rome, é um deles. Esse convidado é um dos maiores expoentes da especialidade no mundo. Da Dinamarca, virão duas colegas, Thais Pedersen e Vibeke Hjordal, sendo que a primeira é brasileira, casada com um dinamarquês, e a segunda, sua chefe. Essa é a segunda visita da dupla a Ribeirão Preto. O outro colega, doutor Raul Abella Antón, vem de Barcelona, Espanha. Vale salientar que trazer especialistas do exterior não é fácil. Com exceção do americano, os demais participantes estão vindo por conta própria. As dinamarquesas estão sendo financiadas pelo seu próprio governo, que tem como política dar apoio a esse intercâmbio científico. O médico espanhol, por suas ligações com grandes grupos hospitalares, também encontrou meios de se autofinanciar.
João Roberto: Por que Ribeirão Preto foi escolhida para sediar a Jornada e o Congresso?
Walter: A escolha da cidade foi multifatorial. Primeiro, quando fui convidado a ser o diretor científico da Sociedade de Cirurgia Cardiovascular do Estado de São Paulo, já havia a intenção de trazer o Congresso para Ribeirão Preto. Na ótica do presidente, Rubens Toffano de Barros, com a qual eu concordo, nossa cidade é um grande polo médico, circundado por inúmeras faculdades de Medicina — mais de 10 instituições. Além disso, a cidade possui seis grupos de cirurgia cardiovascular atuando em diferentes hospitais, de forma que, pela oferta de serviço médico especializado, realmente, Ribeirão Preto é um expoente no interior paulista. Junte a isso a existência de um novo centro de eventos, instalado dentro de um grande shop-ping center, com todas as modernidades e facilidades desejáveis para a realização de congressos — incluindo o chope do Pinguim.
João Roberto: Como surgiu a ideia de unir o Congresso à Jornada de Cardiologia Pediátrica?
Walter: A Jornada Internacional de Cardiologia Pediátrica é realizada há 13 anos. Esses dois eventos, quando aconteciam separadamente, acabavam competindo um com o outro, já que o colega que faz cirurgia cardíaca em adultos, em algumas situações, acaba realizando procedimentos em crianças. Portanto, ele teria que escolher se marcaria presença no Congresso ou na Jornada. Com a junção inédita que acontece em 2015, os eventos de uma e de outra especialidade estarão ocorrendo lado a lado, permitindo a integração dos especialistas. Por último, mas não menos importante, juntar os dois eventos significa ganhar força, projeção e patrocínio.
João Roberto: Como o Brasil se situa no ranking científico das doenças cardiovasculares e qual o acesso da população aos avanços?
Walter: Ainda há um atraso considerável entre o que acontece nos países de primeiro mundo e o que é feito no Brasil, no caso das instituições públicas. Apesar disso, na intelectualidade nacional, há ícones que se sobressaem. Acredito que a cirurgia cardíaca brasileira deve muito a Adib Jatene, falecido no ano passado, o principal responsável pelo reconhecimento internacional do Brasil na cirurgia cardiovascular. Em 1975, ano da minha formatura, criou uma operação para correção da transposição das grandes artérias, uma malformação cardiovascular incompatível com a vida, e conquistou admiração mundial. O colega José Pedro da Silva, que realizou o primeiro transplante simultâneo de coração e de pulmão no Brasil, é outro profissional que merece destaque. Em relação à acessibilidade aos avanços, não dá para ter uma visão muito otimista. Ainda temos muito a evoluir nesse sentido.
João Roberto: Qual a incidência de cardiopatias congênitas e a importância do diagnóstico precoce para o êxito do tratamento?
Walter: Pode-se dizer que, a cada 100 crianças, uma nasce com um problema no coração, mas, felizmente, nem todas terão que sofrer uma intervenção. Acredito que a necessidade de cirurgia represente algo em torno de 60%. O caso mais comum é o canal arterial aberto — muitas vezes, a criança nasce a termo e esse canal fecha sozinho. Eu desenvolvi uma técnica para operar esses pacientes de maneira minimamente invasiva, através de uma mini-incisão nas costas. Mas a realidade brasileira, no que diz respeito aos cuidados com a criança, ainda está bem abaixo daquilo que se verifica nos países desenvolvidos.
João Roberto: A que você atribuiria esse fato?
Walter: Uma primeira razão é que, para ter sucesso no tratamento de neonatos, é preciso que o diagnóstico seja precoce, o que começa com exames do coração do feto durante a gestação. No entanto, apenas Curitiba está conseguindo oferecer essa investigação, se não a todas, a quase todas as pacientes atendidas pelo SUS, graças a um programa iniciado muitos anos atrás. Em nosso HC, temos um grupo liderado pelo Departamento de Obstetrícia que faz exames de ultrassom pré-natal específicos, com equipe médica especializada. Não adianta apenas diagnosticar, é preciso ter vagas para poder internar, em tempo hábil para efetuar o tratamento, todos os pacientes diagnosticados.
João Roberto: Um colega médico sempre diz que o pior da profissão não é trabalhar muito, mas não ter recursos ou espaço para atender a todos os pacientes.
Walter: De fato, esse é um grave problema. Muitas vezes, com o diagnóstico em mãos, não há como dar suporte ao paciente por falta de leitos, médicos de plantão ou equipamentos. A UTI Pediátrica do Hospital das Clínicas encontra-se seriamente subdimensionada. O espaço foi criado em 1998, por conta da pressão do Departamento de Pediatria. Em 2002, criamos um grupo de cardiologia pediátrica que passou a utilizar a maioria das vagas disponíveis. O espaço, inicialmente com seis leitos, em um ambiente adaptado, dispõe hoje de 10 leitos, sempre lotados. A cirurgia cardíaca divide essa UTI com as demais especialidades que atendem crianças, de modo que, frequentemente, temos condições de operar uma criança, mas o procedimento acaba não sendo feito porque não há leitos disponíveis para o pós-operatório.
João Roberto: Essa situação não é uma novidade nos hospitais públicos brasileiros. Lembro-me de lidar com isso quando ainda atuava como médico cirurgião.
Walter: Realmente, a situação não é nova, mas é preciso acreditar que pode ser mudada, com investimentos e boa gestão administrativa. O HC Criança é um passo na direção da mudança. Nele, foi criada uma estrutura física para abrigar uma UTI de 40 leitos. Os equipamentos e a contratação de mais médicos e enfermeiros para iniciar as atividades com 20 leitos estão em andamento e contam com a firme disposição da administração do HC, tendo sido destinada uma ala de 10 leitos apenas para as cirurgias e cateterismos cardiovasculares. A luta, agora, é por espaço no centro cirúrgico, já que o HC Criança não tem um centro cirúrgico exclusivo. Como o HC Criança representa um centro de referência do SUS e o grupo de cardiologia conta com reconhecimento nacional, a demanda só tende a crescer.
João Roberto: Dentro da cardiologia, os stents se tornaram um termo bastante frequente. Há um consenso sobre sua recomendação, em detrimento da cirurgia de revascularização?
Walter: A evolução das técnicas c e das tecnologias criaram caminhos alternativos para a solução de doenças cardíacas. O stent é um recurso introduzido para desobstruir uma artéria de forma minimamente invasiva, ou seja, sem cirurgia, mas que pode, por ser um corpo estranho ao organismo, provocar reações não desejadas ou ter uma eficiência menor do que a esperada. Por outro lado, a cirurgia de revascularização é uma intervenção de grande porte, que demanda um tempo maior de recuperação, entre outros fatores. Quando fazer um procedimento e quando fazer outro? A resposta nem sempre é fácil. Em várias situações, os médicos, junto com o paciente, precisam levar em consideração os benefícios a curto e a longo prazos de cada procedimento, bem como os riscos da cirurgia e do stent.
João Roberto: Qual é o critério que se utiliza hoje para essa definição?
Walter: Os critérios gerais levam em conta, por exemplo, se o paciente é diabético e se apresenta mais de duas ou três artérias com entupimentos. Pacientes assim costumam usufruir melhores resultados no longo prazo com cirurgia. No entanto, a decisão nunca pode ser tomada sem a participação do próprio paciente e/ou de seus familiares. A função do médico é explicar os benefícios e os riscos envolvidos. Nos últimos anos, a recomendação internacional é que essa decisão aconteça de forma coletiva e seja tomada por uma junta médica formada por um cardiologista clínico, um cardiologista que faz o cateterismo cardíaco e implante stents e um cirurgião cardiovascular — que deve considerar a opinião do paciente. Contudo, esse tipo de interação médica multiespecializada ainda não é muito comum no Brasil.
João Roberto: Por que seguiu para a cirurgia cardíaca e, mais especificamente, para a cirurgia cardíaca pediátrica?
Walter: Fui muito influenciado pelo professor Adib Jatene. Minha trajetória começou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde me formei e fiz residência em cirurgia geral, já sonhando em, um dia, tornar-me cirurgião cardiovascular pediátrico. Fui convidado, ao final da residência, para lecionar na Faculdade. Assim, comecei a trabalhar no HC, num período em que a cirurgia cardíaca de adultos estava se firmando. Passaram-se alguns anos e, depois do doutorado, fui para o Canadá estagiar, onde pratiquei a cirurgia de revascularização do miocárdio. Em 1986, de volta ao HC, contribuí para incrementar essa operação. Alguns anos depois, em 1992, estagiei nos Estados Unidos, onde trabalhei sob o comando do professor Albert Pacifico, considerado o papa da cirurgia cardíaca da época. Ali, comecei a direcionar meu aprendizado para a cirurgia cardíaca pediátrica. Voltei a Ribeirão Preto, em 1994, fiz minha livre docência e, em 2002, conseguimos aglutinar um grupo de especialistas em cardiologia pediátrica, treinados em centros de excelência do exterior, que vem ganhando expressão no país.
João Roberto: Foi nesse contexto que surgiram as primeiras sementes do HC Criança?
Walter: Certamente. Até 1998, não havia UTI pediátrica, nem equipe ou estrutura que nos permitisse desenvolver um trabalho direcionado à faixa etária neonatal. À medida que adquiríamos experiência com casos mais simples, a necessidade de atuar num hospital voltado apenas ao atendimento de crianças começou a aparecer. Com a criação da UTI pediátrica, no HC, em 1998, a professora Ana Paula Carlotti foi treinar na UTI do Hospital de Crianças de Toronto, e o professor Fabio Carmona, na UTI do Hospital de Crianças de Boston. O professor Paulo Henrique Manso, por sua vez, acaba de regressar de um estágio no Hospital de Crianças da Filadélfia. O Dr. Fernando Amaral, treinado em Londres, lidera o tratamento de pacientes adultos com cardiopatias congênitas. Os doutores Mauro Jurca, Jorge Haddad e Henrique Trad, todos com estágios em grandes centros do exterior, lideram os exames diagnósticos, cabendo, ainda, ao Dr. Jorge Haddad a realização de procedimentos de tratamento no laboratório de cateterismo. Vários outros colegas completam a equipe que, posso afirmar, faz com que o HC Criança já nasça com um grande grupo de colegas cardiologistas experientes, o que muito me emociona.
João Roberto: Na busca pela evolução constante no atendimento do HC Criança, há a participação da sociedade?
Walter: Sim, a participação da sociedade foi fundamental. Muitas empresas doaram o que foi necessário para erguer o hospital. O setor público também teve atuação importante, mas não teria sido capaz de fazer tudo. Na nossa área específica, é importante ressaltar o apoio do deputado Baleia Rossi, que conseguiu contribuições financeiras oficiais, intermediadas pela Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e pelo Governo Federal. Seria fantástico contar com o apoio dos demais políticos da cidade.
João Roberto: No progresso das cirurgias em geral, o que se pode esperar para o futuro?
Walter: A tendência é para cada vez mais reduzir a agressividade dos procedimentos. Nós, cirurgiões, estamos nos preparando para procedimentos minimamente invasivos. Por exemplo, há um robô fabricado na Alemanha, que alguns hospitais de São Paulo utilizam há alguns anos, que permite ao cirurgião fazer, com pequenas incisões, procedimentos cardiovasculares complexos, em casos selecionados, em que pese o alto custo e o maior tempo de execução. Para o futuro, imagino que cirurgiões poderão interagir para operar um paciente a quilômetros de distância.
João Roberto: Na sua opinião, essa evolução é positiva?
Walter: Sempre temos que ver esses avanços com bons olhos, pois um dia poderemos ser o paciente. Eu também gostaria de ser tratado por procedimentos minimamente invasivos, caso representem a melhor opção. Esse é um caminho que todos desejam. Os próprios cirurgiões, por conta do progresso, acabam buscando, dentro do possível, incisões cada vez menores. Sob essa perspectiva, a competição e o desafio imposto por modalidades alternativas à cirurgia são necessários para não deixar o cirurgião se acomodar.
A realidade dos médicos brasileiros
“Entrevistar um colega médico, da mesma especialidade que exerci, foi uma oportunidade recebida com grande entusiasmo. Professor Walter tem um extenso currículo, sendo um experiente cirurgião em uma das mais difíceis especialidades médicas. A Medicina praticada no Brasil é uma das melhores do mundo quanto à formação e à dedicação dos profissionais. Basta, para nos certificarmos disso, apreciarmos a alta qualidade e diversidade dos temas a serem apresentados no Congresso que acontecerá aqui. Infelizmente, não dá para dizer o mesmo quanto à realidade da medicina pública, apesar de ser uma garantia constitucional e direito de todos nós, cidadãos. Nos hospitais e redes públicas, não são necessários ‘Mais Médicos’ ou outras escolas de Medicina, mas sim de uma estrutura que permita que pacientes possam retornar felizes para suas casas. A esperança, muitas vezes, morre entre nós. Saí do HC Criança, fruto da luta contínua e incessante de um grupo de colegas, contente, mas com o coração apertado ao ver tantas crianças e pais esperançosos em uma sala de espera. Coloquei-me no lugar deles e vivi, naquele instante, o que o colega Walter retrata em um trecho de sua entrevista, que merece ser lida e jamais esquecida. Trata-se de uma realidade que presenciamos e vivemos todos os dias bem aqui, no país dos esquecidos.” João Roberto Pereira Silva, chef de cozinha e cirurgião cardíaco
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Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian