A taça do mundo também é nossa!

A taça do mundo também é nossa!

Em 20 Copas do Mundo FIFA, as equipes do Brasil contaram com a participação de 11 jogadores da região de Ribeirão Preto — três deles voltaram para casa com o título do principal torneio de futebol

O futebol é assunto sério em Ribeirão Preto. Tanto isso é verdade que a cidade é uma das poucas localizadas no interior paulista com dois clubes em plena atividade. No município, Botafogo e Comercial mobilizam torcedores das mais diferentes faixas etárias. No entanto, as equipes locais não estão sozinhas na lista de tradições do esporte no município. Graças a alguns jogadores de talento indiscutível, a cidade e a região também fazem parte da história das copas do mundo. De Ribeirão Preto e de algumas cidades vizinhas saíram 11 jogadores já convocados para o principal torneio do futebol mundial. Entre eles, três atletas voltaram para a casa com o título. 

Em 2018, Ribeirão Preto tem seu representante: o meia Fernandinho, cuja família ainda mora na cidade, foi convocado para disputar a segunda Copa da carreira — a primeira foi em 2014. O atleta de 33 anos é o atual campeão da primeira divisão do campeonato inglês, pelo Manchester City. A mãe do atleta, Ane Cristiane Machado, diz que a sensação de ter um filho convocado para a segunda Copa é incrível. “Ele terá uma segunda chance de mostrar o trabalho dele. Creio que vai dar certo, pois o Tite é um treinador muito bom. Estou muito feliz e orgulhosa. Agradeço a Deus por mais essa chance. Quando vi o nome e a foto do Fernando na televisão, eu não me contive. Chorei muito, pois a Copa passada foi muito dura. Eu estava no estádio na hora da derrota e sofri vendo o desespero do meu filho. Foi muito triste”, acrescenta Ane.

Fernandinho é o representante da região em 2018

A mãe se refere ao trágico 7 a 1, no jogo entre Alemanha e Brasil na Copa do Mundo de 2014. Apesar do sofrimento, o placar inesperado parece ter servido de experiência. O jogador está confiante em relação à nova oportunidade para buscar o hexa. “Faltam palavras para expressar a felicidade de momentos como esse: fazer parte da lista de convocados para a Copa do Mundo. São anos de trabalho intenso, decisões e títulos, mas quando tratamos de Seleção e Copa, tudo tem um peso diferente. Vamos em frente”, garante Fernandinho. 

Primeiros vencedores
 

Emerson Leão defendeu a seleção em quatro Copas do MundoO atual comentarista Emerson Leão, de 68 anos, foi o atleta ribeirãopretano que mais vezes participou de uma Copa do Mundo. O ex-goleiro iniciou a carreira no Comercial e foi reserva de Félix na Copa de 1970, aos 20 anos, quando o time foi campeão. Leão também participou das edições de 1974, 1978 e 1986. Por tantas participações, completou 105 jogos pela Seleção Brasileira. “Joguei profissionalmente pela primeira vez aos 14 anos de idade. Quando fui convocado, era muito novo e já jogava em time grande, mas era capaz. Lembro que percebi muito prematuramente que o gol do Brasil ficaria vago. Fui aprovado nos testes e, assim, convocado. A minha dedicação serviu como experiência. Naquela época, era um mundo e um esporte diferente. A concentração durava de dois a três meses. Era um tempo mais do que suficiente para todos se entenderem e se conhecerem”, relembra Leão. 

O ex-goleiro explica que a pressão em 1970 não era tão grande, pois a qualidade do Brasil era muito alta. A edição do campeonato daquele ano foi marcada pela despedida de Pelé das Copas. “Estava na hora de surpreender. Nós disputamos e ganhamos as partidas na altitude porque houve um estudo e um preparo para isso. O mesmo deve acontecer agora. Está na hora do Brasil vencer. Não somos como antes, mas esta é uma geração que assistiu, ou participou, do vexame da Copa passada e não quer passar por isso novamente. Os jogadores têm capacidade para isso. Penso que precisa haver um líder dentro de campo, mesmo o esporte sendo coletivo”, opina Leão. 

Lembranças 

Assim como Leão, José Guilherme Baldocchi, de 72 anos, estava entre os campeões de 1970. O ex-zagueiro, nascido em Batatais (SP), ocupava o banco de reservas naquela ocasião e conta que o sentimento de fazer parte de um grupo campeão é inesquecível. “Nunca vou me esquecer daquele momento. Lembro que, com o título, alguns atletas sorriam, outros choravam, mas todos estavam muito orgulhosos. Como jogador, meus maiores feitos foram chagar à Seleção Brasileira, disputar uma Copa do Mundo e ser campeão. Isso sem contar as amizades que fiz. Nem eu esperava trazer o título para a região. Quando cheguei na entrada da cidade, Batatais estava parada. Subi no caminhão de bombeiros para desfilar”, recorda.

Baldochi lembra do comportamento de Pelé na Copa. “O Edson sempre esteve tranquilo, quem tinha que se preocupar com ele eram os outros. Ele se preparou muito para esta copa e se dedicou totalmente, pois sabia que seria a última”, acrescenta o ex-zagueiro. 

Irmandade de gerações 

Talvez a história mais famosa de atletas que saíram de Ribeirão Preto e conquistaram o mundo do futebol seja a dos irmãos Sócrates e Raí, que se destacaram pelo Botafogo antes de seguirem para o Corinthians e o São Paulo, respectivamente, na capital. 

Raí Souza Vieira de Oliveira, de 53 anos, foi campeão da Copa do Mundo de 1994, mas passou a maior parte dos jogos na reserva. O craque são-paulino iniciou o torneio nos Estados Unidos como capitão, no entanto, aos poucos foi perdendo espaço no time. Durante a competição, o destaque do atual diretor de futebol foi um gol de pênalti no jogo contra a Rússia pela primeira fase. Vale ressaltar que ele era o dono da camisa 10 daquela Copa. 

Já o irmão, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, teve uma história diferente na Seleção Brasileira. Estrela do time que participou da Copa de 1982, marcou a história do país com o bom futebol apresentado ao lado de Zico, Falcão e outros craques. O time não conquistou o título, mas deixou sua marca na história das Copas. Sócrates também esteve presente na edição seguinte, em 1986, mas voltou para casa com a triste lembrança de um pênalti desperdiçado contra a França, que desclassificou o Brasil. 

O ex-jogador nasceu em Belém (PA), mas iniciou sua trajetória no esporte já em Ribeirão Preto. Nascido em 19 de fevereiro de 1954, faleceu em 4 de dezembro de 2011, aos 57 anos, por complicações derivadas do uso de álcool. A notícia teve repercussão rápida em jornais de todo planeta. O corpo foi enterrado no cemitério Bom Pastor, em Ribeirão.
Uma frase dita por “Magrão”, apelido carinhoso utilizado pelos mais próximos do astro do futebol, marcou os anos que antecederam a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. “É um absurdo não usarem o Morumbi para a abertura da Copa. O estádio está ali, precisaria arrumar pequenas coisas. (...) Passaremos vergonha. Será a pior Copa de todas”.

Raí disputou a Copa de 1994, já o irmão Sócrates jogou em 1982 e 1986

Conquista nacional 

Juninho Fonseca fez parte do elenco da seleção em 1982Outro ex-jogador conhecido em Ribeirão Preto é Juninho Fonseca, que foi treinador de Comercial e Botafogo. Aos 59 anos, Juninho não foi titular da Copa de 1982, mas marcou a história da Ponte Preta ao lado do goleiro Carlos, que também foi convocado. “Vários jogadores estavam disputando um lugar naquela Seleção. A Ponte Preta estava sempre entre os melhores colocados, mas, naquele ano, fomos desclassificados precocemente do Campeonato Brasileiro. Vale lembrar que, a escalação era anunciada no rádio, sempre na segunda-feira. Lembro da ansiedade daquela espera e do enorme orgulho que senti por ter sido convocado”, reforça Juninho.

O ex-zagueiro lembra que, por ser jogador de uma equipe do interior, a concorrência era maior. “A concentração era avançada para aquele tempo. A Copa foi realizada no momento em que a musculação e o alongamento chegavam ao futebol. O clima era bom e relaxado. O ambiente era sempre divertido e eu era o responsável por grande parte das brincadeiras”, afirma. 

Nos livros

Os primeiros jogadores a levarem a região para uma edição da Copa do Mundo foram Tim, radicado em Ribeirão Preto, Algisto Lorenzato e Zeca Lopes, de Batatais. O trio participou do mundial de 1938, o terceiro da história. 

A Copa do Mundo daquele ano foi sediada na França, entre 4 e 19 de junho. A Itália sagrou-se bicampeã depois de derrotar a Hungria por 4 a 2 na final. Naquela edição, o Brasil terminou o torneio na terceira posição. Além dos jogadores regionais, a Seleção Brasileira tinha no elenco nomes como Leônidas da Silva e Brandão. 

Em 1938, o Brasil possuia três jogadores da região, o goleiro Batatais e jogadores Zeca Lopes e Tim.Filho do ferroviário Vargas Lima e de Tereza Granato, Elba de Pádua Lima, conhecido como Tim, nasceu em Rifaina em 1916. Em 1923, aos sete anos, perdeu o pai, o que fez com que mudasse para Ribeirão Preto, onde foi criado pela mãe no tradicional bairro da Vila Tibério, zona oeste da cidade. Foi lá que Tim descobriu o talento o futebol.

O ex-jogador começou sua carreira, oficialmente, no Botafogo, em 1928, aos 12 anos. Três anos depois, em 1931, tornou-se profissional e, mais tarde, ídolo da torcida.  O destaque foi tanto que, aos 18 anos, foi vendido para a Portuguesa Santista por 500 mil réis, o que equivale a R$ 61.500 atualmente. No novo clube, a carreira viria a deslanchar. Tim chegou à Seleção em 1936 e, em 1938, foi convocado para a Copa Do Mundo, já como integrante da equipe do Fluminense (RJ). Atacante, o jogador fez 71 gols em 226 partidas pelo time carioca. 

Na Argentina, Tim se tornou um dos principais nomes da história do futebol. No país vizinho, ficou conhecido como “El Peón”, pois conduzia o time brasileiro como um peão conduz a manada. O atleta também foi técnico do San Lorenzo de Almagro, clube pelo qual foi campeão argentino em 1968. Aquele foi o primeiro título invicto de um clube argentino na era do futebol profissional.

O ex-atacante também treinou a Seleção Peruana de futebol. A equipe, que não vivia um bom momento, classificou-se para a Copa do Mundo de 1982. Tim também foi o último treinador de Pelé como jogador do Santos, no Brasil, antes de defender o Cosmos, dos Estados Unidos, em 1974.

Aos 68 anos, El Peón morreu no Rio de Janeiro. Tim é conhecido até hoje como um dos maiores estrategistas do futebol brasileiro de todos os tempos. Em Ribeirão Preto, seu nome foi imortalizado no Complexo Esportivo “Elba de Pádua Lima - Tim”, a Cava do Bosque. 

Início da história

De Batatais para a Copa de 1938, saíram o goleiro Algisto Lorenzato, e o atacante Zeca Lopes — o primeiro, aliás, passou a ser conhecido pelo nome de sua cidade de origem. Batatais foi um jogador com rodagem pelo futebol brasileiro. Passou por equipes como Comercial, Portuguesa, Palestra Itália (atual Palmeiras), Fluminense e América. Graças ao comprometimento exemplar dentro dos gramados, o goleiro foi um dos atletas a levar para casa o Prêmio Belfort Duarte. Lorenzato faleceu em 16 de julho de 1960, aos 50 anos.

José dos Santos Lopes, o Zeca, também merece destaque pela convocação conquistada para a Copa de 1938. O ex-atleta não é tão conhecido como os demais, mas fez história pelo Brasil e pelo Corinthians. Foram 133 jogos e 35 gols com a camisa alvinegra. O ex-atacante viveu até os 85 anos, quando morreu em 28 de agosto de 1996, na mesma cidade em que nasceu. 

Seleção de estrelas 

A seleção de 2006 era uma das favoritas pelo público, mas não convenceu dentro de campoO time dos sonhos da seleção brasileira em 2006, composto por jogadores como Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Kaká, não obteve o desempenho esperado na Copa do Mundo e terminou a competição em quinto lugar. Naquele elenco de estrelas, havia um jogador com fortes ligações com Ribeirão Preto. 

Nascido em Pradópolis (SP), Cicinho, de 37 anos, iniciou sua carreira como jogador profissional pelo Botafogo ribeirãopretano. Mais tarde, passou por times como São Paulo, Real Madrid e Roma. Segundo o ex-atleta, um filme de saudade passa constantemente pela sua cabeça.  “Sei de onde saí e das condições que tive para treinar, das pessoas que me ajudaram e financiaram meu início no esporte. É um filme inesquecível”, pensa Cicinho.

Para o pradopolense, a Seleção Brasileira reúne os melhores jogadores. “Em 2006, estava em uma forma física excelente, jogando em alto nível, então, tive a oportunidade de, em 2005, na Copa das Confederações, contribuir e encaminhar minha vaga no elenco do ano seguinte. O sentimento de vestir a camisa da Seleção é único. Fazer isso em uma Copa do Mundo traz a confirmação de um grande trabalho feito. Vivi um momento de êxtase”, relembra Cicinho.

Naquele Mundial, foi o jogo contra o Japão que revelou o talento de Cicinho para o planeta. Como determinou o técnico Carlos Alberto Parreira, o time reserva entrou em campo, pois a seleção já estava classificada. “O Parreira foi ao meu quarto, conversou comigo e com o Robinho, por que éramos os mais jovens do elenco, e nos deu total apoio. O mesmo fez o Zagalo e os jogadores mais experientes. Lembro que a ansiedade para o jogo foi grande. Queríamos que nossos amigos e familiares se orgulhassem do nosso trabalho. Entretanto, vestir a camisa em qualquer jogo traz muita pressão e o mais difícil é que a seleção não pode perder, então, somos sempre cobrados. Graças a Deus, participei e pude dar passe para gol”, acrescenta. Por fim, Cicinho exalta o time brasileiro. “A Seleção Brasileira representou a confirmação de um sonho, de um projeto criado dentro de mim, de um dia levar o nome de Pradópolis e a região de Ribeirão Preto para o cenário nacional”, finaliza o ex-jogador.

Satisfação

Doniéber Alexander Marangon, de 38 anos, o Doni, foi o último goleiro com origens em Ribeirão Preto a participar de uma Copa do Mundo. Agora aposentado, o ex-jogador nasceu em Jundiaí, mas se declara ribeirão-pretano de coração. “Sou nascido em Jundiaí e morei em muitos lugares, mas, sem dúvida nenhuma, considero Ribeirão Preto a cidade do meu coração. Morei aqui por vários anos e aqui também iniciei minha trajetória no futebol”, explica Doni. 
O ex-goleiro disputou o mundial da África do Sul, em 2010. “Foi um sentimento de muita alegria e satisfação, pois este é o sonho de qualquer atleta do futebol. O auge da minha carreira aconteceu nas temporadas de 2007 e 2008, anos em que fui campeão da Copa América com o Brasil e fiz grandes jogos na Roma. Depois disso, fui para a Copa, o que representa o máximo da minha carreira, um sonho realizado”, finaliza Doni.

Copa do Mundo na Rússia 

Em junho de 2018, a Copa do Mundo FIFA de futebol atrairá os olhares de torcedores de todo o planeta para a Rússia e o Leste europeu. O evento é a 11ª edição realizada na Europa, após 14 anos longe do Velho Continente. A última aconteceu na Alemanha, em 2006.

Os europeus têm prevalecido entre os campeões das últimas três Copas. O último país fora do continente a ganhar a competição foi o Brasil, em 2002. Posteriormente, Itália, Espanha e Alemanha foram as vencedoras dos mais recentes mundiais. 

A Copa acontece a cada quatro anos e reúne 32 seleções participantes. Ao todo, 736 atletas participam do campeonato, já que cada país leva 23 jogadores. Tradicionalmente às segundas-feiras, no dia 14 de maio, a lista de convocados brasileiros foi anunciada em uma coletiva de imprensa comandada pelo técnico Tite. 

Os goleiros Alisson, Ederson e Cássio, os zagueiros Miranda, Marquinhos, Thiago Silva e Geromel, os laterais Marcelo, Filipe Luís, Danilo e Fagner, os meias Philippe Coutinho, Paulinho, Renato Augusto, Casemiro, Willian, Fernandinho, Fred, e os atacantes Taison, Gabriel Jesus, Roberto Firmino, Douglas Costa e Neymar foram os escolhidos para defender as cores do Brasil na Copa da Rússia. 

Ribeirão Preto no coração das seleções

Copa do Mundo FIFA         Atletas representantes da região

1938                                     Algisto Lorenzato (Batatais)
1938                                     Zeca Lopes
1938                                     Tim
1970, 1974, 1978 e 1986     Emerson Leão
1970                                     Baldocchi
1982 e 1986                         Sócrates
1982                                     Juninho Fonseca
1994                                     Raí
2006                                     Cicinho
2010                                     Doni
2014 e 2018                         Fernandinho



Seleções campeãs de todos os tempos

Copa do Mundo FIFA 1930 – Uruguai
Copa do Mundo FIFA 1934 – Itália
Copa do Mundo FIFA 1938 – Itália
Copa do Mundo FIFA 1950 – Uruguai
Copa do Mundo FIFA 1954 – Alemanha
Copa do Mundo FIFA 1958 – Brasil
Copa do Mundo FIFA 1962 – Brasil
Copa do Mundo FIFA 1966 – Inglaterra
Copa do Mundo FIFA 1970 – Brasil
Copa do Mundo FIFA 1974 – Alemanha
Copa do Mundo FIFA 1978 – Argentina
Copa do Mundo FIFA 1982 - Itália
Copa do Mundo FIFA 1986 – Argentina
Copa do Mundo FIFA 1990 – Alemanha
Copa do Mundo FIFA 1994 – Brasil
Copa do Mundo FIFA 1998 – França
Copa do Mundo FIFA 2002 – Brasil
Copa do Mundo FIFA 2006 – Itália
Copa do Mundo FIFA 2010 – Espanha
Copa do Mundo FIFA 2014 – Alemanha
Copa do Mundo FIFA 2018 – ?

 

Texto: Pedro Gomes
Ilustração capa: Alexandre Nascimento

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