Afinando o tom
A Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto vive um dilema: a falta de recursos financeiros para manutenção dos projetos da entidade. Para driblar a crise, aposta em apresentações diversificadas e projeto
Uma orquestra fundada em 1921. Não é difícil imaginar o tamanho da trajetória dessa entidade privada, sem fins lucrativos, mantida pela Associação Musical de Ribeirão Preto, que conta com parcerias desenvolvidas junto às iniciativas públicas e privadas por meio de projetos de Lei Rouanet, sócios e patronos. É inimaginável pensar, no entanto, que a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP), com mais de 1.400 concertos oficiais realizados, apresentações internacionais com solistas brasileiros e estrangeiros, que oferece sessões gratuitamente ao público, esteja em um momento de crise.
Com despesa mensal de aproximadamente R$ 200 mil, salários atrasados e redução do número de músicos, a Orquestra vive um problema constante: a ausência de empresas parceiras ou patronos para manter projetos da instituição. “Já tivemos cerca de 60 músicos e agora contamos com 25. Essa situação nos mostra que precisamos completar a Orquestra com músicos de fora, alguns são até ex-funcionários. Eu não consigo fazer com que toquem um repertório clássico dessa forma”, ressalta Silvio Trajano Contart, presidente da OSRP. Além das apresentações, a instituição desenvolve trabalhos sociais em escolas da periferia.
Um dos projetos é o “Tocando a Vida”, que oferece aulas de canto, música e instrumentos musicais para comunidades carentes em Ribeirão Preto e região. A Orquestra está com novidade este ano: a nomeação de Reginaldo Nascimento como Maestro Titular. Em fevereiro, ele regerá concertos pela Europa, em cidades como Roma, Faenza, Berlim, Leipzig, Edimburgo e Milão. A agenda de 2019 está repleta de atrações para o público e a ideia é diversificar as apresentações, por exemplo, com espetáculos de ballet e concertos temáticos. Em uma conversa, quase que em forma de apelo, Silvio relatou à Revide as maiores dificuldades da instituição para difundir a música erudita e ganhar mais destaque no setor artístico.
Conte um pouco sobre sua trajetória. Como você chegou à Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto?
Não sou músico e, sim, arquiteto urbanista. Hoje, tenho duas empresas. Sempre gostei de música, fiz pós-graduação em Filadélfia, nos Estados Unidos, e morava bem ao lado da academia musical, uma espécie de Theatro Pedro II de Ribeirão Preto. Tenho influência da família, que sempre ouviu música erudita, e ainda sou filho de pai italiano. Quando voltei ao Brasil, vim morar em Ribeirão Preto e procurei a Orquestra para me cadastrar como sócio. Depois, fui vice-presidente e estou como presidente há três anos.
Como está a situação financeira da Orquestra, atualmente?
No fim de 2017, conseguimos fazer uma arrecadação por meio da Lei Rouanet (LR). Tínhamos um projeto de R$ 3 milhões, porém, conseguimos arrecadar R$ 1,5 milhão. Com o dinheiro, quitamos parte dos salários atrasados. Em contrapartida, este ano, nossa arrecadação de LR reduziu para R$ 1 milhão. Assim, não foi possível pagar as contas de 2016, 2017 e 2018. Tenho até vergonha de dizer, mas, hoje, preciso de cerca de R$ 6,5 milhões para resolver o problema.
Em termos de bilheteria, falta público para prestigiar as apresentações musicais?
Acho que não é só um problema nosso e sim da cultura em geral, que vem perdendo cada vez mais público. As pessoas ficaram preguiçosas e não querem buscar informação. Um número muito restrito de indivíduos procura agenda cultural e sei disso porque frequento eventos no Sesc, no Teatro Municipal e em outros espaços. É sempre o mesmo público. A cultura perdeu penetração. Não temos uma sociedade de massa participando de eventos culturais e sim um pequeno grupo atuante.
Os músicos possuem salário fixo?
Os 25 músicos que ficaram têm carteira assinada. Pagamos da forma correta e, muitas vezes, ficamos devendo para os funcionários. Acontece também de termos que parcelar contas de um ano para outro. Já os encargos, eu divido para pagar futuramente. Antigamente, tínhamos mais patronos, contudo, foram diminuindo com o passar do tempo. A entidade, sem fins lucrativos, mantida pela Associação Musical de Ribeirão Preto, vive de vários patrocínios. Como eu disse, há os sócios, que contribuem com um valor mensal. Sendo assim, eles têm direito a informações de atividades da Orquestra, bem como ganham ingressos para os eventos oficiais no Theatro Pedro II. Existem os patronos, com maior poder aquisitivo ou pessoas jurídicas que entregam um valor acima de um salário mínimo por mês.
Qual a despesa mensal da Orquestra?
Nossos gastos chegam a R$ 200 mil por mês e, às vezes, a R$ 250 mil. Devido às dificuldades financeiras, o número de integrantes da Orquestra diminuiu. Uns pediram demissão, outros encontraram uma colocação melhor. Reduzimos nosso número pela metade. Já tivemos cerca de 60 músicos e, agora, contamos com 25. Desta forma, precisamos completar a Orquestra com ex-funcionários. Eu não consigo fazer com que toquem um repertório clássico seguindo por esse caminho.
Além das apresentações, que tipo de projeto é desenvolvido na OSRP?
Temos projetos de música em escolas da periferia, trabalhamos com formação de canto-coral e fazemos apresentações gratuitas, em entidades filantrópicas, para auxiliar na arrecadação de recursos financeiros. Tocamos em orfanatos, em casa para idosos, já fizemos parcerias com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Esse é um trabalho de formação da cultura musical. Essa é a questão: fazer com que a sociedade veja que nosso trabalho é importante e de muito comprometimento.
Como você enxerga a cultura no Brasil, atualmente?
Perdemos muito a capacidade de divulgação da cultura, dos valores culturais no ensino da escola, que, em certos casos, não tem curso de música, nem teatro ou dança. Sempre tentamos envolver manifestações culturais em nossos concertos, por exemplo, colocamos canto, instrumentos, dança ou espetáculos de balé. Queremos criar uma situação diversificada.
Falta que tipo de incentivo para que mais pessoas conheçam e apreciem a música erudita?
A informação é muito importante. Há assuntos na mídia que ganham mais ou menos destaque. Existe uma letargia por procurar informação. Por outro lado, o bombardeio é tanto que não há tempo de escolhas, elas são feitas de acordo com o que chega para cada um. Estamos tentando entrar nessa comunicação e colocar mais nas mídias sociais a divulgação de nossos concertos.
Apesar do panorama financeiro desfavorável, você está otimista para 2019?
Se a economia melhorar, a tendência é que essa situação se resolva também. Tudo depende da reação. É como na pescaria: você escolhe o lugar certo, joga a isca e depende um pouco do peixe. Temos um projeto grande, queremos conseguir que 100 empresas paguem 1000 reais por mês à Orquestra.
Texto: Bruna Romão Foto: Júlio Sian