A solidariedade como compromisso
Unidas em torno de causas nobres, mulheres trabalham ativamente em ações solidárias de grupos que atuam como impulsores na transformação social
É fácil fazer o bem a quem se ama, a quem possui o mesmo sangue ou quando se espera recompensas na ação. Difícil é beneficiar indivíduos sem almejar nada em troca, apenas por vontade, gosto, vocação e realização interna. Há pessoas que parecem destinadas às causas solidárias e, unidas, somam forças para efeitos grandiosos nas comunidades que precisam de ajuda.
Ávidas pela transformação da sociedade em um cenário mais justo e nivelado, mulheres associam-se em projetos beneméritos, realizando ações nobres que favorecem os excluídos ou os necessitados, através de instituições sem fins lucrativos, usando da boa vontade e do vasto relacionamento que construíram em sua convivência social.
O Grupo Realiza, formado por seis mulheres há mais de 12 anos, mobiliza parceiros e amigos para amparar o Acolhimento Institucional Nosso Clubinho, projeto da Sociedade Beneficente Evangélica de Ribeirão Preto (Soberp). Criado em 1989 para atender adolescentes moradores de rua, hoje o Nosso Clubinho é uma casa que funciona em regime de Proteção Especial, abrigando crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e/ou social. Encaminhados pelo juiz da Vara da Infância e da Juventude, eles passam a residir no Nosso Clubinho, formando uma verdadeira família, e recebem todos os cuidados necessários para seu desenvolvimento completo, além de passarem por processo de avaliação feito por uma equipe que inclui assistente social, psicóloga e pedagoga. O cuidado e a estrutura humana, material e financeira são proporcionados por uma parceria forte entre 14 mulheres contratadas pela Soberp, além de voluntárias do Grupo Realiza. “Nós oferecemos estrutura para que as crianças e os adolescentes tenham um lar com dignidade. Isso não é luxo, é básico”, diz a empresária Andréia Amaral, à frente do Grupo Realiza desde sua criação. O atendimento também é estendido às famílias dos acolhidos, com o objetivo de reintegrá-los à convivência de origem ou, esgotada esta possibilidade, inseri-los em família substituta. Torná-los autônomos para desenvolver seu próprio projeto de vida também está entre as metas do projeto.
Segundo Susana Sério, que também lidera as atividades do Grupo Realiza, a atuação espontânea da sociedade nos projetos é de extrema importância para a manutenção do Nosso Clubinho e para a promoção da convivência familiar e comunitária de seus moradores. “A ideia é envolver as pessoas através de ações e de eventos mantenedores, como a Festa Junina e a Cavalgada, que já integram o calendário social fixo de muitos ribeirãopretanos”, diz Susana, formada em economia. “Para o trabalho voluntário ativo, é preciso ter consciência e encontrar tempo, de acordo com a disponibilidade, para encarar a tarefa com seriedade e de maneira contínua. De outra forma, é impossível obter resultados”, completa a voluntária. Segundo ela, o trabalho na entidade evoluiu, nos últimos anos, porque as pessoas estão mais conscientes da responsabilidade que possuem se almejam uma sociedade melhor.
Além da atividade voluntária, o cidadão pode ajudar como sócio-contribuinte, doando um valor em dinheiro para a manutenção dos gastos ou contribuindo com alimentos, roupas, materiais de higiene e de limpeza e brinquedos. Outra forma de envolvimento ocorre através do apadrinhamento profissional, quando alguém oferece seu trabalho ou presta serviços à Instituição. “Quando montamos a casa do Nosso Clubinho, há três anos, contamos com a ajuda de diferentes arquitetos para elaborar cada espaço”, exemplifica Andréia, lembrando também de profissionais da saúde, que colaboram com consultas frequentemente. “As pessoas que ajudaram o Grupo na montagem da casa foram extremamente importantes, assim como aqueles que colaboram mensalmente à sua maneira para a manutenção do lar”, frisa Susana. O colaborador da Instituição também pode ajudar através do apadrinhamento afetivo, que pressupõe um contato direto com as crianças e os adolescentes, levando-os para passeios aos fins de semana e criando uma referência de carinho na vida dos acolhidos e promovendo a convivência humana.
A Associação Mulher Unimed de Ribeirão Preto (AMURP) foi fundada em 1999 com a finalidade de desenvolver projetos de responsabilidade social junto à comunidade pelo trabalho voluntário de mulheres ligadas ao Sistema Unimed Paulista, da qual recebe apoio, e de outras pessoas sensibilizadas às causas. Desde que foi implantada, sob a presidência de Josiana Isaac — também vice-presidente da Associação Mulheres Unimed de São Paulo (AMUSP) —, a entidade objetiva colaborar para a construção de uma sociedade justa com cidadania responsável e produtiva. Entre vários projetos da Amurp está o Programa Vida Iluminada — também desenvolvido pela Amusp —, com foco no atendimento a deficientes visuais, em parceria com a Associação de Deficientes Visuais de Ribeirão Preto (Adevirp), desde 2001.
O programa promove a inclusão social, educacional e profissional de pessoas cegas ou com baixa visão, atuando na prevenção da deficiência. “Disponibilizamos uma série de ações e unimos forças. Da Unimed, usamos o relacionamento e a captação de recursos”, afirma Josiana. Ela conta que hoje a Unimed emprega quatro deficientes visuais. “Eles eram tratados como deficientes mentais, mas são indivíduos extremamente capazes. Uma das nossas lutas é defender o direito dessa população. É uma causa muito ampla, que se inicia nas próprias famílias”, comenta. Segundo a presidente, a Amurp mudou uma série de conceitos da própria entidade, da Unimed e da sociedade. “Fomos abrindo caminhos com a ajuda de funcionários, de cooperados, das famílias desses médicos e de consultas doadas por eles”, revela Josiana. Para combater a cegueira, anualmente, a Amurp promove a “Mobilização de Prevenção da Cegueira”, no Dia Internacional do Voluntariado (5 de dezembro). “O evento conscientiza a população quanto à prevenção e à promoção da saúde ocular, incluindo o teste do olhinho e a aferição da acuidade visual desde a infância”, completa a presidente, ressaltando que o propósito da Amurp é sensibilizar cada vez mais as pessoas a doarem seus talentos em prol dos menos favorecidos, atuando socialmente nos processos educativos e assistenciais.
Também merece destaque o Programa Félix de Inclusão Digital, que atende ao Lar Escola Vinde Meninos, beneficiando crianças a partir de seis anos de idade. De acordo com Josiana, o curso de introdução à informática foi implantado pela Unimed na Creche Modelo em 2001, quando a Instituição procurou a diretoria solicitando recursos humanos e materiais após conseguir a doação e a instalação de oito computadores do Consulado do Japão. Na Vinde Meninos, o mesmo curso foi introduzido em 2003. “Os alunos aprendem conceitos básicos de microinformática e de de tecnologia, além de ter acesso a informações e a novos contatos através da internet. O Programa oferece treinamento didático, reduzindo a exclusão digital de pessoas com baixa renda. Os resultados podem ser comprovados pela alta demanda a cada nova turma, pela elevação da autoestima dos alunos e pela abertura da Instituição à comunidade como ponto de apoio às necessidades do mercado de trabalho”, pontua Josiana. Desde 2003, a Amurp também é parceira da Fraternidade Solidária São Francisco de Assis (Frasol), na Cozinha Santa Clara, fornecendo insumos para as aulas práticas dos alunos.
As reuniões da Amurp acontecem quinzenalmente. “Definimos as prioridades para determinado período, as atividades a serem desenvolvidas e os recursos necessários (humanos, materiais e financeiros). Monitoramos e avaliamos as ações desenvolvidas. A partir dos objetivos traçados e da equipe reunida, sempre com o suporte da Unimed e o apoio dos parceiros, a Amurp transforma a vida de algumas pessoas”, diz Josiana. Para ela, o trabalho voluntário constitui-se em um ato de cidadania, motivado por valores de solidariedade e de participação social. “Mas também significa crescimento, fortalecimento e realização pessoal”, declara Josiana, formada em Artes Plásticas.
Manter o grupo motivado é um grande desafio para Josiana, que também aponta aponta comno obstáculos a arrecadação de recursos financeiros e a realização de parcerias. “Porém, as dificuldades se tornam pequenas quando constatamos as realizações e as transformações conquistadas”, pondera. Segundo Andréia, que lida diretamente com as crianças e os adolescentes do Nosso Clubinho, a entidade passa por muitas dificuldades financeiras, mas o otimismo fala mais alto. “Já vimos tanta coisa boa acontecer aqui dentro e isso nos faz pensar somente no que será feito daqui para frente. Nosso desejo é despertar nessas crianças a vontade de acreditar na vida, a esperança de que é possível voltar para os pais ou encontrar outra família”, acrescenta Andréia.
As dificuldades não interferem nos trabalhos da Associação Mulheres da Associação Comercial Industrial de Ribeirão Preto (Amarp). Criado a um ano e meio, a Instituição presidida por Maria Aparecida Carvalho está em pleno desenvolvimento, apesar de já ter realizado ações efetivas. Entre elas, campanhas de arrecadação e doação de fraldas geriátricas, cobertores e brinquedos para instituições de caridade e o recolhimento de roupas e mantimentos para a Campanha S.O.S. Rio, no fim de 2010. “A ACIRP é muito procurada pelas entidades. Decidimos, então, fundar uma associação de mulheres ligadas à Associação Comercial para estimular a responsabilidade social, com esposas de diretores, de conselheiros, de funcionários e de colaboradores, para que as ações da ACIRP fossem desenvolvidas de forma ordenada. Nosso objetivo não é fazer pequenas ações, mas grandes campanhas, e favorecer várias instituições ao mesmo tempo”, explica Maria Aparecida, conhecida como Cidinha. Cerca de 30 mulheres compõem a Amarp, entre presidência, diretoria, secretárias e conselheiras.
Segundo Cidinha, que já foi coordenadora geral de 78 Casas da Amizade do Rotary Club, as mulheres da Amarp devem ter amor e espírito de doação. “Muitas pessoas se recusam a encarar a realidade da pobreza e da desigualdade, alegando se sentirem desconfortáveis. Mas quando se colocam diante dessas situações é que a solidariedade nata aparece e o retorno chega rapidamente”, ensina Cidinha, formada em Administração de Empresas. A presidente se solidariza principalmente com idosos, pois acredita que as crianças ainda têm o futuro inteiro pela frente, diferentemente da terceira idade, que não espera mais nada, além do amor do próximo.
Texto: Marina Rezende
Fotos: Julio Sian, Ibraim Leão e Carolina Alves