A voz da oposição
Silvana Resende marcou os últimos quatro anos do mandato por críticas veementes ao governo municipal
Depois de quatro mandatos, eleita com números expressivos nas urnas, a vereadora do PSDB Silvana Resende decidiu deixar a Câmara. Na primeira disputa, em 1996, foi eleita com 4.699 votos. Em 2000, reelegeu-se vereadora com 3.950 votos. Nas eleições para a Câmara, em 2004 foi eleita com 10.252 votos e, em 2008, foi a vereadora mais votada, com 6.927 votos. Por duas vezes, em 1998 e 2006, não conseguiu uma vaga na Assembleia Legislativa Na última eleição, não concorreu a um cargo, mas esteve nos bastidores em busca de votos para o candidato a prefeito de seu partido (PSDB), Duarte Nogueira, que chegou ao segundo turno, mas foi vencido por Dárcy Vera (PSD). Silvana afirma que tomou a decisão de se afastar da Câmara por decepção e acredita que este é o sentimento de milhares de pessoas com a situação local.
“Não vejo política partidária, não vejo coerência entre o discurso e a prática. A atual prefeita conseguiu aprovar aberrações jurídicas com o aval da base governista. O resultado é uma Prefeitura de Ribeirão Preto quebrada. Lutar contra tudo isso, muitas vezes sozinha, é uma luta desigual, que tem me consumido. Não ganhamos por insalubridade. Além disso, entendo que não se pode confundir vereança com profissão. Sou jornalista e estive vereadora por quatro mandatos. Temos que abrir espaço para novas lideranças”, afirma Silvana.
Na entrevista a seguir, a tucana faz uma avaliação sobre a sua atuação na Câmara dos Vereadores, destaca os projetos mais importantes da sua carreira, analisa o governo de Dárcy Vera e revela quais são seus projetos futuros.
A sua atuação na Câmara dos Vereadores foi marcada pela combatividade. Por que foi necessário adotar essa postura?
Não fui exercer o cargo de vereadora por dinheiro. Se o fosse, já teria saído da Câmara há muito tempo. Fui para ajudar a cuidar da cidade que tão bem me acolheu, sem compromissos nefastos. Isso me colocou na rota de colisão com gente que quer apenas se beneficiar, pessoas sem espírito público, que pensam apenas em se perpetuar no poder. Não comungo desta prática e me manifestei quando a maioria da população era passada para trás. Parafraseando Chico Buarque, tentei acordar “nossa cidade mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. Algumas vezes consegui, outras não. A função do vereador é fiscalizar e eu fiscalizei o que pude. Se chamam isso de combatividade, então saio com a sensação do dever cumprido.
Quais os principais problemas da Câmara de Vereadores?
Subserviência e inoperância. Quando se aceita projetos complexos do Executivo sem analisar, seja por desinteresse, por falta de tempo ou por submissão; quando se aceita projetos nefastos à grande maioria para beneficiar meia dúzia de financiadores de campanha; quando se perpetua erros históricos para manter tudo como está; quando tudo isso ocorre, é sinal que este poder está perdendo a razão de existir. O parlamento perde sua personalidade, sua independência e passa a ser apenas um passivo, um custo alto a mais para a sociedade, quando na verdade deveria ser a caixa de ressonância dos anseios da população. Precisamos lutar constantemente contra isso. As pessoas devem participar mais, acompanhar como os projetos são votados e cobrar mudanças.
Por que aconteceram tantos desgastes nesta gestão, com a cassação de um vereador e os movimentos de protesto como o “Panelaço”?
Creio que o chamado panelaço, os movimentos nas redes sociais e a mobilização da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Associação Comercial (ACIRP) e Centro das Indústrias (CIESP) contra o absurdo aumento do número de vereadores tenham sido as melhores notícias políticas dos últimos anos. Discordo quando parte dos integrantes do panelaço generaliza os vereadores ou parte para xingamentos. Assistir às manifestações sem ligações partidárias, e, aparentemente, sem interesses pessoais, criticando o aumento de salários e pedindo mudanças, creio ser muito saudável para todos. É um sinal de vida e indignação no tecido social. Só a pressão popular pode melhorar o que está aí.
Que projetos de sua autoria merecem ser destacados?
Felizmente são muitos. Destaco a Lei do Pregão Eletrônico, que o ex-prefeito Antonio Palocci vetou, mas que consegui aprovar no governo seguinte. A proposta possibilita uma economia de mais de R$ 30 milhões por ano nas compras da prefeitura. Dinheiro que não vai para as mãos das quadrilhas. O Pregão também foi implantado no Poder Legislativo e é o maior responsável pela economia. Possibilitou que a Câmara de Vereadores repassasse cerca de 22 milhões para a prefeitura nos últimos quatro anos. A Justiça Itinerante, que funciona num ônibus e possibilita atendimento judicial mais próximo da população nas pequenas causas. A campanha Uma Dose de Vida, que arrecada remédios para a Farmácia da Gente distribuir gratuitamente. O teste do olhinho em recém-nascidos, que se tornou obrigatório na rede pública e hospitais conveniados ao SUS. A lei que permite conceder habite-se somente para imóveis com, no mínimo, uma árvore plantada e com reserva de área permeável como forma de prevenir as enchentes. Para incentivar a população a proteger o meio ambiente defendo a implantação do IPTU Ecológico, que prevê descontos no imposto. Também foi importante a luta, junto com ex-vereador José Carlos Porto, logo no meu primeiro ano de Câmara, em 1997, contra a aposentadoria especial dos vereadores. As denúncias que fiz e que impediram compras superfaturadas pela atual administração.
Há outros projetos em andamento?
Agora, luto pela implantação de ciclovias e da internet gratuita em toda a cidade. Precisamos também derrubar o veto da prefeita ao meu projeto que prevê a publicação dos cargos indicados para a Coderp, Daerp, Cohab e Transerp. Verdadeiros cabides de empregos. Por que ela vetou? Por que não podemos saber os nomes das pessoas indicadas que são pagas com dinheiro dos nossos impostos? O que estão escondendo?
Qual a sua avaliação sobre o governo da prefeita Dárcy Vera?
Sofrível. Do ponto de vista administrativo, temos uma máquina emperrada, burocrática, cujo funcionalismo é julgado pela indicação política e não pelo mérito. Passam-se os anos e os problemas crônicos da saúde, do trânsito e da educação se perpetuam. Em sua gestão, Ribeirão Preto ficou conhecida pela maior epidemia de dengue de nossa história. A prefeita tem um orçamento de R$ 1,7 bilhão e ainda temos que sofrer com buracos nas ruas, filas em postos de saúde, crianças sem creche, falta de água, enquanto ela fica por meses sem pagar a conta e ainda não tem a água da sua casa cortada. O Daerp se transformou em um antro de desmandos, com coronéis e bonifrates da prefeita, onde o que menos importa é a população. A Coderp é uma caixa preta, um núcleo de corrupção. Desculpe a franqueza e o desabafo, é uma péssima administradora.
Como está o cenário político atual?
Do ponto de vista político, temos um caos. Foram 16 partidos que apoiaram a atual administração. Será que a prefeita consegue se lembrar das 16 siglas sem ler num papel? É o vale tudo pelo poder. A última eleição foi um triste espetáculo de falta de ética e da propaganda enganosa. A prefeita não fez um quinto das obras que anunciou ter feito. Esse governo nasceu para dar bom dia com o chapéu alheio.Por que você é adversária da prefeita? Existem razões particulares ou são diferenças políticas?Porque não fiz os acordos que ela fez para alcançar o poder. Apoiadores da prefeita gostam de levar a questão para o lado pessoal, criando versões falsas. É uma forma de dissimular a opinião pública. Não tenho nada contra a pessoa Dárcy Vera. Nossas divergências são no campo das ideias, da conduta e do trato com a coisa pública. Isso sim nos diferencia, graças a Deus.
Em sua opinião, por que Duarte Nogueira perdeu a eleição?
Nogueira optou por fazer uma aliança com apenas quatro partidos, enquanto a prefeita se sustentou em um verdadeiro balaio de gatos. E os gatos cobrarão sua fatia no bolo e quem pagará a conta será a população. A campanha do Nogueira poderia ter mostrado de forma mais clara os escândalos e a incompetência da atual gestão. Não meramente para atacar, mas para esclarecer e relembrar o eleitor. A pesquisa Ibope, como de costume, também fica sob suspeita. Na véspera, eles davam uma diferença de 18% entre Dárcy e Nogueira. A diferença nas urnas ficou em cerca de 3%. O resultado revela que mais da metade da população não aprova o governo atual.
Apesar de ser uma vereadora no quarto mandato e do mesmo partido, você não apareceu na propaganda no rádio e na TV do candidato Duarte Nogueira. Por que você não foi apresentada publicamente como apoiadora da candidatura?
Posso não ter aparecido na propaganda, mas estava nas ruas conversando com os eleitores e na tribuna denunciando. Não respondo pelo marketing da campanha, mas me coloquei à disposição.
Você acha que não recebeu a devida valorização dentro do PSDB na cidade?
Ao contrário de muitos políticos, só tive um único partido em 16 anos como vereadora. Foi o PSDB quem me deu a chance de representar a população. Tenho identidade com sua história nacional e com nomes como Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Franco Montoro, José Serra e Geraldo Alckmin. O PSDB local foi levado ao segundo turno e por pouco não chegou lá. Devemos, portanto, pensar no que acertamos e erramos.
Você tem novas pretensões políticas?
O ser humano é essencialmente político, mesmo aqueles que dizem não gostar do assunto, até porque isso é uma postura política — lamentável, diga-se de passagem. Quanto ao processo eleitoral, prefiro deixar a resposta ao tempo, senhor da razão.
Depois da eleição, você recebeu convites para mudar de partido?Sim. Quando você anuncia que não irá participar de uma eleição é natural que surjam convites, mesmo porque, graças à confiança da população, sempre tive a honra de ser bem votada.
Quais são os seus projetos futuros?
Pretendo me dedicar mais ao meu programa de TV, Profissão Sucesso, no SBT, e também às palestras e consultorias na área de gestão de pessoas. Estudei muito para isso. Faço palestras sobre empreendedorismo, liderança, orientação vocacional, geração Y, entre outros assuntos, e estou muito feliz com os resultados. Adoro lidar com gente. Com a teoria e a prática nos setores público e privado, quero trabalhar, cada vez mais, na área de recursos humanos. A falta de qualificação da mão de obra é um dos grandes entraves no crescimento do país.
O Programa Profissão Sucesso inspirou a revista e o guia de escolas de mesmo nome. Qual é o seu envolvimento nesses trabalhos?
Uma característica minha é gostar de acompanhar tudo muito de perto. O trabalho nunca ficará bom se não houver dedicação, disciplina e foco. E é sempre possível melhorar. Também procuro me atualizar constantemente e tentar levar o melhor a quem acompanha o meu trabalho. Os jovens nunca estiveram tão perdidos quanto à escolha da profissão. É maravilhoso poder auxiliar pais e filhos nesse momento difícil. Quem faz a escolha certa e se dedica tem mais chances de ter sucesso e ser feliz.