Afeto e Sabor

Afeto e Sabor

Com esses ingredientes, as refeições em família — apesar de cada vez mais raras — ainda são poderosas aliadas na hora de nutrir o corpo e ensinar boas lições de convivência, afetividade e muito mais

Conversas triviais, risadas ou discussões acaloradas: todos esses ingredientes fazem parte de uma bela refeição em família. Pelo menos é dessa forma que esse encontro está registrado em diversos livros, filmes e novelas, pois sentar-se à mesa na hora do almoço ou do jantar, tendo os familiares como companhia, está se tornando uma raridade. É o que uma curiosa pesquisa realizada na Grã-Bretanha pela agência de estudos de mercado Mintel ajuda a comprovar. A agência averiguou que a venda de mesas de jantar caiu 8% entre os britânicos, nos últimos cinco anos. Outro dado evidenciado foi que cerca de 25% da população já não têm um móvel próprio para fazer as refeições em casa —  entre os que têm, cerca de um terço utiliza a peça apenas em ocasiões especiais. 

De acordo com pesquisas feitas no Brasil, 30% a 40% das famílias não jantam juntas de cinco a sete noites por semana. A hora do almoço em casa, junto com os familiares, tem sido trocada por sanduíches ou por uma refeição em frente à TV ou acessando a internet. Mas abrir mão das reuniões familiares na hora das refeições pode ter um impacto negativo maior do que se imagina. Segundo o crítico e ativista culinário americano Michael Pollan, autor de Cooked: A Natural History of Transformation (Cozida: A História Natural de Transformação, em tradução livre), estas ocasiões são fundamentais para aprender a viver em sociedade. De acordo com o escritor, esse é o momento em que a criança aprende a compartilhar, a esperar sua vez e a argumentar sem brigar.

Assim como o Pollan, a psicóloga Danielle Zeoti acredita que a importância da refeição em família vai muito além da saciedade da fome, em boa companhia. Segundo a especialista, ocasiões assim são primordiais para o desenvolvimento humano, pois reforça o sentimento de pertencimento ao núcleo familiar. "Além disso, sabemos que as crianças aprendem com os exemplos dos pais. Nada melhor, então, do que investir nesse momento para ajudar a ensinar os pequenos não só sobre as questões alimentares, mas também a se comportarem, a ouvirem a opinião dos outros e a manifestarem suas próprias opiniões”, lista Danielle.

De acordo com a psicóloga, um estudo realizado na Universidade de Harvard, em 1996, elencou as principais atividades que auxiliam as crianças a desenvolverem sua linguagem. Entre elas, as refeições em família ocupava lugar de destaque como facilitadoras do desenvolvimento verbal das crianças. Essas ocasiões eram classificadas, em determinadas faixas etárias, como ainda mais importantes do que brincar e contar histórias. “Essa prática regular traz ganhos para a saúde do corpo e da mente. Como aponta o estudo, para as crianças, a conversa ao redor da mesa estimula o vocabulário de forma mais poderosa do que a leitura. Isso tudo sem elencar os benefícios nutricionais representados por fazer as refeições em casa”, argumenta.

O nutrólogo Ricardo Borges (CREMESP: 88.703) ressalta que as refeições são um hábito ou um ritual que ajuda na convivência entre as pessoas, inclusive, no que diz respeito ao comportamento alimentar. “Sentar-se à mesa para comer faz com que as pessoas se concentrem no que estão fazendo, prestem mais atenção às quantidades, aos sabores, às texturas, etc. Esse nível de atenção contribui muito para o controle de peso”, pontua. O nutrólogo acrescenta, no entanto, que é, sim, possível fazer uma refeição rápida e adequada, mesmo se ela acontecer em pé, no balcão da padaria, mas isso é mais difícil e muito menos prazeroso. “Geralmente, quando fazemos uma refeição ‘correndo’, apreciamos pouco o que estamos comendo. Não damos tempo ao nosso cérebro para que ele assimile o que está sendo fornecido ao corpo e, geralmente, acabamos ingerindo mais do que o necessário”, alega Ricardo.

Os especialistas são unânimes ao frisar que a refeição feita à mesa é uma oportunidade para a família se conectar. Existem outras atividades que podem ser feitas em conjunto e trazer benefícios, claro. No entanto, poucas delas incluem a família inteira e permitem que possam conversar. Ricardo e Danielle alertam que a falta de tempo não pode ser uma justificativa para os desencontros. “Se é impossível reunir a família no almoço ou jantar por causa dos horários, crie opções, como um café da manhã ou o tradicional almoço de domingo. Ou, ainda, convide a família para fazer um lanche da tarde. O importante é que essa ocasião combine família, comida e troca de experiências”, salienta Danielle.

Ricardo destaca, ainda, que é importante criar momentos que estimulem uma rotina saudável e integradora. Se essa atividade for cozinhar, ótimo, mas é bom lembrar que nunca se deve fazer associações entre a comida e as emoções. “Reuniões e confraternizações envolvendo a comida podem ser um bom momento, mas devemos sempre manter outras maneiras de nos reunir para que não se crie a ideia de que momentos alegres só existem se houver comida por perto”, completa.

O prazer de comer  em família

Mesmo com a rotina atribulada, o administrador de empresas Guilherme Russo e a engenheira agrônoma Ana Cláudia Gonçalves mantêm a tradição vinda de seus avós, que conseguiam reunir pais e filhos em torno da mesa para as refeições. Ana Claudia lembra que, durante muitos anos, morou em uma cidade pequena que não impunha muitas dificuldades para voltar para casa no horário das refeições. Ainda hoje, sua família faz o possível para manter esse hábito. “É claro que, pela correria e pelo tempo às vezes curto demais, alguns dias da semana não é possível almoçarmos juntos. No entanto, posso dizer que aproveitamos muito esses momentos para conversar sobre nosso dia a dia e ponderar sobre assuntos que precisam ser decididos em conjunto, como escola, lazer, viagens”, comenta a engenheira.

Guilherme lembra que, em outras épocas, seria impensável não estar com os familiares ao menos para o jantar. Em volta da mesa, a refeição só começava quando todos já estivessem sentados. Da mesma forma, só era permitido levantar quando todos tivessem finalizado sua refeição. “Para mim, esse hábito fortalece a nossa união familiar, a confiança e a segurança de nossos filhos, que sabem que podem contar comigo e com a Cláudia sempre que precisarem”, analisa.

Se não é possível almoçar ou jantar todos os dias juntos, o casal reserva, ao menos, um dia na semana para estar junto a todos. “Por termos filhos de casamentos anteriores que não moram conosco, quando estão todos em casa fazemos ainda mais questão de sentarmos juntos à mesa. Esses momentos com os nossos filhos são mais do que especiais”, declara Cláudia.

Dos seis filhos de Guilherme e Cláudia, Maria Luiza Bernardelli, Arthur Bernardelli e Giovanna Russo estão acostumados com os hábitos ensinados pelos pais e se divertem a cada chance de comerem juntos. Com idade entre 7 e 26 anos, o sexteto se dá muito bem e aproveita essas ocasiões para compartilhar as novidades. “Guilherme e eu estamos sempre com eles e nos organizamos para que todos estejam juntos, seja no cinema, no restaurante, no parque ou em museus. Por serem seis filhos, mais os agregados, qualquer programa é um evento”, diz Ana Cláudia. 

Cozinha para dois

Os aromas da comida no forno fizeram o casal Ana Lúcia Garcia de Matos, supervisora de compras, e Lucas Freire Assugeni, adestrador de cães, perceber como cozinhar em casa pode ser prazeroso. Casados há 11 anos, Lucas e Ana são dessas pessoas que associam boa parte das lembranças da infância às receitas de seus pais e avós. Ana revela que Lucas é seu chef de cozinha particular, pois faz o jantar diariamente. "Lucas gosta de cozinhar, por isso, acaba assumindo a cozinha. Enquanto ele prepara tudo, conversamos sobre como foi nosso dia ou reforçamos o que temos para fazer no dia seguinte", conta.

Para o casal, o hábito de fazer ao menos uma refeição do dia na companhia um do outro diminui o estresse do dia a dia. “Cozinhar em casa é outro hábito que deveria ser mais cultivado, não só por causa dessa transferência de afeto, mas principalmente por manter vivas as tradições familiares”, recomenda Lucas. “Em tempos de contenção de gastos, vale ressaltar que é muito mais barato preparar as refeições em casa do que comer em restaurantes ou solicitar entrega em casa. Mas esse é apenas um dos argumentos, pois a saúde ainda é a que mais ganha quando a prioridade da família são as refeições caseiras”, acrescenta a supervisora.

Com planos de aumentar a família, Lucas e Ana aprenderam que a refeição é um importante fator de amizade e união entre as pessoas. Essas ocasiões desempenham um papel fundamental quando a estabilidade familiar está em jogo. Mesmo percebendo que as famílias estão tendo menos tempo para compartilhar as refeições, o casal pretende manter o hábito quando os filhos chegarem. “Sentados à mesa, poderemos ensiná-los a comerem melhor, a se relacionarem com responsabilidade e afeto e, claro, a terem um relacionamento aberto conosco”, concluem. 

Mão na massa

O americano Michael Pollan sugere que as pessoas assistam aos programas de culinária, desde que eles não se distraiam do prazer de cozinhar por si mesmo. Veja a seleção de famosos programas do gênero para quem quiser aprender uma receita especial para  o próximo jantar.

De olho no cardápio

Pensando no desenvolvimento e no bem-estar familiar, a psicóloga Danielle Zeoti selecionou cinco ingredientes que não podem faltar em nenhuma refeição:

1 – Prioridade: você deve privilegiar o momento de estar em família. Eleja ao menos um dia na semana para almoçar ou jantar com todos reunidos

2 – Organização: é um momento de encontro, por isso, as TV’s e os outros eletrônicos devem estar desligados; além disso, todos devem sentar-se à mesa, inclusive, os bebês, em seus cadeirões.

3 – Cuide do ambiente: escolha um local agradável, onde todas as pessoas caibam e se sintam confortáveis no momento da alimentação.

4 – Cozinhe com amor: escolha uma refeição saudável, simples de fazer e saborosa. Ninguém deve passar o tempo inteiro na cozinha e, sim, aproveitar para compartilhar.

5 – Programe-se: tudo bem se a refeição acontecerá apenas uma vez na semana, mas já comece a se organizar para que, na próxima semana, sejam duas vezes, e assim  por diante.

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