Agora é que são elas
Esqueça a figura dos homens ricos e engravatados no comando das empresas: as mulheres ganharam espaço e se destacam como empreendedoras no mercado
Quando se fala em empresário, para muitos, a figura que vem à cabeça é aquela do burguês, de terno e gravata e um charuto na boca. Porém, a maioria do empresariado do Brasil passa longe dessa caricatura. Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 98,5% do total de companhias do país é formado por micro e pequenos empreendedores. Em uma nação de maioria feminina, não é raro encontrar uma mulher no comando do próprio negócio. Ser empresário deixou de significar, necessariamente, ser um homem branco e milionário. Muito pelo contrário: em Ribeirão Preto, as mulheres já representam quase a metade entre todos os microempresários.

Em 2015, Alana Paiva Pieronti perdeu o emprego de recepcionista. Para compor um cenário mais complicado, ficou grávida logo em seguida. Foi quando teve uma ideia que uniria o útil ao
agradável: pensando em passar mais tempo próximo da filha, auxiliar na educação alimentar da pequena e lucrar com isso, Alana inaugurou a LariVeg, um projeto familiar com o intuito de propagar o vegetarianismo. Atualmente, o negócio é a principal fonte de renda da família. A proprietária da Lariveg conta que, logo que perdeu o emprego, resolveu fazer alguns pratos vegetarianos para vender. “Pedi ajuda a minha sogra, que é cozinheira. Ela me passou dicas, além de algumas receitas, e comecei a caminhar com as minhas próprias pernas. Pesquisei bastante e fui aperfeiçoando meu cardápio. Hoje, tenho mais de 20 pratos à disposição”, relembra a microempreendedora que se arriscou a partir do talento, sem nunca ter feito qualquer curso de gastronomia.
O exemplo de Alana é só um dentre os vários casos de mulheres que perderam o emprego em plena crise e precisaram se virar para garantir algum dinheiro. Atualmente, as empresas voltam a crescer ainda de maneira tímida. Como dito no jargão econômico, é um “crescimento para o lado”. Isto acontece quando o mercado expande para retornar ao mesmo patamar que possuía antes da queda. Dentre as dez cidades que mais possuem empresas no Estado de São Paulo, Ribeirão Preto ocupa a quarta colocação, atrás somente da Capital, Campinas e Guarulhos, respectivamente. Contudo, entre as dez primeiras, Ribeirão apresentou um crescimento um pouco mais lento, ficando na sétima posição. Entre 2016 e 2017, o crescimento no número de empresas ativas foi de 12,8%, e, de 2017 para 2018, foi de 7,39%. A que mais cresceu foi Sorocaba, com 14,78% na primeira amostragem e 9% no último ano.
DIFERENTE E PARECIDO

Nanie Aguirre trabalhava como vendedora em um shopping da cidade, cuidava do filho e morava na casa da mãe. Porém, a situação começou a piorar quando ela perdeu o emprego e teve de sair da casa onde morava. Sozinha, com um filho para criar e com dificuldade para retornar ao mercado de trabalho, Nanie decidiu arriscar e empreender.
Ela cresceu na periferia de São José dos Campos, na região metropolitana de São Paulo. Lá, ainda na escola fundamental, aprendeu a bordar com uma professora que lecionava as aulas aos finais de semana. Anos mais tarde, as aulas acabaram sendo muito úteis. “Meu ateliê fica dentro do meu quarto. É lá que eu faço meus bordados em roupas, panos de prato, flâmulas, ecobags, necessaire, brincos, e o que mais eu consiga bordar. Tudo é feito à mão e procuro unir o bordado e a militância dentro do que eu acredito” comenta.
Atualmente, o bordado é a única fonte de renda de Nanie, que sustenta o filho de seis anos. Contudo, segundo ela, há quem ainda não compreenda a causa por trás da atividade. “Minha militância com os bordados veio junto com a vontade de empoderar outras mulheres e as outras minorias. Ver que elas se identificam e se sentem representadas pelo trabalho é algo muito importante não só pra mim. Eu sei que tenho um público um pouco restrito, pois toda vez que você se posiciona politicamente e demonstra levantar a bandeira de algumas causas e movimentos sociais você se restringe um pouco, mas acredito que seja de extrema importância discutir política e pautar questões raciais e de gênero”, conclui.
Apesar de grande parte das pessoas empreenderem por necessidade, também existem bons negócios surgindo de hobbies e sonhos. Isadora Isaac Sverzut é proprietária da Cheirinho de Arte, uma microempresa que comercializa aromatizadores com base em óleos essenciais com princípios ativos naturais. Isadora conta que a mãe, que é fisioterapeuta, sempre comprou óleos, sais de banho para esfoliação e sabonetes especiais. “Sempre gostei muito desses produtos que mexem com o olfato. No começo, eu reutilizava o que minha mãe comprava, fazendo as minhas próximas misturas, e o interesse só foi crescendo”, relembra.

O que começou como hobby se tornou um projeto bem estruturado na vida da empreendedora. Apesar disso, mesmo após regularizar toda a parte burocrática da empresa, Isadora ainda não consegue retirar lucro suficiente que sirva como única fonte de renda — e admite que este não é o intuito no momento. “Tudo o que eu faço na Cheirinho não é visando a um lucro enorme a curto e médio prazo, mas, sim, para que eu possa conciliar minhas pesquisas em aromaterapia e estruturar um negócio para o futuro”, explica Isadora.
CAMINHO TORTUOSO

Uma das figuras que ganharam mais visibilidade diante da crise — e com as temperaturas mornas nos motores da economia — foi a do microempreendedor. De acordo com o Sebrae, existem três perfis dentro das micro e pequenas empresas no Brasil: o Micro Empreendedor individual (MEI), com uma receita bruta anual de até R$ 60 mil, a Microempresa, com receita de R$ 60 mil a R$ 360 mil ao ano, e a Pequena Empresa, que arrecada de R$ 360 a R$ 3,6 milhões ao ano. O economista do Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto (Sincovarp), Marcelo Bosi Rodrigues, considera que o número elevado de pequenos empreendedores é um reflexo não apenas da crise, mas da carga tributária do país que nivela por baixo o tamanho das empresas. “A crise no país fez 13 milhões de desempregados. Porém, só é considerada desempregada aquela pessoa que está procurando emprego. As que já desistiram ou foram para a informalidade não são somadas”, comenta. Para ele, seguindo a mesma lógica, o número de microempreendedores informais também pode ser maior. Porém, muitos empresários optam por não aumentar o tamanho da empresa justamente para não serem pegos pelo fisco.
Texto: Paulo Apolinário
Fotos: Julio Sian e Arquivo Revide