A visão da dor do câncer pelos pequenos
Crianças e adolescentes fazem desenhos de como eles sentem a dor do câncer
Monstros, bruxas, fantasmas, bichos feios... Fogo, guerra, canhões, casas desmoronando.
As primeiras palavras, que remetem ao lado negativo de um conto de fadas, são expressões de crianças quando questionadas sobre a dor. As outras palavras, com denotação de luta e tristeza, são características dos adolescentes também em relação à dor.
Foi desta forma que crianças e jovens que lutam contra o câncer descreveram a dor da doença. Uma pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, pela psicóloga Hilze Benigno de Oliveira Moura Siqueira, sob orientação da Dra. Fátima Aparecida Emm Faleiros Sousa, apontou como a dor causada pelo câncer é descrita por crianças e adolescentes.
A pesquisa foi uma tese defendida por Hilze em julho deste ano, com o título “A percepção da dor na experiência de câncer infanto-juvenil”, que compreendia dois focos: como a criança pensa e percebe a experiência de câncer e que tipo de dor expressa e como compreende essa dor.
Para isso, o cenário escolhido foi o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP) da USP. No total, 100 entrevistas foram feitas com crianças e adolescentes entre cinco e 18 anos e que estavam em tratamento quimioterápico devido à leucemia. O trabalho de coleta de desenhos ocorreu de 2010 a 2012. Neste período de desenvolvimento, todos expressaram a dor do câncer em papel sulfite, da forma como bem entendiam.
“Ao ler a literatura científica sobre dor oncopediátrica, nós percebemos que a dor na criança com câncer, muitas vezes, é subestimada, incompreendida e não avaliada adequadamente”, comentou Hilze. Por conta disso, a intenção da pesquisa foi compreender melhor a dor de crianças/adolescentes, não apenas por intermédio de profissionais ou de escalas unidimensionais (que indica apenas a dimensão da intensidade da dor), mas pela soma de dados qualitativos e quantitativos atribuídos por quem sente a dor.
“Para isso, fizemos uso de diversos instrumentos como relatos, desenhos e escalas de avaliação de dor, sob o fundamento da teoria do desenvolvimento de Piaget e da psicofísica”, acrescentou a psicóloga.
Em dois anos de trabalho, Hilze afirma que o que mais chamou a atenção foi que crianças e adolescentes compreendem a dor conforme o seu estágio de desenvolvimento. Isso implica no surgimento de monstros e bruxas, além de algumas figuras físicas (braços, pernas, ossos, barriga), no desenho das crianças. Já os adolescentes desenharam a dor relacionada ao tratamento (casa, hospital, remédios) a uma guerra cotidiana, como descrita no início da reportagem.
O desenho de crianças e jovens revela, segundo com cada faixa etária, como o câncer representa o inimigo, e a dor indicando uma percepção negativa frente à batalha contra a doença.
Rabisco positivo
Diferentemente do que a pesquisa de Hilze Siqueira e da Dra. Fátima Sousa apresentou em relação ao desenho negativo das crianças, o desenho dos adolescentes evidenciaram esperança – embora também houvesse negatividade nos rabiscos.
“Isso foi bem ilustrado no desenho de um adolescente de 15 anos, com representação de uma árvore seca, mas com um broto de flor e uma mão grande vinda do céu”. A psicóloga explica que, ao analisar o desenho, ela pôde sinalizar dois fenômenos: a morte e o indício da vida. Para Hilze, trata-se de um símbolo de que o jovem estava apegado à sua fé divina.
A pesquisa também demonstrou que tanto as crianças quanto os adolescentes tiveram facilidade em expressar as ideias de dor, além da importância do apoio familiar e social diante do medo e insegurança no tratamento do câncer.
“Esperamos que estes resultados possam trazer luz sobre a expressão e experiência de dor oncopediátrica, ampliando o conhecimento de familiares, profissionais de saúde, comunidade científica e instituições de saúde”, afirmou Hilze.
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Texto: Fernando Belezine (Colaborador)
Imagens: Divulgação