A volta dos vinis
Itens de colecionadores, os vinis voltaram a ser produzidos no Brasil e busca, mais uma vez, um lugar nas prateleiras do país
Os audiófilos que viveram nas décadas de 50, 60, 70 e 80 sabem que esses foram os anos de glória do disco de vinil. Para muitos, naquela época, os vinis eram de difícil manuseio, eram grandes demais para serem guardados em segurança, sensíveis à poeira e isso acabou resultando no seu declínio. A chegada do CD (Compact Disc) - que prometia maior capacidade de armazenamento das músicas, maior durabilidade e clareza sonora - tornou o disco de vinil obsoleto.
O Long Play, ou simplesmente LP, continuou sendo lançado até meados de 1997, quando sumiu das prateleiras do varejo fonográfico para se tornar um item raro de colecionador. Alex Vissoto, produtor da Novação Filmes, tem 22 anos e, mesmo tendo nascido em 1989, ano em que a indústria de vinil já estava por minguar, ele herdou o gosto pelos discos. O produtor atribui o amor pelos LPs a influência de seus pais. “Em casa nunca tivemos aqueles ‘mega sons’, me lembro desde criança da vitrola gradiente em cima da estante e muitos discos de MPB dos meus pais. Fui tomando gosto e após frequentar alguns sebos fui comprando meus próprios LPs” conta.
Para o produtor, que também é baixista, o que o atrai no disco de vinil é o aspecto de que o som foi registrado de acordo com o que a banda pensava na época da gravação. “Gosto bastante também das capas, é bem diferente você pegar um encarte de cd (que não dá pra ver quase nenhum detalhe) e uma capa de vinil. São verdadeiras obras de arte”.
Na loja "Sebo do Brechó" - lugar onde vendem discos antigos desde o ano 2000 - há um acervo de aproximadamente 40 mil discos de vinil e, segundo a funcionária da loja Juliana Carla de Lima, a maior dificuldade em ser um colecionador não é adquirir os vinis, mas sim os tocadores. “Os preços costumam ser muito altos e fora do orçamento de muitos dos nossos clientes. Tanto para adquirir, quanto para manter o aparelho funcionando”.
Juliana diz achar curioso a idade das pessoas que procuram por vinis na loja. “São pessoas muito jovens que vem atrás de vinis aqui na loja”, conta. E para ela, os motivos são variados. “Alguns herdam o gosto dos pais, outros compram o vinil para ter um trabalho que não foi lançado em CD ou mesmo para ter como item raro, um som menos digitalizado”, explica.
No Sebo do Brechó os preços de vinis custam a partir de um real e podem chegar a um valor de 60 reais. “Mas nunca chega a atingir 100 reais”, afirma Juliana. Alex Vissoto não vê dificuldade alguma em adquirir um vinil, no entanto algumas raridades costumam ser mais caras e, como ele mesmo diz, “muitos títulos considerados raridades têm valores muitas vezes inacessíveis a qualquer um”. Sobre o preço dos tocadores de vinis, Alex Vissoto afirma que “um aparelho das antigas que seja bom é realmente caro e dificil de achar, mas eu mesmo reformei o meu gradiente. Essa seria outra opção”, garante.
Fã incondicional do Led Zeppelin, entre as suas últimas duas aquisiões, Alex comprou um LP do ‘Kiss – best of solos’ e um de sua banda favorita, ‘Led Zeppelin – The song remains the same’. “O engraçado é que não dá pra saber qual será o próximo vinil a ser comprado, pois a qualquer momento você pode estar caminhando na rua ou mexendo na internet e se deparar com uma boa ocasião de custo e benefício para comprar um disco. Mas ando à procura do CODA do Led Zepelin”, finaliza.
A fantástica fábrica de vinil
Em 2008, os proprietários da gravadora independente Deckdisc compraram a única fábrica de vinil da américa latina. Fechada em novembro de 2007 a polysom - localizada em Areia Branca, na cidade de Belford Roxo no Rio de Janeiro - voltou a produzir os primeiros LPs em novembro de 2009, quando os testes realizados na fábrica foram extremamente satisfatórios.
João Augusto, um dos proprietários da Deckdisc lembra que foram sete meses de trabalho duro. Todo o maquinário como prensas, compressores, motores foram zerados e completamente remontados. “A princípio, parecia ser um processo fácil e rápido. Quando vimos como eram vastos os requisitos para se fabricar discos de qualidade vimos que precisaríamos fazer muita coisa para brigar de igual para igual com os gringos. Teríamos que fazer melhorias em todos os setores”, lembra João Augusto.
Mas, no final do mês de novembro daquele ano, quando os primeiros testes foram realizados e os resultados de um disco fabricado na Polysom foram comparados a um produto prensado na fábrica norte-americana Bill Smith Inc. - considerada uma das melhores de toda a América do Norte - todas as dúvidas se dissiparam. “Depois daqueles testes - disse João Augusto - a Polysom estava preparada para concorrer em qualidade com qualquer fábrica do mundo e retomar a produção em série do vinil”.
Alguns entusiastas, como é o caso de João Augusto, defendem a superioridade do vinil em relação às mídias digitais em geral. Eles utilizam o argumento de que as gravações em meio digital cortam as frequências sonoras mais altas e baixas, eliminando harmônicos, ecos, batidas graves, a naturalidade e a espacialidade do som. Estas justificativas não são tecnicamente infundadas, visto que a faixa dinâmica e resposta do CD não supera em todos os quesitos as do vinil. Especialmente quanto se trata de nuances que nos sistemas digitais são simulados através de técnicas de "dithering". (Em uma mídia digital, o dithering cria um ruído de fundo no menor nível que pode ser gravado pelo sistema. Pelo fato de o dither ser um tipo de barulho, ele essencialmente adiciona alguma aleatoriedade em sinais de áudio digital baixos que, por sua sua vez, ajuda a mascarar os erros de quantização digital do sinal de áudio. O resultado é que o sinal baixo é percebido como um ruído de fundo que é bem mais agradável ao ouvido humano do que as distorções da quantização digital do sinal de áudio sem o dither).
“Um LP que teve o acetato bem cortado, as partes metálicas bem produzidas e a prensagem feita dentro dos padrões básicos tem o som infinitamente melhor do que qualquer MP3 ou coisa que o valha, porque não há compressão do som por processos digitais binários. O vinil conserva uma profundidade do som que se perde claramente nos formatos digitais”, explica João Augusto.
O proprietário da Deckdisc acredita numa “batalha” justa para colocar o vinil de volta as prateleiras dos brasileiros mas, como ele afirma, os custos de produção são muito altos e os impostos altíssimos do Brasil oneram muito o produto. “Fora isso, só há coisas positivas. Temos uma batalha grande pela frente para fazer o vinil ‘virar’ por aqui. Temos que lutar contra o alto custo dos impostos e os custos extraordinários. Nosso plano é popularizar o produto, mas o governo, com sua voracidade, não deixa. É uma pena, mas temos a nosso favor uma grande massa de apoiadores em todas as áreas. Nossas outras apostas são as de sempre: boa música, bons artistas, e bons produtos”, conclui.
Imagem ilustrativa do vinil
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Texto: Bruno Silva (colaborador)
Fotos: Pricila Borgo e Daryan Dornelles