Abrindo Fronteiras
O cientista Sérgio Mascarenhas revolucionou a área neurológica, criando um método para medir alterações mínimas da pressão intracraniana com aparelho não invasivo
Perto de completar 88 anos, no dia 2 de maio, o professor e cientista Sérgio Mascarenhas de Oliveira nem pensa em parar de trabalhar. Seu estímulo, segundo ele, vem dos jovens alunos que orienta na área de Física em universidades do Brasil e do exterior, e também dos cursos ou das palestras ministradas em várias partes do mundo. Formado em Química e Física na década de 50, com uma trajetória de 60 anos dedicados à Ciência, Mascarenhas realizou significativas contribuições nas mais diversas áreas do conhecimento científico mundial.
Como professor, lecionou na Universidade de São Paulo (USP), na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em outras instituições, inclusive internacionais, entre americanas, mexicanas e italianas (veja quadro na página 14). Inquieto por natureza, o professor revela que a Ciência deve contribuir para a economia e para a vida dos cidadãos, por isso, não mede esforços para incentivar investimentos em centros de difusão científica.
Uma de suas pesquisas mais recentes derrubou um dogma na Medicina, conhecido como doutrina de Monro-Kellie, reconhecida pela comunidade científica em 1783, que afirmava que o crânio é uma estrutura óssea rígida e inextensível. Com seus estudos, provou que a alteração da pressão intracraniana deforma a estrutura óssea do cérebro. Identificada a degeneração, foi possível medir e monitorar a pressão interna do cérebro de pacientes com hidrocefalia, traumatismo craniano e tumores, sem a necessidade de perfurar o crânio, como era, e ainda é, feito em alguns casos de pacientes em trauma.
Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), através do Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Hemocentro-USP, Mascarenhas criou dois métodos de monitoramento da pressão intracraniana: um minimamente invasivo e outro, não invasivo.
A primeira versão do sistema apresenta um chip preso ao crânio sob a pele. A segunda, denominada Brain Strap, é composta por um sensor, colocado em uma faixa, fixada em volta da cabeça do paciente a ser monitorado. Os equipamentos estão em fase de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e serão certificados posteriormente na agência regulatória de alimentos e fármacos dos Estados Unidos, a FDA, e também na comunidade europeia, o que permitirá sua comercialização. Para viabilizar a produção desses aparelhos, o professor Sérgio abriu a empresa Braincare.
Em fase de testes clínicos no departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, o aparelho minimamente invasivo vem sendo usado há cerca de um ano e meio, para identificar precocemente alterações na pressão intracraniana de gestantes. Sabe-se que a hipertensão acomete 5% das grávidas no mundo inteiro, sendo uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil — são registradas, ao menos, duas mortes por dia em decorrência de pré-eclâmpsia. Um agravante, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é que entre 20% e 40% das filhas das mulheres que tiveram o problema também enfrentam a doença.
Docente da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e chefe do setor de Ginecologia e Obstetrícia (GO) do Hospital das Clínicas (HC), Geraldo Duarte revela que o Brain Strap representa uma esperança na identificação precoce das alterações da pressão intracraniana. Ao custo estimado de R$ 20 mil, o aparelho é de fácil manuseio e pode ser adotado pelo Ministério da Saúde, disponibilizado nos hospitais da rede pública e também nas unidades do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). “Com ele, o médico poderá atender às populações que residem em locais remotos, sem muitos recursos. No consultório, poderá identificar o problema já na primeira consulta do pré-natal das gestantes”, afirma Geraldo.
Ricardo Cavallli, professor da Faculdade de Medicina da USP e um dos coordenadores do setor de Ginecologia do HC, revela que a hipertensão coloca em risco a vida da mulher e também do bebê. Todos os anos, aproximadamente 80 em 100 mil mulheres morrem por problemas de hipertensão e, segundo ele, dependendo da região, a doença representa 40% dos casos de morte. Em relação à morbidade materna, a situação se agrava, mas a paciente não morre. “No HC, somente em 2010, de 1500 partos, 150 tiveram morbidade grave, sendo que 50% das mulheres eram hipertensas. O setor de obstetrícia tem dois itens preocupantes: a prematuridade dos bebês e a hipertensão nos desfechos do parto, as chamadas pré-eclâmpsias”, explica Ricardo.
Em fase avançada de estudos clínicos, o professor Sérgio estima que, até junho, novos parâmetros contribuam para o avanço nos registros do sistema. Uma equipe de 12 profissionais, entre médicos, residentes e técnicos, acompanha as pacientes atendidas no setor, que recebe entre 10 e 15 novos casos por semana. “Aqui no Hospital, temos as condições ideais para os testes, tanto em gestantes normais, que não apresentam alteração da pressão, como naquelas com hipertensão crônica”, avalia o professor.
Novas áreas
Além da Física, o cientista também atua em áreas como Biofísica Molecular, Física Médica e de Dosimetria das Radiações; Ciência e Engenharia de materiais; Tomografia Computadorizada, Educação para Ciência; Ciência e arte em Arqueologia e restauro. Com a globalização, Mascarenhas revela que há um verdadeiro tsunami invadindo os dois mundos do conhecimento — o da ciência, tecnologia e inovação (CTI) e o das humanidades. “O mais importante resultado está na convergência dessas duas culturas, o que Charles P. Snow chamou de terceira cultura”, aponta.
Neste sentindo, Sergio estima que um dos grandes desafios do século pode ser sintetizado com a sigla BANG, que quer dizer bits, átomos, nanotecnologia e genômica. Outras duas novas áreas, segundo o cientista, são sistemas complexos e cérebro. O primeiro trata de grande número de variáveis, como saúde, educação, energia, meio ambiente e clima, além das bilhões de variáveis do próprio cérebro, que tem, pelo menos, 80 bilhões de neurônios, sendo, segundo ele, o sistema mais complexo que a evolução na terra produziu em 4 bilhões de anos. Também a estatística (matemática) mudou radicalmente, bem como os conceitos de tempo e espaço.
Hoje, o professor faz pesquisas em áreas interdisciplinares, como Neurociências, Sistemas Complexos, Nanotecnologia, Instrumentação e Bioinformática nas Faculdades de Medicina e de Filosofia Ciência e Letras da USP, no HC e na sua Unidade de Emergência (UE), em áreas como Neurocirurgia, Saúde da Mulher e Física Médica. Os trabalhos contam com apoio do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde, um braço da Organização Mundial da Saúde. Em São Carlos, trabalha no Instituto de Física, na Embrapa Instrumentação, e na UFSCar, orienta doutorandos na Fisiologia do Exercício e colabora com a Medicina, a Enfermagem e a Engenharia de Materiais, onde também está ajudando a implantar um novo Instituto de Estudos Avançados e Estratégicos.
Sempre preocupado com a função social de um cientista, o pesquisador observa que, sem as aplicações sociais, a área de Ciências e Tecnologia transforma as universidades e centros de pesquisas em torres de marfim e zonas de conforto de pesquisadores esperando a aposentadoria remunerada, enquanto a população permanece sem saúde e educação. “Nunca deixei de exercer minha função social e seguirei assim até quando for possível. Com meus 87 anos, trabalho todos os dias e mantenho uma verdadeira angústia pelo nosso atraso e pobreza. Como fui aluno e colaborador de Anísio Teixeira, Carlos Chagas Filho, Costa Ribeiro, Bernardo Gross e dos prêmios Nobel Abdus Salam e Lars Onsager, tenho missões a cumprir, assim como sonhos e ideais pelos quais lutar”, conclui Sérgio.
Envolvimento mundial
Nos Estados Unidos, Mascarenhas foi professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Em 2015, foi nomeado como único representante da América Latina para o International Advisory Committee, do 16º International Symposium on Intracranial Pressure and Neuromonitoring, que acontecerá no MIT, em Cambridge/EUA. Também foi instituído membro do Steering Committee e Co-investigator, junto ao Departamento de Clinical Neuroscience do Addenbrook´s, do Cambridge University Hospital, na Inglaterra.
No México, foi professor visitante na Universidade Nacional Autonoma e Centro de Estudos Avançados. Já no Japão, foi professor visitante no Institute of Physical and Chemical Research, tendo feito o primeiro teste do nível de radiação em ossos de vítimas da bomba atômica em Hiroshima.
Na Inglaterra, foi professor visitante na London University e, na Itália, entre outros feitos, foi professor visitante no Center for Theoretical Physics - Trieste e Universidade de Roma e no Abdus Salam International Centre for Theoretical Physics.
Paixão pelas artes?
Em sua casa, Sérgio Mascarenhas divide o espaço com várias peças e livros de arte. O quadro de autoria de Odila Mestriner, nomeado por ele como “Árvore do Conhecimento”, foi um presente dos alunos quando completou 70 anos. “Ele me foi dado para dizer que eu tinha criado uma árvore, onde eu era o tronco e eles, os galhos. De fato, a escola científica é uma árvore do conhecimento e a função do professor é ser a base desta missão”, observa o cientista Sérgio Mascarenhas. Outra obra importante em sua vida é a réplica do quadro “A escola de Atenas”, do Italiano Raffaello Sanzio, ou Rafael, como ficou mais conhecido. “Esta obra é minha motivação, uma grande paixão”, ressalta Sérgio.

Texto: Rose Rubini
Fotos: Julio Sian