Abdômen em evidência
A gordura em excesso não é bem-vinda em parte alguma do corpo, mas, quando se acumula ao redor da cintura, aumenta os riscos de doenças do fígado, do coração e diabetes
Manter-se saudável e, de preferência magro — situação que tantas pessoas acalentam —, não é fácil. Os ponteiros da balança que o digam. Porém, talvez mais do que a preocupação com a estética, o direcionamento deve ser a qualidade de vida. Um estudo divulgado pelo Ministério da Saúde revela que o índice de brasileiros acima do peso segue em crescimento no país. Mais da metade da população, 52,5%, está nesta categoria. Desses, 17,9% são obesos, fatia que se manteve estável nos últimos anos. Os números são da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel 2014) e apontam, ainda, que o excesso de peso é maior entre homens, atingindo 56,5% da população, contra 49,1% das mulheres. Quando se fala em saúde, uma das questões que tem despertado a atenção de especialistas em diversas áreas é a gordura abdominal, um dos causadores de risco para diversas morbidades.
A médica endocrinologista Camila Mele de Carvalho Barbosa (CRM 84634) explica que vários fatores levam ao aumento da gordura abdominal, porém é importante destacar dois deles. “O primeiro é o consumo de carboidratos de alto índice glicêmico, ou seja, carboidratos que levam a um pico de liberação de insulina e essa, por sua vez, facilita a formação de gordura abdominal. O segundo é a queda hormonal que ocorre ao longo dos anos, tanto no homem quanto na mulher, que leva a uma diminuição da massa muscular e ao aumento da gordura visceral, a que fica interna na região abdominal”, ensina. A gordura visceral se acumula entre as alças intestinais e os órgãos internos, como fígado, por exemplo. Já a gordura subcutânea se localiza à frente dos músculos abdominais.
Camila comenta que os especialistas classificam a distribuição da gordura em andróide, a distribuição em formato de maçã, mais perigosa para a saúde e com grande síndrome metabólica, e a ginóide, conhecida por se distribuir em formato de pera, mais comum nas mulheres e com menos comprometimento metabólico, porém, ainda assim, o excesso pode levar a problemas ortopédicos e circulatórios. “A gordura ginóide — mais comum nas mulheres, nos glúteos e culotes — é uma gordura mais estática, que gera menos distúrbios metabólicos, enquanto a gordura abdominal tem um ‘turnover’ intenso, acumulando no fígado e gerando todo transtorno metabólico. Por isso, a mulher, enquanto produz estrogênio, que facilita o depósito da gordura em culote e glúteos e diminui o acúmulo abdominal, está bem mais protegida do que o homem em relação a doenças cardiovasculares”, revela Camila.
Todavia, vale frisar que a gordura acarreta diversos malefícios para o ser humano, independente do sexo e da idade. “A gordura acumulada no abdômen, ou gordura visceral, acarreta um distúrbio metabólico acentuado, levando a predisposição ao diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral”, acrescenta. Já a flacidez abdominal, temida por muitas pessoas, é apenas uma alteração estética, não comprometendo a saúde quando essa flacidez tem origem na pele. Entretanto, a flacidez da musculatura pode causar problemas ortopédicos, principalmente na coluna.
Independente se for gordura ou flacidez, a especialista orienta que o importante é estar atento à medida ideal para a circunferência abdominal. Segundo as diretrizes da Associação dos Estudos Sobre a Obesidade (ABESO), é considerado aumentado a circunferência abdominal maior do que 94 cm para o homem e maior do que 80 cm para a mulher. Quando a circunferência abdominal for maior do que 102 cm no homem e maior que 88 cm na mulher esses índices são considerados aumentados substancialmente. “Hoje, existem aparelhos como a bioimpedância e a tomografia computadorizada que diferenciam a gordura subcutânea da gordura visceral, essa última a grande vilã para a saúde”, pontua a endocrinologista. Porém, um parâmetro mais simples como a medida da circunferência abdominal já serve como avaliador.
O acompanhamento médico é imprescindível para uma silhueta bonita e também para uma avaliação completa para excluir patologias como a síndrome de resistência à insulina, o hipotireoidismo, o hipercortisolismo e até mesmo quedas hormonais como andropausa e menopausa, uma vez que quando se equilibra os hormônios é possível evitar um acúmulo maior de gordura abdominal. “Por último, é preciso salientar a importância do controle do estresse, equilibrando as tarefas do dia a dia com atividades prazerosas”, sinaliza Camila.
De olho no cardápio
A gordura abdominal é difícil de ser eliminada. As pessoas, mesmo magras, podem acumular uma reserva nessa região, algo que a atividade física ajuda bastante a eliminar. O ideal, nesses casos, é equilibrar peso, mas manter a massa magra. A nutricionista Cristina Trovó destaca que a resistência da perda desse tipo de gordura ocorre porque se trata do principal reservatório de energia do corpo. “Parece difícil perder gordura abdominal porque o corpo reluta em abrir mão de sua reserva de energia com receio de necessitar dessa energia posteriormente”, analisa.
Cristina deixa claro que não há milagres que sequem a barriga e explica que, se existisse alguma dieta específica, descrita em revista de qualidade de vida ou alguma pílula mágica — promessas essas que muitas pessoas ainda acreditam —, a obesidade não seria um dos maiores malefícios da saúde pública atual. A questão estética, preocupação crescente da população, tem feito com que muitas ideias se propaguem sem que se tenha muita certeza sobre a eficácia. “Essas dietas milagrosas até podem ter um efeito de perda de peso em curto prazo, mas, em longo prazo, a tendência é ocorrer o efeito rebote”, complementa Cristina. Esse efeito ocorre justamente quando a perda de peso acontece em decorrência de dietas com restrição extrema de calorias. Assim, quando o indivíduo abdica da dieta, a tendência é que o corpo recupere todo o peso perdido e, ainda mais, que ele ganhe peso além do que foi perdido. “As dietas muito restritivas causam desidratação, promovendo grande perda de peso em água. Comendo novamente, a água volta e, com isso, boa parcela do peso é recuperado”, acrescenta.
A nutricionista ainda aproveita para desmitificar alguns mitos que rondam o projeto da barriga enxuta, como por exemplo, deixar de comer carboidratos à noite para emagrecer. “Isso é mito. Pessoas que restringem carboidratos durante a noite costumam sentir mais fome durante o dia pela diminuição do hormônio leptina, responsável pela sensação de saciedade. Com a sensação de fome durante o dia, o indivíduo ainda corre o risco de aumentar o percentual de gordura durante o processo”, explica Cristina. A dica que ela passa é, durante esse período, evitar carboidratos simples como doces e bolos, e optar por produtos integrais e os contidos nos alimentos de baixo índice glicêmico.
Outro mito que ronda essa questão é o consumo de cerveja: muitas pessoas associam a grande quantidade de calorias por porção, lembrando que há cerca de 150 kcal em apenas uma latinha da bebida. Na verdade, esse número equivale a cerca de 7,5% das necessidades médias diárias de calorias de um indivíduo adulto. “Essas calorias são facilmente armazenadas em forma de tecido adiposo e, muitas vezes, na região abdominal. Além disso, o consumo de bebidas alcoólicas resulta em aumento de apetite. Em muitas pessoas, a cerveja também causa distensão abdominal. Por isso, não podemos classificá-la como vilã. O grande problema é o consumo em excesso”, esclarece e nutricionista.
Já sobre o glúten, Cristina garante que ele é ruim para pessoas que possuem doença celíaca. “O grande vilão do ganho de peso, no caso, não é o glúten, mas sim os alimentos consumidos em excesso que, coincidentemente, na maioria das vezes, contém glúten em sua composição, como bolos, pães, cerveja e massas”, enumera. A nutricionista frisa que os maiores segredos são os hábitos saudáveis associados ao planejamento com dieta de baixo índice glicêmico e exercícios físicos. “Essa é a chave para o sucesso garantido. A reeducação alimentar promove um novo estilo de vida, minimizando a probabilidade do retorno da gordura abdominal. Voltar a engordar na região abdominal pode acontecer com qualquer dieta proposta, mas, agindo dessa forma, os resultados são melhores e duradouros”, completa.
Amigos da boa forma
Grande parte das pessoas que se matricula em academias quer perder gordura localizada, principalmente na região abdominal. Uma rápida passada de olhos por qualquer banca de jornal ou sites mostra que, agora, a busca é pela barriga tanquinho. Ao lado de modelos considerados perfeitos, estão promessas de que a graça do abdômen perfeito é algo ao alcance de todos. O educador físico e coach da Acahdre Estrutura Fitness, Daniel Martinez Lana, analisa que as pessoas valorizam esta estética, pois ela está diretamente ligada à uma concepção distorcida e ilusória de felicidade, status e bem-estar.
O coach explica que os exercícios atuam basicamente na utilização e na oxidação da gordura durante e após a prática, através do efeito EPOC (consumo de oxigênio após o exercício) e metabolismo basal pelo aumento da massa magra (massa muscular). Dessa forma, auxilia na perda de gordura abdominal. “Não existe um treino específico para quem quer perder gordura abdominal. A ideia de treino ideal propagado hoje, principalmente pelas blogueiras fitness, é falsa, porque não respeita a individualidade de cada organismo. Somente um planejamento estruturado e formal, através de uma criteriosa avaliação diagnóstica (nível de gordura abdominal), poderá fornecer ao indivíduo um prognóstico adequado”, observa Daniel. Vale lembrar que o prognóstico é determinado pelos parâmetros funcionais de aptidão física, sendo eles cardiorrespiratório e neuromuscular.
Daniel ainda avalia que não adianta direcionar os esforços apenas para os exercícios abdominais, acreditando que eles são garantia da famosa barriga tanquinho. “O abdominal isoladamente se constitui de um exercício de força muscular e, portanto, faz parte de um programa de treinamento que promove o aumento da força e da massa muscular. São exercícios importantes, pois auxiliam na estabilização da coluna”, reforça. Portanto, o caminho mais indicado para alcançar bons resultados é procurar um profissional de educação física capacitado, que saiba avaliar, planejar e estruturar um treinamento individualizado, além de saber manipular corretamente as cargas de treino (intensidade e volume) a fim de se atingir as metas funcionais adequadas para aptidão cardiorrespiratória e neuromuscular. “A estética corporal tem que vir sempre como consequência de uma ótima aptidão física, e não como valor primário”, pronuncia Daniel.
Reforço extra
Dentro da busca pela “barriga chapada”, é possível incluir, além da dieta e da ginástica, alguns tratamentos estéticos que prometem eliminar as gordurinhas da área. O acúmulo é resultado de uma série de fatores, entre eles a genética e a ação de alguns hormônios, que podem ser naturais, produzidos pelo próprio organismo, ou exógenos, fruto da aplicação ou ingestão em comprimidos. Aliados à dieta equilibrada e aos exercícios físicos, os tratamentos estéticos dão uma bela ajuda a quem sonha com uma barriga sequinha e em pouco tempo. “Mulheres e homens procuram por tratamentos estéticos cada vez mais modernos e indolores. Com o rápido avanço da tecnologia, hoje existem inúmeros modos de ficar mais bonito em pouco tempo”, avalia a empresária Erminia Rosali Médici Micheletti, proprietária da Estética Hollywood by Dr. Rey em Ribeirão Preto.
Muitas vezes, exercitar a musculatura não é o suficiente e aí entram os tratamentos estéticos. Quando ocorre o emagrecimento, tanto através da reeducação alimentar quanto dos exercícios físicos, são perdidas medidas em um todo e ainda não inventaram uma pílula mágica para fazer as gordurinhas indesejadas desaparecerem. Porém, aparelhos de alta tecnologia podem reduzir o excesso de gordura. “Os tratamentos de gordura abdominal são um dos mais procurados. Muitos homens buscam esses recursos para perder barriga”, conta a fisioterapeuta Caiene Ricobello.
Por isso, recorrer a tratamentos específicos é uma ótima arma no combate à barriguinha. Segundo as esteticistas Taís Preda e Lidiane Zucchi os procedimentos estéticos são aliados eficazes na busca por um corpo mais enxuto. “Aliamos os aparelhos ao uso de cosméticos e a massagem modeladora, que é um diferencial da clínica. A sessão dura, em média, uma hora e alguns pacientes já conseguem ver diferença logo no primeiro dia”, pontua Taís. Entre os tratamentos mais procurados, está o Star Shape, um procedimento realizado com um equipamento associado a cosméticos e massagem modeladora, que auxilia na redução de gordura localizada e na melhora do contorno corporal. Outra atração é o Star Shape Plus, um procedimento intensivo realizado em três etapas por semana, com associação de equipamentos, cosméticos VIP Care e manobras exclusivas que promovem a redução de medidas.
Lidiane esclarece que cada organismo reage de uma forma aos tratamentos estéticos. Por isso, é necessário fazer uma avaliação completa e ter o comprometimento do paciente para que o resultado seja satisfatório. “Os pacientes passam por uma avaliação criteriosa em que conseguimos diagnosticar o descontentamento atual e sugerir o melhor tratamento para cada pessoa”, conclui.
Foco na barriga
Segundo especialistas, o tanquinho dos sonhos exige uma combinação simples: seguir um plano nutricional, ser fiel ao treino e investir em tratamentos de última geração. Com base nesses três pilares, a nutricionista Cristina Trovó selecionou algumas sugestões para quem está em busca da medida certa:
- Comer os nutrientes que participam das reações de
queima de gordura
- Fracionar as refeições
- Fazer o plano alimentar com alimentos de baixo índice glicêmico
- Consumir alimentos termogênicos com frequência e quantidade ideais
- Não fazer o “dia do erro” ou “dia do lixo”
- Moderar na bebida alcoólica
- Fazer exercícios aeróbicos, mas não se esquecer da musculação
- Ter foco, persistência e determinação
Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian e Ibraim Leão