Acervo de memórias
Hoje, o município atrai a população regional, e também de outras partes do país
Fundada em 19 de junho de 1856, Ribeirão Preto tornou-se, em 155 anos, uma das cidades mais importantes do Estado de São Paulo. Sua vocação agrícola, que produziu café e hoje é marcada pela cana de açúcar, transformou a cidade também na terra da cultura, da educação, da saúde e do comércio. Hoje, o município atrai a população regional, e também de outras partes do país, em busca de serviços e de produtos de qualidade.
Mas poucos conhecem a trajetória que levou Ribeirão Preto a se tornar uma referência nacional. No entanto, um projeto municipal chamado Coleção Identidades Culturais tem modificado essa situação. Historiadores e pesquisadores vêm sendo incentivados a registrar fragmentos da história da cidade, montando, pouco a pouco, o mosaico ribeirãopretano.
Cinco livros que relatam parte da história do município já foram lançados. Entre eles, está o trabalho de Henrique Telles Vichinewski, arquiteto e urbanista, mestre em história pela Unicamp. O professor universitário, que atua na área de restauro arquitetônico, foi convidado a transportar anos de pesquisas para o livro “Indústrias Matarazzo em Ribeirão Preto”. “Desde meu trabalho final da graduação estudo a Matarazzo/Cianê. Quando recebi o convite para participar deste projeto, atualizei algumas pesquisas sobre o tema e editei a publicação”, relata o professor. O trabalho ficou pronto em três meses e é motivo de orgulho para Henrique.
O universo das Folias de Reis também compõe a Coleção Identidades Culturais. “Companhia de Reis de Ribeirão Preto — relatos de devoção e fé” foi desenvolvido pelo historiador Arthur Barros, documentarista e responsável pelo Arquivo Histórico de Ribeirão Preto, em parceria com a agente cultural Carmen Rezende que, por muitos anos, foi responsável pela organização do encontro de Santo Reis na cidade. “Durante meses, fiz pesquisa de campo. Optei por ouvir a história oral, já que não havia muitas fontes de consulta em publicações. Assim, consegui romper com a historiografia tradicional, dar voz aos esquecidos e torná-los sujeitos históricos através de suas memórias e vivências”, acredita Arthur. Para o historiador, essa pesquisa também teve um forte apelo pessoal. “Meu bisavô e meu avô haviam sido embaixadores de reis, mas a tradição não passou para as gerações seguintes. Com esse trabalho, também resgatei um pouco da minha própria história”, avalia, com a conclusão do trabalho que durou quatro meses.
A historiadora Thaty Mariana Fernandes vive a expectativa do lançamento de seu livro, que acontecerá exatamente no dia do aniversário da cidade. “Estou feliz por lançar esse trabalho no dia de Ribeirão Preto, no Theatro Pedro II e com direito à apresentação da Orquestra Sinfônica, pois no livro, abordo o começo da Orquestra. Além disso, trabalhei como monitora do ‘Pedrão’ quando voltei a Ribeirão Preto, em 2000”, revela a professora, que atualmente mora em São Paulo e trabalha em uma empresa que elabora e administra projetos culturais relacionados ao patrimônio histórico. O livro de Thaty conta a história da música ribeirãopretana do início do século XX, tema sugerido despretensiosamente pelo amigo e músico Márcio Coelho. “A sugestão virou tema de mestrado e, agora, livro”, orgulha-se a historiadora, esperando que seu trabalho inspire outras pessoas e tenha continuidade.
História em áudio e vídeo
A história ribeirãopretana também foi parar em documentários audiovisuais. Um deles, lançado no início de março deste ano, foi dirigido por Hossame Nakamura e conta a história do artista plástico Bassano Vaccarini. “Todas Dimensões de Bassano Vaccarini – Dentro de um realismo mágico” revela vida e obra do artista italiano que escolheu o Brasil, especialmente Ribeirão Preto, para viver e desenvolver sua arte. “Compilando histórias e imagens recuperadas de acervos para o audiovisual, o documentário cumpre seu objetivo: promover uma ‘reparação’ à memória de um grande artista da cidade”, evidencia o diretor.
Por iniciativa da Secretaria da Cultura e da Prefeitura Municipal, também foram produzidos diversos documentários que registram as memórias da cidade. Uma série de bairros foi imortalizada em vídeo, como a Vila Virgínia, a Vila Tibério e o Ipiranga. Os trabalhos que contam a história do Centro e dos Campos Elíseos estão em processo de finalização. Também foram produzidos documentários sobre a cultura do café e sobre alguns personagens históricos pouco conhecidos.
Desde sua fundação, a TV Unaerp também desenvolve projetos que têm a história da cidade como foco. “Já produzimos uma série de documentários em parceria com a divisão de marketing da Universidade para serem distribuídos gratuitamente em escolas, bibliotecas e entidades educacionais de Ribeirão Preto e da Baixada Santista, onde a Unaerp também atua”, conta Flávia Martelli, coordenadora da TV Unaerp. A série reúne seis vídeos: “A Cultura da Cana”, “Os Trilhos do Café”, “Ribeirão Preto 150 anos — uma história urbana”, “Nas Entrelinhas da Leitura”, “Imaginário Portinari” e “Contra Corrente — nas águas de um Rio Pardo”. “Esses trabalhos tratam de questões históricas, mas também sociais, culturais e ambientais de Ribeirão Preto e da região”, destaca Flávia.
“Ribeirão Preto 150 anos — uma história urbana” foi um dos vídeos de maior repercussão. Usando o teatro como linguagem narrativa, o documentário resgatou a história através de familiares daqueles que ajudaram a construir a cidade. Além desses vídeos, alguns quadros que integram periodicamente a grade da TV Unaerp buscam resgatar a história ribeirãopretana. É o caso do “Porta Retrato”, que conta a biografia de pessoas que contribuíram com o desenvolvimento do município.
É importante valorizar trabalhos que ajudam a resgatar as memórias da cidade. No entanto, aos 155 anos, Ribeirão Preto ainda tem muitas histórias que merecem ser contadas. O trabalho desses profissionais que ajudam a remontar o passado para que ele não se perca e para que a construção do futuro possa ser planejada da melhor forma precisa ser estimulado continuamente.
*Matéria publicada em 17/06/2011