Agentes de transformação

Agentes de transformação

Em entrevista a Paola Miorim, Marcelo Borges apresenta o Programa Jovens Transformadores, que objetiva contribuir para a formação de líderes focados em mudanças positivas na sociedade

Inquietos, criativos e realizadores. Para o administrador e empreendedor, Marcelo Borges, essas são as principais características que definem os jovens atuais. Segundo ele, esta geração tem uma nova mentalidade, preparada para abraçar projetos nada convencionais. Muitos deles buscam atuar em atividades que, além de trazerem um crescimento profissional, impactam positivamente na sociedade de alguma forma. Trata-se do chamado empreendedorismo social.

O ritmo frenético da sociedade, com pressão e muita cobrança, é um dos elementos responsáveis pelos índices crescentes de estresse e de ansiedade. Sendo assim, técnicas e projetos capazes de promover o crescimento pessoal e profissional têm sido cada vez mais valorizados. Aos 25 anos, Marcelo busca uma forma de contribuir com a reflexão sobre o necessário autoconhecimento e, consequentemente, ajudar a desmistificar o mercado de trabalho para jovens profissionais.

Em 2014, junto com alguns amigos, o administrador fundou o Programa Jovens Transformadores (PJT), um projeto que discute política, habilidades pessoais, economia solidária e criativa, empreendedorismo, terceiro setor, sustentabilidade, valores humanos e outros temas voltados à vida em equilíbrio. Foram assuntos como esses, que envolvem inovação, criatividade e a busca pela reflexão, que uniu os projetos da palestrante e consultora de MKT Digital e Estratégia de Negócios, Paola Miorim, que também é co-fundadora do Movimento Empreende Ribeirão (MOVER), da comunidade Moinho Semente – Educação Transformadora e da Rede Bambu de Mulheres Empreendedoras, onde atua com consultorias gratuitas para mulheres.

Paola está constantemente envolvida com projetos relacionados a novos negócios, assim como Marcelo. Tanto que os dois, que são amigos, já atuaram juntos em diversos programas com envolvimento colaborativo. Na entrevista concedida a Paola, Marcelo pontua que, atualmente, enxerga nos outros jovens uma inquietação quando o assunto é buscar uma vida com mais sentido. Segundo o administrador, contribuir com quem tem esta mesma visão é o foco do PJT.

Paola: Como você chegou ao Programa Jovens Transformadores?
Marcelo: Sempre fui um jovem normal, que gostava de sair, beber com os amigos e namorar. Entretanto, há algum tempo me questionava sobre meus valores e propósitos. Comecei a pesquisar sobre diversos assuntos com os quais me identificava. Em 2013, meu pai faleceu em decorrência de uma doença e, com isso, meu irmão Rodrigo e eu tivemos que assumir algumas responsabilidades, o que tornou mais forte a minha vontade de criar um projeto que unisse meu momento de reflexão com assuntos relacionados ao autoconhecimento, ao terceiro setor, ao empreendedorismo e à educação. Foi frequentando núcleos que trabalham com esses temas que reencontrei o Daniel Bellíssimo, que já havia, junto com Luis Fernando Iozzi, desenhado um programa educacional para jovens com essas vertentes. Ao lado de outros organizadores, começamos a construir o Programa Jovens Transformadores.

Paola: Como o programa foi formatado?
Marcelo: A ideia, inicialmente, surgiu com o Daniel e o Luiz, que queriam criar um projeto com jeito jovem, dinâmico e divertido, mas, ao mesmo tempo, com profundidade e seriedade. Por conta da visão em comum, o Lucas, a Carol e eu, que também estávamos cheios de vontade de trabalhar com educação para jovens, unimos forças para concretizar o projeto. O PJT busca discutir assuntos complementares à educação tradicional. A nossa maior inquietação era que, na educação formal, não havíamos tido contato com disciplinas que estimulassem os valores humanos, o autoconhecimento, a cidadania, o voluntariado, o interesse pela política ou a construção de uma carreira feliz. Por esse motivo, o programa foi consolidado com um curso modular e oficinas temáticas de formação humana e cidadã, que buscam auxiliar pessoas que queiram ser líderes e impactar positivamente no mundo.

Paola: Quem são as outras pessoas envolvidas no programa?
Marcelo: O Jovens Transformadores foi idealizado por pessoas envolvidas em causas sociais e profissionais que compartilham do mesmo intuito: impactar o mundo. Somos uma equipe de facilitadores, que pretende criar ambientes favoráveis à autopercepção e ao aprendizado prático. Outros colaboradores do programa são: Daniel Bellíssimo, empreendedor, consultor, e co-fundador do Centro de Voluntariado Universitário e da CoLabora, incubadora tecnológica de empreendimentos solidários; Caroline Rodas, administradora, social media e fundadora da organização FaceMKT, empreendimento solidário focado em marketing digital; Lucas Battistetti Campos, formado em administração de empresas com especialização na área de marketing e fundador da Kausa, e Luís Fernando Iozzi, mestre em sociologia com formação em Administração Pública e um dos idealizadores do Observatório Cidadão de Piracicaba, iniciativa premiada nacional e internacionalmente.

Paola: O que motivou você e seus colegas a criarem um programa como esse? As vivências pessoais interferiram nisso
Marcelo: Todos os facilitadores passaram por momentos de questionamento na vida pessoal, profissional e educacional. Em algum momento, sentimos falta de opções formativas que incluíssem a questão humana, social e cidadã em relação à nossa atuação na sociedade. Durante esse processo, nasceu a vontade de criar algo para contribuir, de alguma forma, para a formação de jovens. A vontade era tamanha que resultou em uma sincronia entre nós, unindo os sonhos para serem materializados no PJT.

Paola: Como funciona o PJT?
Marcelo: Trabalhamos duas vertentes principais, sendo elas internas e externas, e, claro, a junção desses dois âmbitos. Internamente, atuamos na criação de ambientes favoráveis ao desenvolvimento pessoal dos participantes, no sentido do fortalecimento de valores humanos, do equilíbrio interno e de habilidades socioemocionais necessárias ao convívio em sociedade. Já externamente pontuamos formas de impacto positivo que cada um de nós pode ter no entorno, seja através do exercício da cidadania ou por meio de nossas profissões. Unindo teoria e prática, o programa se divide em um Curso Modular e Oficinas Temáticas. Durante os módulos do Curso, são realizadas palestras, oficinas, vídeos, dinâmicas e debates durante cinco finais de semana, em imersão no Recanto Bossa Nova. Entre um módulo e outro, há um intervalo de aproximadamente dois meses. Já as Oficinas Temáticas são construídas para serem aplicadas em diversos ambientes, como escolas, cursos universitários, entre outros. Agora, estamos planejando levar o PJT para outras cidades. O público do programa é, normalmente, formado por jovens de 18 a 30 anos, mas estamos abertos a pessoas de todas as idades, principalmente, no caso das Oficinas Temáticas.

Paola: Como vocês definiram as matérias e vivências que compõem o programa e quais foram as referências e os objetivos que levaram em conta?
Marcelo: Buscamos inspiração em diversos autores e cursos distintos. Posso citar alguns deles, como João Roberto de Araújo e seu trabalho com educação emocional, e o Instituto Sathya Sai Baba, que utiliza a linha de educação em valores humanos e, juntamente com outras experiências em retiros e cursos, fundamentam a construção das vivências em nosso eixo interno, de desenvolvimento pessoal. Na linha de desenvolvimento na sociedade para gerar impacto positivo, nosso embasamento foi encontrado no trabalho de Leonardo Boff, com seus conceitos de concidadania; Paulo Freire e seu ideal de uma educação libertadora; José Pacheco, educador que vem implementando modelos de educação democrática e participativa em escolas do Brasil e de Portugal, com protagonismo dos educandos, e Muhammad Ynus, ganhador do Prêmio Nobel, entusiasta do empreendedorismo social que defende a ação humana através de empreendimentos sustentáveis em todos os níveis (econômico, ambiental e social) para a superação das problemáticas sociais. Assim, pretendemos criar ambientes que despertem nos jovens o autoconhecimento, as habilidades socioemocionais e as ferramentas que os colocarão como agentes de transformação positiva em quaisquer foros.

Paola: Qual o grande diferencial do PJT?
Marcelo: Geralmente, encontramos projetos que trabalham apenas o âmbito interno ou externo. No programa que desenvolvemos, conseguimos fazer essa junção de valores. Além disso, o programa objetiva criar ambientes de aprendizagem colaborativa, onde o conhecimento é construído de forma individual e também coletiva, (re)descobrindo aprendizados, experiências e sensações. Exploramos o conhecimento por meio do caminho das experimentações e das vivências. Também propiciamos aos participantes um conjunto de ferramentas práticas que contribuem na formação de um agente de transformação social. Durante os encontros, vivenciamos palestras, oficinas, vídeos, dinâmicas, atividades artísticas e debates.

Paola: O PJT é um programa de formação diferenciada. Você acredita na necessidade de revermos nosso modelo de educação para nos conectarmos às crianças e aos jovens de uma maneira mais eficaz?
Marcelo: Recentemente, assisti a uma palestra de José Pacheco em que ele expôs a seguinte opinião: "temos uma sala ocupada por jovens do século XXI tendo aula com professores do século XX, com metodologia dos séculos XVIII e XIX". Eu concordo com essa colocação, no entanto, já existem muitas pessoas revendo essas metodologias. Acredito que o PJT vem para somar nessa busca por uma educação mais atual. Infelizmente, a educação tradicional parou no tempo. A maioria das escolas somente está preocupada em preparar os alunos para o vestibular e para resolver questões no nível teórico, o que também é importante, mas esquecem de criar momentos formativos que trabalhem as questões humana, social e cidadã. Isso também ocorre nas universidades, cujo principal objetivo é formar jovens para o mercado de trabalho em um nível técnico. Ambas esquecem de criar ambientes nos quais os alunos possam se questionar sobre sentimentos, valores, sonhos, etc. Não fomos ensinados a olhar para nós mesmos, a sermos autocríticos, a pensar de forma colaborativa, a buscar autoconhecimento, a entender o nosso papel como cidadão no mundo, a pensar sobre o nosso propósito.

Paola: O curso modular do PJT acontece em um ambiente muito diferente de uma sala de aula. Isso é proposital?
Marcelo: Sim, pois o conhecimento não é adquirido pelos participantes de forma passiva, mas é construído junto com os facilitadores e o grupo. Precisamos de um ambiente mais dinâmico e acolhedor. Acreditamos que estar em imersão de sexta a domingo, com mais 20 jovens, em um espaço cheio de natureza, discutindo sobre temas tão importantes é um catalisador do desenvolvimento humano, social e cidadão dos participantes.

Paola: O que leva pessoas tão jovens a procurarem um programa de educação como esse.
Marcelo: Acreditamos que seja a mesma inquietação que nos fez criar o programa: de buscar um ambiente onde existam outros jovens que queiram descobrir um propósito mais significativo, que queiram aprender ferramentas e se autoconhecerem para, de alguma forma, gerar um impacto positivo no mundo. Quem quiser participar do programa pode se informar melhor por meio da conversa aberta que acontecerá no dia 2 de setembro, no Recanto Bossa Nova e no dia 9 de setembro, às 19h, na rua Abrahão Issa Halach, 980 ou acompanhar as novidades através do site www.jovenstransformadores.org e da rede social facebook.com/jovemtransformador. Nosso email para contato é [email protected]. O primeiro módulo da 2ª turma do Programa em Ribeirão Preto está marcado para os dias 2, 3 e 4 de outubro.

PROTAGONISTA DE MUDANÇAS

“Por causa da minha atuação no MOVER, tenho contato direto com empreendedores de todas as idades e perfis. Algumas vezes, um projeto ou uma startup me chama mais a atenção e esse foi o caso do Programa Jovens Transformadores, que me surpreendeu logo que conheci. Toda a equipe é formada por profissionais diferenciados e focados em nova economia, colaboração e impacto social. Além disso, admiro muito o Marcelo por sua busca pelo autoconhecimento e pela evolução constante, e também pela consciência do impacto de suas atitudes na vida em sociedade. Saber mais sobre o PJT e conhecer mais de perto esse jovem foi inspirador para mim.”
Paola Miorim, palestrante e consultora de MKT Digital e Estratégia de Negócios.

Texto: Pâmela Silva
Fotos: Júlio Sian

FAÇA A DIFERENÇA!

Confira os depoimentos dos outros facilitadores do Programa Jovens Transformadores que apresentam um novo jeito de ver as coisas, as relações e também o trabalho.

CAROLINE RODAS

"Acredito que o Programa Jovens Transformadores vem a contribuir para a formação e transformação do ser integral, por se tratar de um programa que envolve tanto o lado interno como o externo. Todos nós passamos por aquele momento de questionamentos, incertezas, independente da fase da vida, acredito que o programa vem a contribuir nessa busca pelo nosso propósito de vida que nos fortalece para os aprendizados e desafios da nossa jornada".

DANIEL BELISSIMO

"O Programa Jovens Transformadores (PJT) nasce para mim a partir de um chamado da minha alma, do meu coração. Em toda minha educação formal até hoje, no ensino médio e graduação, senti falta de elementos que trabalhassem minhas emoções, valores humanos e práticas cidadãs. Senti falta de ter maior voz em espaços para discussão, de discutir possibilidades empreendedoras e de construção de uma comunidade melhor. Após realizar descobertas em cursos extracurriculares, em projetos sociais, após empreender, trabalhar em empresas tradicionais, depois no terceiro setor e com economia solidária, enfim, após uma certa trajetória que me ligou no meu sonho (trabalhar com desenvolvimento humano e comunitário), no PJT junto aos outros organizadores conseguimos criar esse ambiente: jovens unidos em imersão, focando seu desenvolvimento enquanto seres humanos, e possibilidades para gerarem um impacto positivo na sociedade, seja como cidadãos ou profissionais".

LUIS FERNANDO IOZZI

“O Programa Jovens Transformadores explora diversas formas que nos ajudam a impactar de forma positiva a sociedade e a nós mesmos. Sabemos que não existe fórmula que faça do mundo um lugar melhor, mas existem práticas e valores que devem ser compartilhados e difundidos”.

LUCAS BATTISTETTI CAMPOS

“Desenvolver habilidades sociemocionais que possibilitem um participação mais ativa e que envolva necessidades de todos é extremamente algo a ser levado em conta, tanto para o bem estar do indivíduo, que se sente mais conectado e pertencente ao meio, como para o desenvolvimento sustentável da sociedade como um todo. Essas habilidades e a atuação no meio em que vivemos são o foco do PJT”.

 


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