À Sombra dos Apps

À Sombra dos Apps

Presentes no cotidiano, aplicativos de comida e entregas mudam hábitos de consumo dos ribeirãopretanos; entretanto, problemas em sistemas e condições de trabalho de entregadores ainda são tabus

Juliano Scavazzini, de 34 anos, trabalhava em uma oficina de funilaria e pintura antes de ficar doente e sofrer com problemas respiratórios. Em 2018, decidiu ser entregador por meio de aplicativos de comida e de entregas, como uma alternativa ao trabalho comum. Entretanto, o que era apenas uma possiblidade, tornou-se a única opção de emprego. “No início, eu trabalhava de oito a nove horas por dia, dependendo da situação. Hoje [o período] é maior. Eu fico logado ao aplicativo em torno de 14 a 15 horas por dia. É bem maior, mas eu ganho bem menos”, relata o entregador, que trabalha seis dias por semana em cinco aplicativos diferentes – dentre eles, o iFood, mais popular entre os apps de entrega de comida no Brasil.

Juliano faz parte de uma realidade que atinge 5,5 milhões de indivíduos em todo o Brasil, com base em dados de março de 2019 do Instituto Locomotiva: a de trabalhadores autônomos em aplicativos de transporte, comida e entregas. Com o setor de empresas de entrega expressa em crescimento, fazer parte desta cadeia produtiva aparenta ser alternativa fácil para driblar a crise, além do desemprego, que assola 12,6 milhões de brasileiros, segundo dados de agosto divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Contudo, enquanto os pedidos surgem com facilidade e a todo instante pelos sistemas, as jornadas de trabalho dos entregadores, sejam ciclistas ou motociclistas, parecem não ter fim. Em um setor que gerou um faturamento recorde de R$ 11 bilhões somente no ano passado, de acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), faltam respostas e sobram reclamações sobre a qualidade dos serviços prestados pelos apps.

"Precisamos ser Ouvidos"
Dentre as várias reclamações dos entregadores em Ribeirão Preto, estão a falta de infraestrutura urbana adequada e de segurança nas vias da cidade, além do desrespeito aos motociclistas. Juliano conta que ele e outros entregadores não se sentem totalmente seguros trabalhando em Ribeirão Preto, relatando até terem sofrido assaltos enquanto entregavam. “São muitos buracos nas ruas. Se ocorre um acidente, nenhum dos aplicativos dá suporte para a gente. Teve até um amigo nosso que teve a moto levada na praça da avenida 13 de Maio com a rua Capitão Salomão. Ele estava com uma corrida do iFood na tela e o aplicativo até hoje não fez nada. Em alguns restaurantes, tratam muito mal os entregadores. As dificuldades são muitas”, afirma.
Juliano Scavazzini, entregador por aplicativos, trabalha em torno de 14 a 15 horas por dia, durante seis vezes na semana
Os profissionais de entrega reclamam que, especificamente no iFood, ocorrem injustiças na distribuição de corridas para os motociclistas. Juliano explica que existem duas modalidades distintas de entregadores neste app: os “OLs”, ou operadores logísticos, que trabalham com horário fixo, e os “nuvens”, que fazem seus próprios horários. Os operadores logísticos recebem, segundo ele, de 70 a 75% das entregas do aplicativo, enquanto os entregadores “nuvens”, como Juliano, recebem de 25 a 30% das corridas. “De um mês para cá, tenho feito de 3 a 4 corridas por dia, com média de remuneração de R$ 7 a R$ 8 por entrega. O mínimo que eu já vi de entregas feitas por um ‘OL’ é de 10 corridas por dia. Você aciona o iFood pelo chat e eles dizem que a demanda está igual, mas não está”, conta o entregador. “Essas situações vêm desde o início das atividades dos aplicativos. Não temos suporte nenhum, e nunca tem melhora. Precisamos ser ouvidos”, frisa.

Por meio de nota, o iFood afirma que, embora assaltos digam respeito à segurança pública, o app presta atendimento a parceiros que atuam de forma independente e disponibiliza canais de atendimento para reportar ocorrências. O iFood também destacou que passará a oferecer seguro acidente pessoal que cobrirá os entregadores quando estiverem em trânsito, sem qualquer custo. “Até o final do mês, o seguro estará disponível para entregadores da Grande São Paulo e, até o final de novembro, estará disponibilizado em todas as 662 cidades onde o iFood opera”, explica, em nota.
 
Sobre os valores de remuneração, o aplicativo informou que leva em conta o raio de distância entre o entregador, o local do pedido e a entrega. “O que pode ocorrer são momentos em que existe uma diferença entre oferta e demanda do ponto em que o entregador está, como em qualquer outro segmento, dentro do modelo do econômico atual”, esclarece a empresa.

Mercado em Crescimento
Especialistas no mercado dos apps de comida e entregas opinam que a explosão de popularidade dos aplicativos de entregas expressas no Brasil significa o surgimento de novos hábitos de vendas e consumo — não só por parte dos usuários e clientes finais dos serviços, mas para os restaurantes cadastrados, também. Segundo Myrko Micali, fundador e CEO do aplicativo de comidas e entregas Alfred Delivery, com sede em Ribeirão Preto, os apps representam maior possibilidade de vendas e inovação para as empresas. “Aquele cliente que não conhece os restaurantes pode pedir pelos apps, e a empresa ficará conhecida. Ou seja, uma venda que ela nunca faria, nós conseguimos que tenha”, destaca Myrko.
“Os hábitos das pessoas mudaram, bem como a rotina e as prioridades”, diz Myrko Micali, fundador e CEO do app de comida e entregas Alfred Delivery
Dirceu Tornavoi de Carvalho, doutor em Administração e Marketing, explica que a rápida adesão a esses serviços se deu após os brasileiros superarem o medo de realizarem compras on-line. “Uma nova geração de consumidores nasceu com a internet e, portanto, não tem mais medo de e-commerce como os antigos tinham”, afirma o professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP de Ribeirão Preto, que reafirma a conveniência e facilidade dos apps como atrativos para o consumidor. “Os aplicativos de entregas, de qualquer natureza, proporcionam conveniência a custo relativamente baixo. Quando se avalia o tempo e os custos de ir à loja, cada vez mais gente prefere pagar para que coisas e, em especial comida, sejam entregues na casa ou trabalho do consumidor”, esclarece Dirceu.
Doutor em Administração e Marketing, Dirceu Tornavoi destaca conveniência e facilidade como qualidades dos apps de comida e entregas
Myrko acrescenta que as mudanças promovidas pelos aplicativos nos comportamentos dos consumidores podem ser vistas como reflexos de novas rotinas diárias criadas pelos brasileiros nos últimos anos, impulsionadas pela correria do cotidiano. “Vejo uma consolidação de mercado, uma mudança que vem acontecendo por anos. Não é somente a compra de comida on-line. Os hábitos das pessoas mudaram, bem como a rotina e as prioridades. Antigamente, ir ao mercado era um habito normal das pessoas. Hoje em dia, por falta de tempo e até mesmo por comodidade, as pessoas fazem suas compras no Alfred para que possam realmente focar no que precisam. Essa mudança está acontecendo agora em Ribeirão Preto, mas isso acontece há anos”, pontua Myrko.

Novas Oportunidades
Antes de se cadastrar em dois aplicativos de comida, Wellington Chaves, de 20 anos, fazia pequenos trabalhos em condomínios de Ribeirão Preto, varrendo e limpando calçadas. O entregador deixou os “bicos” após conversar com um amigo, que lhe contou sobre os aplicativos e decidiu se juntar a outros motociclistas da cidade, com o objetivo de garantir uma renda extra e fazer seu próprio horário de trabalho. Iniciando sua jornada em um shopping do centro de Ribeirão, Wellington realiza uma média cinco corridas por dia — sempre com valores entre R$ 7 e R$ 8 por pedido. Entretanto, ele destaca que outras atividades possuem mais vantagens que os trabalhos com os apps de comida e entregas. “As ruas são os maiores problemas para nós, entregadores. Nunca tive problema com o suporte dos apps, mas, às vezes, demora”, diz.
“Pensar em parar, nunca pensei. Mas, se tivesse um outro emprego com a mesma remuneração, talvez eu saísse”, diz Wellington Chaves
Fazendo o próprio horário, Wellington opta por tirar alguns dias para realizar outras atividades, como estudos em cursos de treinamento e aulas de teatro. Assim, ele conta que recebe em torno de R$ 900 a R$ 1000 por mês, e considera a remuneração parcialmente justa. “Em muitas vezes, eu trabalho de segunda a sexta; às terças, eu não trabalho, porque faço teatro. Há vezes em que recebo mais que um trabalhador assalariado, mas seguro por acidente ou assalto não tem”, diz. Indagado se em algum momento, já pensou em abandonar o serviço, o entregador responde com cautela. “Pensar em parar, nunca pensei. Mas, se tivesse um outro emprego com a mesma remuneração, talvez eu saísse”, finaliza Wellington. 

Facilidade , Mas com Cautela
Para o estudante Gabriel Melo, de 21 anos, as grandes vantagens dos serviços dos aplicativos de comida e entregas são a facilidade nos pedidos e a variedade de opções. Ele conta que utiliza apps como iFood, Uber Eats e Rappi desde 2016, mas a frequência dos pedidos aumentou desde o ano passado, realizando uma média de três encomendas por semana. “Tem semanas em que eu não peço, mas há outras em que acabo pedindo comida todos os dias”, relata Gabriel, que afirma encomendar comida, na maioria das vezes, para si mesmo. “Em quatro ou cinco toques na tela, a comida já está sendo preparada. Além disso, em vários momentos, estou em lugares que tem poucos restaurantes perto e os apps surgem com diversas opções na hora para escolher”, diz.
O estudante Gabriel Melo elenca a facilidade nos pedidos e a variedade de opções como motivos para pedir comida pelos aplicativos
Já a fotógrafa Maria Eduarda Guarizzo, de 19 anos, elenca motivos como os altos preços dos produtos e do frete para optar por não consumir os serviços dos aplicativos de entregas expressas. Ela expõe que fez apenas um orçamento para um pedido, mas não completou a encomenda porque considerou os valores caros. “Tive contato há um ano com alguns sistemas. Eu entrei no aplicativo, mas quando vi o preço do frete e das comidas, desinstalei e não baixei mais”, afirma Maria Eduarda. Ela destaca que prefere fazer a própria comida no almoço e ainda alerta pelo cuidado com a quantidade de pedidos, sejam eles dentro ou fora dos apps. “À noite, se eu realmente não gostar do que tiver em casa, prefiro pedir. Mas sempre evito, para não gastar. É preciso manter controle do quê e quando pedir”, ressalta.
Sempre que possível, a fotógrafa Maria Eduarda Guarizzo prefere fazer sua própria comida, e não usa apps de comida e entregas


Nas Magrelas
Foi com o foco na oportunidade de aumentar a renda que o ciclista Felipe Guedes, de 25 anos, decidiu, há dois meses, cadastrar-se para ser entregador de dois aplicativos. Natural de São Joaquim da Barra, ele deixou de vender capas para celular no centro de Ribeirão Preto para ser entregador, trabalhando, atualmente, com longa jornada, que dura em torno de dez horas por dia, durante seis dias na semana. Apesar da pouca experiência acumulada usando o aplicativo, ele relata que o número de ciclistas entregadores tem crescido em Ribeirão Preto.  

As remunerações para cada pedido entregue pelos ciclistas, segundo Felipe, não passam de R$ 5. “No começo, eram de duas a três entregas por dia. Faço, em média, dez corridas por dia e trabalho nos dois apps todos os dias. Atualmente, em Ribeirão, temos em torno de 40 bikes correndo com os aplicativos”, diz Felipe, que afirma deixar os dois aplicativos ligados ao mesmo tempo. Ele conta que, nos últimos dias, esteve trabalhando das 12h à 1h, jornada que considera exaustiva e com remuneração injusta. “Em muitas corridas que faço, não ganho quase nada”, afirma o entregador.


Entregas Pesadas
Em São Paulo, uma pesquisa da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) revelou que o número de ciclistas entregadores de aplicativo na cidade aumentou 5,4 vezes em relação ao ano passado. Ainda de acordo com a pesquisa, a renda média mensal de cada ciclista entregador na capital é de R$ 936, abaixo do salário mínimo atual (R$ 998). O levantamento também aponta que 57% dos ciclistas ouvidos afirmam trabalhar nos sete dias da semana e 95% dos 270 entregadores entrevistados pela associação fazem jornadas de até 14 horas por dia, percorrendo distância média diária de 40 km.  A Associação ainda destaca que cada ciclista que percorre diariamente 40km deixa de emitir 2,75kg de dióxido de carbono (CO2) por dia. Em um ano, uma tonelada de CO2 deixa de ser lançada na atmosfera, gerando compensação equivalente a oito árvores. “A pauta da ciclologística nas grandes cidades, que antes versava sobre a logística urbana sustentável com zero emissão de poluentes e políticas públicas para incentivo a estas modalidades, vem sendo sobreposta por importantes debates e questões relativas às relações e condições de trabalho em uma economia ainda em crise e com índices de desemprego alarmantes”, afirma a Aliança Bike, na pesquisa.

Texto: João Pala

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