A vez do Brasil

A vez do Brasil

Jardel Massari entrevista Marcos Fava Neves sobre gargalos no agronegócio brasileiro

Com perspectivas otimistas em relação às exportações brasileiras, com foco no agronegócio, o empresário Jardel Massari, sócio-fundador da Ourofino Agronegócio, entrevistou Marcos Fava Neves sobre as necessidades do setor para suprir a crescente demanda mundial por alimentos. A cadeia produtiva rural é responsável por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e gera um terço dos empregos do país. Recém-chegado dos Estados Unidos, onde passou um ano estudando e dando aulas na Universidade de Purdue (Indiana), Marcos deixa claro seu alto grau de insatisfação diante da situação do agronegócio brasileiro que, segundo ele, deveria ter maior visibilidade por conta de sua importância para o país.

Especializado em planejamento e gestão estratégica, entre outras áreas, o engenheiro agrônomo é doutor em Administração e criador do Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia (Markestrat), que hoje tem 50 pesquisadores. Em seu currículo constam inúmeros projetos, palestras no Brasil e no exterior, congressos e 30 livros publicados em sete países. No encontro com Jardel, realizado na sede da Ourofino, em Cravinhos, Marcos avaliou o cenário mundial, positivo para a cana, o açúcar e o etanol brasileiros.

Jardel: Qual a visão que o mundo desenvolvido tem do agronegócio brasileiro?
Marcos: Lá fora, o agronegócio é o setor mais admirado do Brasil em relação ao desempenho. Somos olhados com respeito, que foi conquistado por meio do trabalho árduo dos produtores rurais, das indústrias que compõem o agronegócio, da Embrapa e de outros institutos de pesquisa. Juntos, esses sujeitos nos levaram de uma exportação de USS 20 bilhões, em 2000, a USS 100 bilhões no ano passado, ou seja, cinco vezes maior em 10 anos. Outra vantagem do Brasil é a diversidade da produção. No passado, na década de 50 e 60, a commodity nacional era basicamente o café. Hoje, temos carnes, açúcar, café, soja, etanol, milho, papel e celulose, suco de laranja, entre outros. O portfólio que o país oferta para o mundo é enorme. Além disso, entre as grandes commodities, importamos pouca coisa, principalmente trigo, que ainda precisa ser melhor adaptado ao país.

Jardel: Vivemos uma verdadeira revolução no campo?
Marcos: Sim. Nos últimos 20 ou 25 anos, a agricultura passou por uma revolução silenciosa, o que é reconhecido nacional e internacionalmente. Hoje, o desempenho do setor é fantástico e nós temos, como sociedade urbana, que agradecer ao produtor rural, às empresas de insumos e à agroindústria pelas conquistas desse período. O Brasil fechou 2013 exportando USS 100 bilhões, enquanto as importações totalizaram USS 17 bilhões. Ou seja, o agro deixou USS 83 bilhões de saldo na balança comercial nacional. Se imaginarmos que o saldo total do Brasil foi de apenas USS 2 bilhões positivos, conseguimos dimensionar o que estamos falando. A queda do agronegócio significaria o desequilíbrio do Plano Real e, consequentemente, inflação nas alturas. Hoje, com o volume exportado, cobrimos as importações feitas pela sociedade brasileira, estimadas em 25% do nosso consumo total de produtos. São produtos como carros, tablets, alimentos, entre outros.

Jardel: Quais são as perspectivas de futuro para o setor?
Marcos: São excelentes. Em termos de consumo mundial, em especial nos países emergentes, o desenvolvimento está acelerado. Portanto, não precisaremos procurar mercado consumidor, que se formará naturalmente. O que necessitamos é de organização interna, resolvendo os gargalos da produção, como custos e impostos, para crescer e atender à demanda que já está garantida pelos próximos 30 ou 40 anos. O mercado internacional reconhece que o Brasil deverá atender entre 40% e 50% do consumo de alimentos no mundo.

Jardel: Quais são estes mercados em ascensão?
Marcos: A China, a Índia — que ganha dois milhões de habitantes por mês — e países da África passam por um grande processo de urbanização. Há cerca de 90 milhões de pessoas por ano indo para as cidades, deixando de produzir o próprio alimento na fazenda e passando a depender da indústria para isso, o que gera desequilíbrio. Na Índia, por exemplo, o governo criou um programa para distribuir 65 milhões de grãos à população carente, o que equivalente a dois terços da safra brasileira de soja. Ainda temos os países da Ásia e do Oriente Médio, com boas perspectivas de crescimento para as próximas décadas. As economias africanas, como Nigéria e Angola, serão grandes consumidoras até começarem a desenvolver a agricultura.

Jardel: O governo dá a devida importância e visibilidade ao setor?
Marcos: Antes de mais nada, precisamos entender que este governo não tem sua origem no agronegócio, mas no sindical urbano. O governo praticamente não promoveu reformas estruturais que aliviassem os custos e a carga tributária de empresas como a Ourofino, tornando-as mais competitivas. O grande erro é que este governo preocupou-se com a distribuição de renda, mas se esqueceu da geração de renda. Sem geração de renda não existe distribuição sustentável. Assim, o país como um todo vai mal. A balança comercial e a capacidade competitiva das empresas fora do agronegócio vêm se deteriorando justamente por causa disso. No atual governo, o peso do Estado só aumentou. A arrecadação necessária para sustentar uma união agigantada, com 39 ministérios e uma infinidade de cargos de confiança é astronômica. Aliás, temos dois ministérios (Agricultura e Desenvolvimento Agrário) para tratar da agricultura como se fossem coisas distintas, o que não se vê em outro lugar do mundo.

Jardel: O que é necessário para tornar o setor mais competitivo?
Marcos: É preciso atacar os problemas estruturais do Brasil. O agronegócio vai bem porque é muito bom, mas a falta de investimentos prejudicou vários setores, como agroenergia, calçadista, têxtil, entre outros. É preciso tratar questões anacrônicas, como a legislação trabalhista ultrapassada, a produtividade baixa em relação a outros países, a escassez e o custo de mão de obra qualificada. Isso sem falar na logística, já que o setor de transportes foi praticamente esquecido. O governo levou dez anos para se livrar do que considero um entulho ideológico contra as privatizações, gerando uma perda de tempo irrecuperável. Agora estão sendo privatizadas rodovias federais e aeroportos, assim como estão sendo implementadas mudanças no porto de Santos. É preciso investir fortemente nisso.

Jardel: A legislação tributária é mais um entrave para o desenvolvimento do país?
Marcos: Sem dúvida. A questão toda está ligada ao ambiente institucional, agravada pela grande contaminação ideológica contra a produção moderna. Outra dificuldade é a segurança, que se deteriorou. Vemos quadrilhas especializadas em assaltar fazendas, defensivos e gado, sem intervenção do Estado. Estamos presos a uma ideologia e a ideias equivocadas, como o investimento do governo brasileiro no porto de Cuba, um tapa na cara do setor agrobrasileiro. No ano passado, R$ 4 bilhões foram perdidos devido à deficiência do transporte. Este dinheiro poderia movimentar a economia dos pequenos municípios, gerar renda para produtores e indústrias. Por outro lado, vemos recursos gastos com multas de navios parados em Santos sem conseguir atracar, caminhão soltando grãos pela estrada, caminhoneiros cobrando o dobro do frete para ficar na fila, entre outras questões.

Jardel: Falta foco por parte do governo?
Marcos: Primeiro, o governo precisa decidir prioridades e não centrar sua relação comercial com países como Argentina, Venezuela ou Cuba. Queremos mercados em desenvolvimento, como Índia, China e países africanos, como estão fazendo nossos concorrentes. O Peru e a Colômbia, por exemplo, já jogam na primeira divisão da América do Sul e estão construindo acordos comerciais e abrindo mercados maiores. A ideologia “terceiromundista”, quase que bolivarianista, desse governo é ultrapassada e fora de moda.  Não deu certo em lugar nenhum do mundo. Se não trocar a liderança em outubro, que pelo menos seja trocada a agenda. Isso é o que eu tenho pedido nas minhas reuniões e palestras.

Jardel: A força política do setor agro precisa melhorar?
Marcos: Essa força começa a crescer um pouco agora. Um exemplo foi a aprovação do Código Florestal, inicialmente visto como ameaça, mas mostrou equilíbrio ao final. Hoje, o Brasil tem uma vantagem competitiva em relação aos concorrentes internacionais por conta desse Código. Já estamos um passo à frente da Índia, da China, da Argentina e dos Estados Unidos (EUA), que vão precisar liberar áreas da agricultura para adequação ambiental. Outro ponto é a bancada ruralista, que ainda é pequena perto da representatividade econômica do setor, responsável por 40% da economia brasileira. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) foi relegado ao quarto plano nesta gestão e está sendo sucateado, bem como os institutos de defesa sanitária e de pesquisa. É uma falta de prioridade, uma ofensa a um setor tão importante para o país.

Jardel: A criação da Frente Parlamentar pela Valorização do Setor Sucroenergético foi importante?
Marcos: Todo esforço coletivo é positivo. Acho que essa ação terá força quando começar a ameaçar o status quo. Eficaz mesmo será o setor se posicionar e mostrar quantos empregos e votos gera. Essa é uma moeda que eles entendem bem. O voto ameaça o projeto de perpetuação de poder, o que não combina com gestão. Ou se muda a agenda ou, em dois anos, estaremos vendo um país muito mais deteriorado do que está agora. Dilma Rousseff perdeu a chance incrível gerada nas manifestações de junho de 2013. Na época, a presidente deveria ter dito que iria atender à população. Mas perdeu a oportunidade e focou no plebiscito. Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que se o governo aumentasse as Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) da gasolina e usasse o recurso para subsidiar a passagem do transporte público, não haveria impacto sobre a inflação. Seria uma ação de distribuição de renda, estimulando o transporte público, a renovação da frota, entre outros benefícios. Mas esse pessoal não escuta, são arrogantes e focados em seu projeto mais importante, que é a perpetuação no poder. Projeto de poder não combina com projeto de gestão.

Jardel: Diante de tantos problemas, dá para recuperar a competitividade?
Marcos: Não estou tão confiante. O Brasil perdeu oito posições no ranking de competitividade mundial. Nossa balança comercial piorou, a dívida externa que o governo anunciou ter pago está em USS 200 bilhões. Multiplicada por oito, a dívida interna explodiu e a segurança acabou. Este será um ano imprevisível, agravado pelos movimentos de “efeito manada”. Não dá para dizer o que pode acontecer. Estou muito decepcionado com o Brasil. Estamos passando por uma deterioração moral, de valores, “como nunca antes vista na história deste pais”, lembrando frase clássica do ex-presidente, um artífice desta deterioração.

Jardel: O Brasil é o primeiro mercado, junto com os Estados Unidos, na produção de defensivos agrícolas. Porém, é o sexto em uso por hectare. Como melhorar este panorama?
Marcos: Não tem como atingir esse resultado econômico com aumento de produção e produtividade, sem proteção das plantas, com manejo adequado, e sem uso dos defensivos e dos fertilizantes. É preciso melhorar o acesso à tecnologia de ponta na produção de moléculas, que hoje o Brasil não tem, o que encarece o produto por conta das importações e do pagamento de royalties. O tempo que se leva para registrar um novo produto na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é um absurdo. Estamos com uma praga terrível, a Helicoverpa armigera, de difícil controle, porque ainda não temos produtos eficientes no mercado. As empresas que atuam na área têm modernizado, por meio de pesquisa, suas linhas de produção, com excelentes resultados. Não podemos ficar de fora desse jogo, ficar sem as moléculas mais modernas, prejudicando a economia brasileira. Esse é um ponto que merece cuidado, porque temos células terroristas, gente paga para agir dentro do país contra o nosso desenvolvimento.

Jardel: Qual seria a solução?
Marcos: Mais investimento. Atualmente, 95% dos princípios ativos dos defensivos ou fertilizantes são importados. Se houver desenvolvimento da área no Brasil, aos poucos, recupera-se. É preciso internacionalizar coisas e buscar novos modelos de negócios. A conta maior é a do fertilizante, porque muitos são importados, já que as matérias-primas estão fora do país. Quanto mais estimularmos a pesquisa e o desenvolvimento aqui dentro, mais vamos gerar valor e deixar de exportar, única e exclusivamente, commodities.

Jardel: Na batalha do petróleo contra a agricultura, que proveitos o país pode obter mundialmente?
Marcos: Talvez este seja o maior erro da política pública do atual governo. Está em seu currículo a destruição da Petrobras e do setor de cana. A Petrobras atingiu, no dia 31 de janeiro deste ano, o menor valor na bolsa desde 2007-2008 e o setor de cana está nessa situação graças a erros de política pública. Os problemas da inflação e da balança comercial estão ligados diretamente ao erro do desenho da matriz energética, feito lá atrás.

Jardel: Conhecida como “Capital do Agronegócio”, qual a perspectiva para Ribeirão Preto?
Marcos: Esta denominação, aliás, é minha. Com o cenário futuro positivo para a cana e para o agro, só há benefícios para a sociedade brasileira e para a região de Ribeirão Preto, porque haverá mais etanol sendo produzido, mais açúcar para exportar, menos gasolina para importar e mais produtos do agro. Mas o governo ignora a opinião dos cientistas do setor, que não são ligados a partidos políticos, e continuam errando a política.

Jardel: As cidades ganham com as usinas?
Marcos: Ganham, e muito! Analisei cidades como Uberaba (MG), Caarapó (MS) e Quirinópolis (Goiás) antes e depois da chegada das usinas, e a mudança é impressionante, como se fosse a própria revolução chinesa. Quirinópolis tinha mil empresas em 2006, antes da chegada das usinas, e hoje tem três mil. Eram dez mil carros, que viraram 25 mil. Há novas oficinas mecânicas, despachantes, escritórios de contabilidade, academias, hotéis, bares, restaurantes, bancos e muito mais. Essa política equivocada não fez surgir nenhuma nova usina este ano. É a primeira vez que estou vendo isso. O produtor de cana está financiando a produção e tem gente perdendo patrimônio. É um horror ver um governo do Partido dos Trabalhadores, ligado ao trabalho e ao emprego, não ver o que está acontecendo: empresários e até ex-alunos querendo ir embora do país. Outra decepção foi ver que o Brasil tem 63 milhões de pessoas sem trabalho que não estudam e nem procuram emprego. O governo fez com que os valores de trabalho que gera progresso se perdessem. Hoje, a moda é estar pendurado em alguma bolsa. O empresário não consegue contratar porque as pessoas não querem perder o benefício do governo. Assim, uma sociedade não vai a lugar nenhum, e o Brasil não se sustenta por muito tempo.

Jardel: O que deve ser feito para incentivar o setor da cana?
Marcos: A cana é promissora. O que precisamos é de uma parte da agenda do governo, que tem dois terços de culpa pela péssima situação do setor. Acertar essa questão da gasolina, desonerar o setor, principalmente em relação aos tributos estaduais — no âmbito federal, foram retirados PIS e COFINS — são medidas necessárias. São Paulo saiu na frente e reduziu o ICM para 12%. Já o produtor precisa se modernizar, participar mais de cooperativas, fazer mais associações. Ainda tem muita ineficiência no setor privado.

Jardel: O mercado futuro para exportação do etanol é viável?
Marcos: Sim, principalmente o anidro, usado como aditivo da gasolina. O etanol anidro melhora a qualidade da gasolina, substituindo o MTBE (Éter metilterc-butílico), um elemento poluente. O produto da cana tem espaço no mercado internacional, mas o principal consumidor do etanol está aqui dentro do país. O combustível, que já chegou a abastecer 50% da frota, hoje abastece 30%, impactando diretamente no meio ambiente. É importante ver a capacidade de geração de postos de trabalho do setor, pois 40% dos empregos no Brasil estão relacionados ao agronegócio. Sem falar na falta de estímulo para a geração de energia limpa, como biomassa de cana, por exemplo. Enquanto isso, em plena crise energética e apagões em várias regiões, o governo liga as termelétricas poluentes, mas pode levar um susto grande, pela falta de chuvas, agravando o problema. Assim, a presidente não vai nem para o segundo turno.

RESPEITO MUNDIAL

“Definitivamente, a produção de biocombustíveis nunca esteve tão em pauta como agora. Marcos Fava Neves conhece como ninguém a batalha mundial travada entre o uso do petróleo e o aproveitamento da produção agrícola brasileira no desenvolvimento de fontes renováveis de combustível. Este assunto de grande interesse precisa ser mais discutido e colocado em evidência. Marcos vem realizando um trabalho admirável dentro e fora do Brasil, divulgando nossas riquezas, propondo discussões sadias sobre temas que podem contribuir para a criação de uma sociedade mais justa, igualitária e desenvolvida.”
Jardel Massari é formado em Direito, é técnico agrícola e sócio-fundador da Ourofino Agronegócio

Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves

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