A volta por cima
Artista plástica vence câncer de mama e retoma produção
Quando se fala no nome Rita Biagi, logo ele é associado à imagem de borboletas retratadas com exatidão pela artista plástica. Os insetos marcaram uma fase próspera de Rita, sendo protagonistas de um quadro que a levou para uma exposição no Museu do Louvre, em Paris, da estampa de uma vaca da Cow Parade, em São Paulo, o maior evento de arte pública no mundo, e diversas outras obras que recebem a sua assinatura.
Porém, as borboletas perderam a cor quando Rita passou por um momento pessoal muito delicado, tendo que lidar com o câncer de mama e o desconhecido. A fase longe dos pincéis durou três anos, período em que ela sequer pensava nas tintas. Todos os seus esforços foram direcionados para a recuperação, conquistada com louvor. Superada a doença, Rita voltou com força absoluta para encarar a vida e colocar cor nas suas telas. Agora, são os olhos que concentram toda sua atenção e levam realismo para suas obras.
A conversa a seguir, guiada pela empresária Carla Ristum, revela a trajetória da artista, pontuada com as inspirações que movem o seu trabalho e a sua vida.
Carla: Como você começou a se envolver com a arte?
Rita: Foi através da minha mãe. Ela trabalhou muito com arte, esculpindo e pintando. Então, acho que estava no sangue. A arte, para mim, é uma referência materna.
Carla: O que você levou para primeira pincelada?
Rita: Meu primeiro quadro tem muita cor, com o vermelho predominando.
Carla: Que momento esse quadro representa?
Rita: Ele é composto de pinceladas. Representa o conhecimento, o primeiro contato, o ato de aprender a usar o pincel. Nunca fiz cursos e sempre usei muita cor. É muito engraçado isso: a época em que estive mais triste foi quando mais usei cor. Tanto é que o primeiro quadro que pintei depois que fiquei doente foi um vaso de flores, bem colorido. O meu analista disse que poderia esperar qualquer coisa de mim, menos um vaso de flores. Isso é, no mínimo, curioso.
Carla: Que qualidade de sentimento move você para a arte? A sua produção artística está mais ligada à euforia ou à tristeza?
Rita: A arte é sempre uma busca. Quando você está alegre, busca uma coisa. Quando está triste, busca outra. O que eu acho interessante nisso que faço é que sempre coloco cor. Mesmo estando triste, a cor vem.
Carla: Você consegue medir se quando está triste se locomove mais em direção à pintura ou se acaba se recolhendo?
Rita: Eu não consigo determinar isso. São momentos em que vou buscar criar alguma coisa, independente do que esteja sentindo.
Carla: A sua inspiração vem da própria arte estética ou você tem outras portas de alimentação?
Rita: É o cotidiano que me inspira. Agora, por exemplo, estou na fase dos olhos. Eu quero me especializar em olhos, investigar, procurar expressões do olhar. Devo ter visto isso em algum lugar ou olhei para uma pessoa e me encantei com o olhar. Com certeza, foi isso. Agora, estou colocando no papel.
Carla: Foi isso que aconteceu com as borboletas também?
Rita: Uma pessoa próxima de mim, que considerava a irmã uma borboleta, pediu que eu fizesse um quadro com a imagem. Isso foi na época que minha mãe morreu. Eu peguei as tintas dela e as borboletas foram saltando.
Carla: Você fez muitas borboletas. Agora elas não aparecem mais?
Rita: Realmente, foram muitas borboletas. As pessoas me perguntam bastante sobre elas, mas elas não apareceram mais. Agora estou pintando olhos, nas mais diversas expressões. Estou amando pintá-los. Dizem que o olho é o espelho da alma e eu acredito muito nisso. Pelo olhar, você conhece a pessoa, sabe o que ela está sentindo, até se está escondendo algo. Tudo acontece pelo olhar e é isso que eu estou buscando.
Carla: Como ocorre esse processo criativo?
Rita: No caso dos olhos, eu me encantei com um olhar e quis começar a pintar. Como fazia muito tempo que não pintava, quis retomar com o lápis para exercitar, soltar a mão. Um dia eu pensei: ‘preciso fazer um olho’. Aí, peguei um papel, sentei e fui desenhar.
Carla: Então não há um “expediente”?
Rita: Não, não tem. Às terças-feiras, algumas amigas vêm aqui na minha casa. Nós conversamos, rimos, comemos, pintamos, choramos. Isso é muito gostoso. De repente, sai um trabalho legal. Não só meu, mas das amigas que estão aqui também.
Carla: Há algum horário ou lugar que a produção se torna mais ativa?
Rita: Quando eu viajo, levo um caderninho. Se vejo algo que me encanta, passo para o papel. Se me vem alguma ideia nova, escrevo no telefone. Deixo tudo bem explicado. Às vezes, encanto-me com alguma coisa e quero passar para o papel, mas não consigo. Não tem hora nem lugar. É algo do momento.
Carla: Se você quiser pintar agora, vai para o ateliê e pinta ou tem uma preparação para isso?
Rita: Eu vou pintar do jeito que estou. Adoro manchar a roupa de tinta.
Carla: Como a Rita chegou ao Louvre?
Rita: Tem uma pessoa, de São Paulo, que trabalha com alguns artistas e os leva para vários lugares. Naquele momento, haveria uma exposição no Louvre para a qual o expositor tinha que ser selecionado. Eu enviei fotos das obras, através dessa pessoa, e fui selecionada para a exposição com outros artistas brasileiros. Foi muito legal.
Carla: Teve alguma obra que encantou esse curador?
Rita: Não, especificamente, mas teve outra curadora, em Nova Iorque, que foi abordada por uma pessoa que quis comprar de qualquer maneira uma obra minha, que estava em exposição. Era um quadro que eu não amava de jeito nenhum, que não tinha nada a ver com o meu estilo. Acabei vendendo e me achei o máximo, mas era um quadro que eu não mostraria, não ofereceria para ninguém.
Carla: Você citou a palavra estilo. Você tem um?
Rita: Não tenho estilo, não tenho nada. Eu quero pintar o que quiser, na hora que quiser, da forma como quiser. Gosto dessa liberdade.
Carla: Voltando ao assunto do Louvre, que obra você levou para lá?
Rita: Levei um quadro de borboleta.
Carla: Quando você apresentou o seu trabalho foi com as borboletas ou sua iniciação foi anterior a isso?
Rita: Foi exatamente a partir daí. Até então, minha mãe que era a artista. Ela que desenhava, que esculpia, que pintava. Um dia, já depois de casada, pensei em procurar tintas, alguma forma de colocar para fora o que eu sentia. Depois disso, nunca mais larguei. Isso faz 17 anos.
Carla: Por que viver continua sendo uma arte?
Rita: Viver é uma arte porque nos mostramos a todo momento e buscamos sempre alguma coisa. Como na pintura nos expomos, buscamos, assim também é na vida. Vamos nos construindo. Quando eu fiquei doente, o médico me proibiu de pintar porque a tinta poderia me prejudicar. Eu achei tão bom! Aquela não era hora de pintar, era hora de estar voltada para dentro de mim. Era de dentro de mim que eu ressurgiria.
Carla: Depois dessa passagem, na retomada, você sentiu mais força de expressão?
Rita: Sim, senti que fiquei muito mais fortalecida. As pessoas me perguntam se eu chorei quando recebi a notícia da doença. Em nenhum momento. Sempre me lembrava de uma amiga que dizia que não devemos nos perguntar "por que comigo?", mas sim "por que não comigo?". E foi isso que eu fiz. Encarei de frente e disse: ‘ninguém me segura’. Quando acontece algo assim, o único rumo é ir para frente. Não tem volta. E você sai lá na frente melhor, muito melhor.
Carla: Quanto tempo você ficou sem pintar?
Rita: Fiquei três anos. Eu não tinha a mínima condição de pintar. Foi uma série de acontecimentos, mas em nenhum momento senti falta da pintura. Eu nem lembrava que pintava. Quando voltei, pintei o vaso de flores. Das flores, vieram os olhos.
Carla: A arte é um lugar de expressão. Para mim, uma pessoa sensível se utiliza desse meio para se manifestar. O que, no dia a dia, dá eco para sua expressão?
Rita: Para responder, vou contar algo que vem me encantando muito. Depois de 17 anos, estou voltando a jogar tênis. Ver o encontro das árvores com o céu, a união do verde com o azul, encanta. Às vezes, eu me perco no jogo olhando para essa cena. Isso me move: as cores.
Carla: Então, hoje, o céu e as árvores são grandes inspirações para você?
Rita: Sem dúvida, mas isso significa que são as cores que me inspiram.
Carla: Quais são as suas principais referências artísticas ou não-artísticas, atualmente? Tem algum artista que você admira?
Rita: Tem um artista em quem eu penso muito: Javier Marín. A arte dele é muito forte. Vi uma exposição dele em Pietrasanta, na Itália, dentro de uma igreja. As instalações são imensas, admiráveis. Eu olhava e pensava que gostaria de ter feito aquilo. Tem tudo a ver comigo. Nunca tinha tido uma informação do Javier Marín e agora penso muito no que ele produz.
Carla: Quanto tempo você permanece em uma tela?
Rita: Não tenho tempo. Às vezes, termino num dia. Outras vezes, preciso de um mês. Às vezes, nunca termino. Eu já expus uma tela que não consegui terminar. Chega um ponto que não vai mais ou então a tela está pronta daquele jeito e a gente acha que não está. Para estar pronta, não precisa estar terminada.
Carla: Tem diferença entre pintar para você e pintar para uma exposição?
Rita: Eu nunca pinto para uma exposição. Todas as vezes que expus foram quadros que eu já tinha. Acho que eu não daria conta disso.
Carla: Você se admira por ser uma artista? Gosta disso em você?
Rita: Eu gosto. Quando termino um quadro, não penso que está bom; penso que está o máximo. Meu marido fica admirado com a minha reação.
Carla: Você tem apego com suas criações?
Rita: Demais. Por isso, não gosto de vender minhas obras. Eu gosto de presentear, mas não vender. Não deixa de ser bom uma pessoa querer comprar minha obra. Já vendi bastante, mas agora não quero mais. De jeito nenhum.
Carla: Para além da pintura, há algum lugar secreto de produção artística?
Rita: Não. Eu gosto de sair para caminhar com os fones no ouvido e chegar num lugar onde eu possa cantar muito alto. Isso é muito bom, mas é uma forma de extravasar e não de me expressar.
Carla: Há quanto tempo você retomou sua relação com a pintura?
Rita: Há uns seis meses, mas agora, egoisticamente, é tudo meu. Não vou expor nem vender. Não quero pressão.
Carla: Depois desse período de afastamento, o que mudou para você?
Rita: Agora é tudo meu. Ninguém me segura. Agora, eu posso tudo.
PAUSA PARA A ARTE
“Eu me interesso muito pelo universo das artes. Também sou uma alma sensível, mas bem perdida com relação à expressão. A minha loja me trouxe essa possibilidade de expansão, de ir além de um lugar de roupas, cabides, entrada e saída de gente, mas sim de composição, de ser um espaço para as pessoas agregarem e serem agregadas em um sentido estético. Não é só um espaço comercial, mas de circulação desse tipo de informação, de troca. A tia Rita é uma proximidade desse universo para mim. Ela é mãe de uma grande amiga. É alguém que eu conheço um pouco pessoalmente, mas que nessa minha busca por arte também faz a diferença. Eu a admiro pelo seu trabalho, pela forma que produz. Ela tem uma mansidão, uma coisa natural, pouco afoita, que me faz perceber essa expressão como um lugarzinho dela e que é compartilhado com a gente. Sentia vontade de saber mais sobre essa artista, de fazer várias perguntas. É interessante levar para as pessoas um pouco do que conversamos hoje. Na minha percepção, a vida está muito dura. De maneira geral, está tudo passando muito rápido, estamos de passagem pelas coisas. Então, quando pensei nessa conversa, imaginei um momento da vida parar. Eu queria isso mesmo: estar aqui, olhar para ela, sentí-la, recolher algumas informações e apresentar isso para as pessoas também. Enfim, a Rita é uma mulher que encara a arte e isso a deixa em paz consigo mesma. Ela acabou fazendo da arte um espaço dela, compartilhado com as pessoas dela. Entramos aqui na sua casa e levamos para o público um pouco disso. O que me deixa feliz é provocar um pouco de arte na vida das pessoas.”
Carla Ristum, empresária
Texto: Máisa Valochi
Fotos: Júlio Sian