Admiração mútua

Admiração mútua

Uma análise sobre os valores da sociedade atual é o ponto de partida da entrevista do psicodramatista Regis Viana à secretária da Educação Débora Vendramini

A satisfação do encontro é explícito nos dois personagens. Débora Vendramini, dona de um currículo extenso que passa pela rede pública estadual, pela Comissão Própria de Avaliação (CPA), pelo Conselho Acadêmico Superior (CAS) até chegar à Secretaria da Educação de Ribeirão Preto, cargo que ocupa desde 2009.

Seu entrevistado Régis Viana é natural de Ribeirão Preto, graduado pela Faculdade de Medicina de Botucatu, onde dirigiu uma clínica psiquiátrica e, atualmente, atua como psicoterapeuta em consultório particular com adolescentes, casais e famílias.

O consultório foi o ambiente escolhido para o bate-papo carregado de histórias, representadas pelos presentes recebidos de pacientes que revelam a fragilidade das pessoas em suas relações mais íntimas, com o próximo e consigo mesmas.

Débora resgata memórias dos tempos de faculdade, em que eram realizados grupos de psicodrama entre os profissionais. “O Régis era capaz de catalisar o melhor de diversos participantes e alinhar os assuntos em uma sintonia muito positiva. Ainda tenho vivo em mim o sabor daqueles encontros”, relembra.

Nesse tom, Regis aborda as relações humanas embasado em questões filosóficas e deixa uma mensagem. “O bom senso adverte: o uso indiscriminado do conteúdo da entrevista pode alterar o andamento das coisas do país rumo ao futuro”. Confira!

Débora: Gostaria que começasse falando sobre esse seu trabalho e sobre como ajuda as pessoas.
Régis: Primeiramente, que privilégio este encontro! Sou psicodramatista e terapeuta, aquele que trata, que promove a saúde e a qualidade de vida. Médico, formado em Botucatu em 1973, ao exemplo do meu pai que também é médico e vive em Santos, local onde minha filha também está seguindo a carreira. Diante da amplidão e da extensão da Psiquiatria composta de ciência e arte, propus-me a oferecer acesso à alegria de viver aos que, pela dor do ferimento, deixaram-na em algum lugar da jornada. Hoje, a doença do “ser” deu lugar à do “estar”. Por isso, proponho o campo de luta: na origem, na família, na educação e formação do Homo Socialis.

Débora: Qual sua perspectiva em relação à sociedade atual?
Régis: A sociedade precisa se autoafirmar, é adolescente ainda. Desenvolver e confirmar o conceito de homo socialis, no qual o homem é motivado, principalmente pela necessidade de reconhecimento, de participação e de aprovação social nas atividades dos grupos sociais em que vive. O homem é um ser social por natureza porque é frágil demais para viver sozinho. Por isso, seu maior desafio reside no fato de que ainda não aprendeu bem a viver em sociedade, compartilhar espaços comuns, coletivos. Seria impossível não manter o contato social, daí termos criado essa rede de convívio em que dependemos uns dos outros: interagimos, trocamos experiências, mercadorias, serviços, ajudamos e somos ajudados. Sempre dependemos uns dos outros, em menor ou maior grau de necessidade.

Débora: Como o ser humano está lidando com as normas sociais?
Régis: Ele se envolve, mas não desenvolve. O filósofo Sartre disse certa vez que “o inferno são os outros”. Pessoas nos machucam, fazem com que nossos planos não deem certo, por isso, geralmente, pensamos que se não fossem os outros, a vida seria mais fácil.

Débora: Como ocorre a construção das pessoas, dos valores e as escolhas que elas fazem?
Régis: Somos o conjunto das nossas opções conscientes, optar é renunciar. Aqui, paro e penso nessa onda de barbárie do comportamento de nossa sociedade. Quais são os modelos que nos têm sido repassados para armazenamento em nossa caixinha de bom senso de civilidade, de boas maneiras, amor, respeito e dignidade? Como estamos forjando o caráter desse nosso povo até transformá-lo na Nação que criará um Estado fundamentado em regras de governo amparadas nos preceitos da moral dos costumes vigentes? Para quê? Para esse mesmo povo poder observá-las e segui-las como um guia de convivência social e não como um código de penalizações à sua infração.

Débora: Diante do perfil histórico, socioeconômico e cultural, quais a dicas para esses profissionais que cuidam da formação e até da transformação de pessoas?
Régis: Bom senso de civilidade, boas maneiras, elegância, amor, respeito e dignidade. Dentro de uma abordagem do holismo, na metafísica de Aristóteles, quando afirma ser o todo maior do que a simples soma das partes: “... aprender com a árvore e saber que o que tem de florido vem do que tem de sepultado.” (Bernardez).

Débora: Quais as competências exigidas para esses profissionais, além de dedicação ao trabalho, boa índole, iniciativa, criatividade e entusiasmo?
Régis: Eu só acrescentaria a tudo isso a fé na honestidade de que só o trabalho árduo é que constrói.

Débora: Como atrelar linguagem, pensamento e ação?
Régis: Oferecendo modelos. Revendo os dados de realidade histórica dos meus ícones, acabo por ter de comparar o frescor das alamedas por onde passei, em minha formação na juventude, com o sufoco da poluição dos verdadeiros túneis de obscurantismo cultural de hoje, por onde empurramos nossos jovens ao encontro de seu futuro. Será que chegaremos a ver um professor, um médico ou um advogado, como personagem central de novelas da mídia televisiva, em uma trama em que prevaleça o respeito ao semelhante, a honra, o humanismo em que a forma de representar valha mais do que as formas do representador? Ajudaria muito se a família fosse apresentada no mais puro e verdadeiro do conteúdo afetivo de seus papéis principais; amparada por um texto estimulador da concórdia, tratando a discórdia por meio da serenidade de um pai que adentra o lar, com autoridade e autoestima, inspiradas e estimuladas pela mãe, ambos dedicados aos cuidados família, apesar das durezas de um dia de rotina. Que bom seria ter visto a TV programar tudo isso em horário nobre. Infelizmente, até algumas religiões trazem no bojo de seus preceitos, a substituição gradativa de um Jesus que pregava o amor ao próximo como o caminho, a verdade e a vida, por outro Jesus que apregoa a salvação somente por meio Dele e de seus prepostos regiamente remunerados. E os políticos? Não precisariam ser representados por virtuosos candidatos a Mahatma Gandhi. Um pouco mais de cuidado na produção de roteiros com as cores do Humanismo e da Ética, para resgatá-los dessa incômoda posição de Odorico Paraguassu entabulando negociações com Felix Kouri. Um leve toque de classe e talvez não recheássemos nossas câmaras do poder com o atual material escatológico que se esparrama por entre os telejornais, jactando-se para o centro de nossos lares. Não há como fazer uma boa escolha com tão pouca luz dentro do coração.

Débora: Sabemos que há muitos desafios para os profissionais da educação e que eles também precisam cuidar da saúde mental. Como manter o equilíbrio diante de algumas situações conflitantes?
Régis: Não há uma receita pronta, mas há de se tentar criar uma solução. Ainda nascerá muita gente que continuará sem receber das mãos do parteiro, logo após cruzar o canal de parto, ainda com o pasmo de não se saber nascendo, um conciso, mas completo, Manual do Proprietário: Instruções para uso da Vida. Ficam aqui alguns tópicos para compor a elaboração da mais nova edição desse compêndio: Humor, Amor, Tolerância, Solidariedade, Humildade de aprendiz, Transparência, Discernimento, Malícia, Determinação, Disponibilidade e Perspicácia.

Débora: Falamos sobre a função dos educadores, mas e a função dos pais, a responsabilidade deles diante da escolha de ter um lar, ter filhos para criar, orientar? Quais os conselhos para eles?
Régis: “A fruta nunca cai longe do pé!”. Depreendo que se o fruto não cai mais perto da árvore da família é por que não se sente atraído pela força dos valores que lhe são propostos, ou porque está sendo aliciado por interesses outros, ou, pior, está sendo repelido pelos que se apresentam como tais. Machado de Assis disse: “A ocasião não faz o ladrão, faz o roubo. O ladrão já nasce feito”. Não que a ocasião não possa ser cúmplice. Todos nós precisamos de ajuda, ajudando-nos, mutuamente, foi que as famílias de homo sapiens sobreviveram até agora. Segundo Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. História comum, de gente comum, de família comum. Que tal seguir o Manual: Como educar os filhos com o que sou e como minha família pode ser? Porque deixar esse direito/dever para a escola? Utilizar a Terapia do Elogio pode ser um bom começo: Desculpe - Por favor - Obrigado  ou continuar valorizando pessoas fúteis, ricas ou famosas usando a imagem para vencer a qualquer custo? Descubra: “…só quando me tornei pequeno é que ficaste grande para mim…”

Débora: Por fim, qual a sua mensagem para quem educa, orienta, trabalha com o processo de educar, seja ele o pai ou responsável, seja um educador?
Régis: Responsabilidade compartilhada. Um fazendeiro bem-sucedido, ano após ano, ganhava o troféu “Milho Gigante” da feira da agricultura do seu município. Entrava com seu milho na feira e saía com a faixa azul recobrindo seu peito. E o milho era cada vez melhor. Numa dessas ocasiões, o repórter do jornal, ao abordá-lo após a já tradicional colocação da faixa, ficou intrigado com a informação dada pelo entrevistado sobre como costumava cultivar seu qualificado e valioso produto: compartilhando a semente do seu milho gigante com os vizinhos. Então lhe perguntou: como pode o senhor dispor-se a compartilhar a melhor semente com seus vizinhos, quando eles estão competindo com o seu? — Você não sabe? O vento apanha o pólen do milho maduro e o leva de campo para campo. Se meus vizinhos cultivam milho inferior, a polinização degradará, continuamente, a qualidade do meu milho. Se eu quiser cultivar milho bom, tenho que ajudar meus vizinhos a cultivarem milho bom. O milho dele não poderia melhorar se o milho do vizinho também não tivesse a qualidade aprimorada. Aqueles que querem viver bem têm de ajudar os outros para que vivam bem. Os que querem ser felizes têm de ajudar os outros a encontrar a felicidade, pois o bem-estar de cada um está ligado ao bem-estar de todos. “Eduque uma criança para ser feliz e não apenas para vencer na vida, assim ela aprenderá o valor das coisas e não o seu preço; ama o quanto podes se tens a capacidade de fazê-lo, e faze o que tanto queres, se tens a capacidade de amá-lo.” 

Agente transformador da sociedade

“Tive imensa alegria em entrevistar Régis Viana, pessoa que tem um percurso profissional na luta pela elevação de pessoas, aplicando os conceitos da ciência e do humanismo em nossa época. Atuando nas relações de família, de trabalho, especialmente de professores, além de outras categorias de profissionais. Sabemos que esses profissionais se beneficiam com a oportunidade de conhecer e refletir mais sobre o ‘ser X estar’ em momentos distintos. Régis faz isso com clareza e provoca a transformação das pessoas, o desenvolvimento de habilidades, construção de diferentes pensamentos e significados em seres humanos que, culturalmente, possui seus ritos de passagem.”

Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Carolina Alves 

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