A tecnologia dá o tom

A tecnologia dá o tom

Com o mercado de trabalho em constante transformação, características como adaptação, capacitação e flexibilidade serão fundamentais para acompanhar o avanço tecnológico e as profissões do futuro

Cidades aéreas, pessoas dirigindo carros voadores e empregadas robôs para servir e limpar a casa compunham as cenas dos desenhos animados da série “Os Jetsons”, originalmente exibida no início dos anos 1960, mas reprisada com frequência nos anos 80, vislumbrando o futuro. Hoje, esta realidade está mais próxima, afinal, a inteligência artificial e o avanço tecnológico estão proporcionando inovações e transformando o modo de vida das pessoas, seja nas tarefas do dia a dia, na automação de serviços, nas relações interpessoais e até mesmo no mercado de trabalho.

Se as formas de trabalhar se modificam, as funções também sofrem alterações. De consultores de longevidade a fazendeiros vertical, novas e inusitadas profissões estão surgindo, entretanto, outras, relacionadas principalmente à parte administrativa e burocrática desaparecerão. O mercado de trabalho em constante transformação exigirá que as pessoas mantenham, acima de tudo, a flexibilidade e a capacidade de adaptação. Sistemas ciberfísicos são, em grande parte, os responsáveis pela chamada 4ª Revolução Industrial, possibilitada pela convergência de tecnologias digitais, biológicas e físicas. Essa mudança é radical: uma pesquisa do Instituto McKinsey prevê que, até 2030, metade das atividades de trabalho poderão ser automatizadas no mundo.

No Brasil, onde há, atualmente, 13 milhões de desempregados, a estimativa é de que quase 16 milhões de empregos estejam perdidos nos próximos dez anos, cerca de 14% da atual força de trabalho no país. Entretanto, de acordo com Mônica Silvestre Santos, psicóloga organizacional, a ideia de que a tecnologia dominará o mercado de trabalho e, possivelmente, substituirá a mão de obra humana, está equivocada. Para ela, por mais que o surgimento da inteligência artificial tenha causado um alvoroço social e tenha humanizado robôs com competências como empatia, intuição, tomada de decisão e criatividade, nenhuma tecnologia ou máquina poderá substituir sentimentos como o afeto ou as relações espontâneas, empáticas e criativas das pessoas. “Em um mundo cada vez mais digital, o principal diferencial será o ser humano”, enfatiza.

Para Adriana, as instituições de ensino deverão criar metodologias que estimulem o pensamento crítico dos alunos

O ideal, segundo Mônica, é que as pessoas estejam abertas às mudanças e se preparem para um novo mundo, mais digital, conectado e sistêmico. Em sua opinião, as inovações tecnológicas fazem parte do cotidiano, mas a percepção da realidade depende da mentalidade de cada um: “enquanto alguns acreditam que a tecnologia substituirá o homem, outros defendem que eles andarão juntos. Tarefas automáticas serão realizadas por robôs e as pessoas desempenharão outras atividades mais especializadas, como programar ou cuidar destes robôs, atender pessoas ou criar novas ideias e melhorias”, acrescenta Mônica.

Conexão com o mundo digital

Especialistas apostam também nas profissões a serviço da saúde e do meio ambiente, envolvendo biotecnologia e informação, entre as mais cotadas para o futuro, como detetive de dados, facilitador de TI, gestor de desenvolvimento de negócios de inteligência artificial e diretor de portfólio genômico. Profissões da área de sustentabilidade, como gestor de resíduos e consultor de sustentabilidade, ou àquelas ligadas à qualidade de vida e ética, como oficial de ética de sourcing e conselheiro de compromisso de saúde, podem ser as candidatas ao futuro. “Em resumo, não deveríamos nos preocupar com os empregos ou trabalhos, mas sim com as pessoas. Elas precisam se cuidar e investir para viver bem o presente e fazer escolhas mais conscientes que impactam o futuro”, destaca Mônica.

Construção de potencialidades

Ao passo em que a sociedade e as pessoas se transformam, as instituições de ensino também deverão rever metodologias, avaliar o potencial dos profissionais e inovar no ambiente e no processo de ensino. É possível considerar mudanças estruturais no ambiente educativo também, além de estimular a população a investir no conhecimento fazendo com que mais indivíduos se capacitem nas habilidades requeridas no novo contexto do trabalho.

A previsão do Fórum Econômico Mundial, no relatório Futuro do Trabalho, é que 65% das crianças que estão começando agora o primário deverão trabalhar em empregos que ainda não existem. Até 2020, o número de empregos perdidos devido ao avanço tecnológico e fatores socioeconômicos pode chegar 7,1 milhões. Dois terços deles estão relacionados a funções como as administrativas e as de escritório, aponta o estudo.

Mônica: "Em um mundo cada vez mais digital, o principal diferencial será o potencial do ser humano"

Para a professora Adriana Cristina Ferreira Caldana, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fearp) da USP, este avanço tecnológico é diferente das outras revoluções porque a substituição não é mais da força de trabalho, mas das capacidades cognitivas humanas. Segundo ela, o processo de educação é o grande responsável por fazer com que as pessoas se posicionem e acompanhem as transformações, pois será necessário que elas aprendam a buscar novas ferramentas de conhecimento. “É a velha máxima do ‘aprender a aprender’. As instituições devem preparar a metodologia de ensino olhando para os futuros profissionais como agentes de transformação, não somente como futuros empregados ou repetidores de conhecimento. O aspecto criativo e inovador são pontos-chave neste cenário, por isso, as instituições devem estimular o pensamento crítico entre seus alunos”, destaca Adriana.

Trata-se, portanto, de uma mudança paradigmática do sistema educacional para um modelo revolucionário no sentido da revisão de conceitos e de projetos pedagógicos, desde o Ensino Fundamental até o Superior.

Segundo Neide de Souza Lehfeld, coordenadora da Divisão de Pesquisa e Pós-Graduação Stricto Sensu da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), as metodologias atuais de composição do ensino, aos poucos, quebrarão o conservadorismo dos métodos tradicionais, visando ao maior envolvimento dos alunos em sua formação enquanto cidadãos e profissionais. “Salas de aula invertidas, espaços de inovação tecnológica, fóruns temáticos de discussão, ensino híbrido — presencial e on-line —, plataformas, softwares e outras ferramentas e estratégias vão sendo adotadas para o acesso e o compartilhamento do conhecimento, aprimorando o processo de ensino-aprendizagem”, exemplifica.

Para Cristiane, a extinção e o nascimento de novas profissões já é uma realidade

Nesse contexto de avanço tecnológico, comenta a professora, a escolha da carreira profissional provoca incerteza, medo e insegurança. “Há muita informação e dados projetivos quanto à extinção de profissões consideradas clássicas ou tradicionais pouco automatizadas e, infelizmente, ninguém consegue prever como será o mundo e o mercado de trabalho e quais as competências e habilidades pessoais e profissionais existirão nas próximas décadas e/ou no século XXII”, conclui Neide.

Capacitação para lidar com o futuro

Diante de tanta discussão e incerteza em relação às novas profissões, os especialistas são unânimes: é preciso capacitar o ser humano para se adequar às mudanças. “Acreditamos que, frente à inevitável automação, o caminho é capacitar o ser humano, que estará no planejamento e na execução dessa automação, com novos recursos, não só técnicos e intelectuais, mas, também, emocionais. Nesse contexto, compreender profundamente as novas tecnologias é fundamental”, comenta Ana Paula Hermanson, coordenadora pedagógica do Ensino Médio do Colégio Anchieta.

Os alunos do Colégio frequentam aulas de robótica em salas equipadas com aparelhos multimídia que oferecem também ao professor recursos para expandir a abordagem dos conteúdos, incluindo o uso de aplicativos educacionais, além de aulas e conteúdos extras. Para ela, oferecer estímulos variados propicia melhorar habilidades dos alunos que, futuramente, serão os profissionais que ocuparão as novas formas de trabalho. “Nesse contexto, também valorizamos as disciplinas compreendidas na área das Ciências Humanas, que, entre outras atribuições, propõem-se a discutir e a refletir sobre as relações de produção e a história do trabalho na sociedade humana”, completa.

Neide acredita que as novas metodologias de ensino visam maior envolvimento dos alunos como cidadãos e profissionais

A tecnologia a favor da educação

Uma recente pesquisa da instituição TIC Kids Online, que objetiva mapear possíveis riscos e oportunidades on-line às crianças e adolescentes, apontou que o percentual de jovens entre nove e 17 anos que acessam a rede somente pelo celular cresceu 7% desde 2016. Os que acessam a rede pelo telefone móvel chegaram em 44%. Já que a tecnologia é o principal aspecto para o surgimento de novas profissões, a professora Cristiane Miura embarcou na onda e não perdeu tempo: criou um aplicativo que permite o ensino de redação à distância para alunos que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A experiência de dez anos em sala de aula a fez testemunhar a pressão vivida pelos estudantes por não dominarem a linguagem escrita, principalmente em época de vestibular. Percebeu, então, a necessidade de construir uma metodologia que permitisse identificar o nível do aluno e, assim, contribuir com o aumento no desempenho de cada estudante. A ferramenta funciona a partir da inscrição dos alunos que recebem temas a serem escritos e, posteriormente, são corrigidos em vídeo com a avaliação, explicações e soluções dos problemas encontrados no texto.

Por meio de música, Fernando investe em conteúdos digitais voltados para o público infantil

Para Cristiane, a extinção e o nascimento de novas profissões já é uma realidade. Um exemplo, segundo ela, é o analista de dados, profissional responsável pela gestão de dados, determinante para a tomada de decisões estratégicas da empresa. “Já estamos vivenciando essa revolução de profissões e, neste cenário, o que mais importa é a capacidade do indivíduo de ser versátil para reaprender constantemente. Logo, estamos saindo de uma era de profissões essencialmente técnicas — telefonista, motorista, entre outras — para carreiras do conhecimento — analista de Big Data, cientista de jogos digitais, analista de IoT (do termo, em inglês, ‘internet das coisas’), engenheiro de cibersegurança, entre outros”, destaca a professora.

A educação global para formar indivíduos capazes de absorver as novas profissões também foi a estratégia usada pelo músico Fernando Diniz, que criou vídeos ilustrativos a partir da vivência com a filha Pietra, de quatro anos. Dúvidas pertinentes à idade, como querer saber porque o sol vai embora todo dia ou o que é o vento, podem ser sanadas pelos personagens Pepe, Pietra, Juju e Boogye, que vivenciam situações diversas e transmitem mensagens que estimulam o aprendizado das crianças.

“Acreditamos que, frente à inevitável automação, o caminho é capacitar o ser humano”, comenta a coordenadora pedagógica Ana Paula

Para ele, o avanço tecnológico tem contribuído para o desenvolvimento cognitivo em todas as idades e classes sociais, o que, certamente, formará cidadãos capazes de lidar com essa nova realidade e com as novas profissões do futuro. “Estimular o contato com livros e conteúdos digitais, bem como o aprendizado de novos idiomas e a utilização de ferramentas interativas tem grande benefício no desenvolvimento das crianças. É surpreendente o quanto mudamos nossa forma de comunicação, relacionamento, produção, consumo e informação ao longo do tempo. A tecnologia será a responsável pela atuação das crianças em novas profissões do futuro”, frisa Fernando.

Confira algumas apostas de novas profissões que prometem revolucionar o mundo e o mercado de trabalho:

Desenvolvedores de softwares

Esses profissionais possibilitam o desenvolvimento de atividades com base no uso de computadores, programas e tecnologia da informação.

Especialista em Direito Digital 

O Direito Digital está relacionado, principalmente, a conflitos e crimes virtuais, bem como a antigas modalidades de delitos com a roupagem cibernética, como plágio, estelionato, entre outras.

Walker talker

No filme de ficção científica “Her”, a existência de uma inteligência artificial que tem a capacidade de compreender sentimentos humanos é o tema central da narrativa. Comparável às famosas damas de companhia comuns em cortes de tempos remotos, o walker talker é o profissional que fará companhia às pessoas solitárias.

Especialistas em experiência de usuário/cliente

Este profissional também é conhecido no mercado como “customer success”. Sua função é fazer com que o cliente tenha toda a assessoria necessária de algum produto/serviço contratado.

Gestor de ecorrelações

Profissionais que reúnam conhecimento técnico ambiental (engenheiro ambiental), de legislação sobre o tema (direito ambiental) e possuam habilidades em comunicação. 

Fazendeiro vertical

Fazendas verticais é tendência de cultivo que está fazendo muito sucesso em grandes centros como Nova Iorque e Londres. A atividade do fazendeiro vertical consiste em plantar verduras, legumes e plantas em geral para aumentar a área verde em prédio e terraços.

Geneticista

É um profissional que está em alta já há algum tempo, mas ganhará ainda mais notoriedade nos próximos anos.

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