A única saída

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Vacinação em massa é a esperança de que 2021 não seja um “ano perdido”, porém, medidas de distanciamento social ainda são fundamentais

Até a quarta-feira, 23 de março, 82% dos óbitos causados pela Covid-19 no município de Ribeirão Preto eram de pessoas com 60 anos ou mais. Das 1.436 mortes, 1.182 eram dessa faixa etária. O cenário trágico, contudo, aponta para um fator relevante: se a vacina atingir essa população, será possível reduzir consideravelmente o número de óbitos e, por consequência, diminuir a pressão na ocupação de leitos no município. Esse é o entendimento de especialistas em Saúde e da administração municipal. Além disso, as classificações do Plano São Paulo levam em consideração, principalmente, a taxa de ocupação de leitos, novas internações e óbitos, fatores que podem ser reduzidos com a vacinação em massa. Por isso, especialistas consultados pela reportagem da Revide são enfáticos: o único caminho para o fim da pandemia é a vacinação. E, até ela atingir toda a população, as medidas sanitárias e de distanciamento social seguem sendo a melhor arma contra o novo coronavírus.

Se fosse possível fazer uma analogia das vacinas de vírus inativado, como é o caso da CoronaVac, ela não seria um escudo contra o vírus, mas um manual de como vencê-lo. Isso porque, a vacina não cria uma proteção impenetrável contra o vírus. O que ela faz é “ensinar” o nosso sistema imunológico a se defender das doenças. Ou seja, mesmo uma pessoa vacinada ainda corre um risco — reduzido — de ser infectada e até transmitir o vírus. Porém, com o sistema imunológico “treinado” pela vacina, ela não evoluirá para um caso grave da doença. O médico e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP Fernando Bellissimo explica que a campanha de vacinação sozinha não resolve o problema da disseminação da Covid-19: ela deve vir acompanhada das medidas de distanciamento social, uso de máscara e higiene das mãos. “O que nós estamos vivenciando é que algumas pessoas vacinadas estão banalizando as demais medidas. Como a efetividade da vacina não é de 100%, em nenhuma delas, várias pessoas vacinadas estão pegando Covid-19. A vacina é, sim, uma esperança, mas não é tudo. Ela não dispensa necessidade das demais medidas básicas de prevenção”, comentou.

O médico Pedro Palocci, presidente do Grupo São Lucas, também partilha da análise de Bellissimo. Para ele, só existem duas saúdas para essa crise: o isolamento social, com as medidas de proteção individual, e a vacinação em massa. “No caso do Brasil, pela falta de planejamento e negacionismo do governo federal, teremos um ritmo muito lento, mas certamente teremos uma redução gradativa de casos. O preço dessa lentidão será um número muito grande de mortes evitáveis ao longo dos próximos meses”, declarou. De acordo com o Vacinômetro — plataforma do governo estadual que contabiliza as doses de vacina contra a Covid-19 aplicadas em todo o Estado —, Ribeirão Preto aplicou 87 mil doses até a terça- -feira, 22 de março. Desse total, 22 mil já receberam a segunda dose, o que equivale a 12% de toda a população do município. Em números absolutos, Ribeirão Preto é a sétima cidade que mais vacinou em todo o Estado. Atrasos na liberação da CoronaVac, a vacina do Instituto Butantan, pelo governo federal e a demora para a importação de insumos foram alguns dos motivos para a lentidão da campanha de vacinação. Ademais, a doença avança mais rápido do que a imunização. A média de casos e mortes em 2021 já é superior à de 2020. Nos três primeiros meses do ano, o município teve uma média de 5,9 mil casos e 130 mortes mensais. Em 2020, a média era de 4,1 mil casos e 104 mortes.

IMUNIZAÇÃO EM ETAPAS

Durante coletiva de imprensa no dia 9 de fevereiro, o prefeito Duarte Nogueira (PSDB) garantiu que a prioridade do município seria vacinar, o quanto antes, a população composta pelas pessoas com mais de 60 anos. “84% das pessoas que morreram em Ribeirão Preto, desde o início da pandemia, são pessoas com 60 anos ou mais. Portanto, quando a gente atingir a vacinação de 60 anos ou mais, nós vamos estar ‘blindando’ de morte”, afirmou Nogueira. A reportagem da Revide questionou a Secretaria Municipal de Saúde e o secretário Sandro Scarpelini sobre os próximos passos da vacinação e se os primeiros efeitos já podem ser sentidos, porém, não obteve retorno até o fechamento desta edição. Na quarta-feira, 24 de março, o município abriu o agendamento para os idosos com idade entre 69 e 71 pudessem se vacinar. Contudo, o site ficou instável logo nas primeiras horas, após cerca de 3 mil pessoas acessarem a plataforma ao mesmo tempo.

No entanto, Pedro Palocci ressalta que houve um deslocamento nas internações para as faixas etárias mais jovens, o que implicaria em uma vacinação ainda mais ampla para tentar reduzir a pressão na ocupação de leitos. “Para superar o pior momento, será necessária uma porcentagem muito maior da população já vacinada, independente da faixa etária, como acontece em outros países, como os EUA e Israel”, explicou. O médico ainda acrescentou que, apesar de ainda não haver um estudo aprofundado sobre o caso, a faixa etária acima dos 75 anos não é mais a maioria entre os internados, o que pode apontar para um primeiro reflexo da vacinação.

Muito tem se falado sobre uma “imunidade de rebanho”, um número ideal de pessoas vacinadas que faria com que a disseminação da doença cessasse. Porém, a imunidade de rebanho natural, aquela que poderia ser atingida por meio da infecção pela Covid-19, não se mostrou eficaz. “Imaginávamos que Manaus estaria com imunidade de rebanho após a primeira onda no passado. No entanto, veio uma segunda onda ainda mais forte”, apontou Bellissimo.

O professor da USP destaca algumas explicações possíveis para o fenômeno que ainda é motivo de análise de especialistas. O primeiro deles é a mutação do vírus, com a variante de Manaus, que teria conseguido reinfectar várias pessoas. Outra possibilidade é a de que a imunidade produzida pelo vírus não seja tão duradoura quanto se esperava. “Até o momento, não está confirmada a possibilidade de imunidade de rebanho contra a Covid-19. Pelo menos, não naturalmente. Se a vacinação em massa vai produzir esse efeito é algo que não sabemos, mas temos esperança de que sim”, pondera Bellissimo. Felizmente, uma pesquisa realizada por cientistas do Butantan e da USP comprovou que a vacina CoronaVac é eficaz contra novas cepas. O estudo atesta que o imunizante possui eficácia contra as três novas variantes que circulam no Brasil.

Para que a vacinação em massa seja efetiva na imunidade de rebanho, é fundamental que ela proteja não só contra o adoecimento, mas, também, contra a infecção. No momento, as vacinas de vírus inativo aplicadas no país têm uma proteção satisfatória contra o adoecimento, na casa de 78%, mas uma proteção baixa contra a infecção, na ordem de 50%. “Isso quer dizer que essas vacinas vão limitar de maneira marcante a disseminação do vírus na população, mas só as vacinas de RNA protegerão contra a infecção”, explicou.

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