Além das repúblicas

Além das repúblicas

Universitários aquecem a economia de Ribeirão Preto e movimentam estabelecimentos da cidade

A tarde pedia uma cerveja gelada e Marcos Dela Marta, a esposa e o filho se preparavam para abrir as portas do estabelecimento. O conhecido Bar do Marcão, um dos bares mais frequentados pelos universitários de Ribeirão Preto, começou como uma mercearia em 1972, segundo Marcos. “A mercearia vendia tudo: prego, sal, arroz, feijão, batata, tudo. Era uma venda, mesmo. Eu assumi em 1984. Ele saiu, eu fiquei um ano, depois fui para os Campos Elíseos. Fiquei sete anos nos Campos Elíseos, depois fui para a Vila Tibério, depois voltamos e recomeçamos como lanchonete”, lembra-se Marcos, ao lado do filho, Marcos Vinícius Dela Marta e da esposa, Rúbia Heloísa Diniz Dela Marta.
Marcos Dela Marta e a família administram o Bar do Marcão, fundado em 1984. Na foto, Marcos Dela Marta, a esposa, Rúbia Heloísa Diniz Dela Marta, o neto Benício Dela Marta Lima e o filho Marcos Vinícius Dela Marta
Tudo começou por brincadeira. “A gente fazia lanche para nós, porque saíamos daqui e íamos comprar para comer em casa. Como os lugares sempre estavam fechados, minha esposa pôs uma chapa. Éramos só eu e ela, os meninos eram pequenos. Todo mundo começou a pedir lanche, também. Na época, não tinha nem moto para entrega”, comenta Marcos. 

No início, ele entregava os pedidos com a própria moto. Assim que as coisas melhoraram, o casal adquiriu uma moto nova e, enquanto Rúbia comandava a cozinha, Marcos assumia as entregas. Com a fama, a lanchonete se tornou um bar, e aí chegaram os estudantes. “Um falou para o outro e juntou todo mundo. Há uns dez, a turma de Física Médica da USP começou a frequentar. Vieram os amigos, fomos fazendo amizade e crescemos com eles. Graças a Deus deu certo, hoje 90% do público é de estudantes”, conta Marcos, que diz que apesar da proximidade com o campus da USP – o bar fica no Jardim Antarctica –, alunos de universidades de toda a cidade frequentam o estabelecimento. 
Os universitários são os principais clientes da taxista Lucimara Roriz Nassaro
Nem só os bares têm nos universitários uma das principais fontes de renda. Lucimara Roriz Nassaro é taxista e os estudantes são os maiores clientes. Por valores fixos no mês, Lucimara faz corridas do dia a dia para os universitários, buscando-os em casa e levando-os ao trabalho e à faculdade. “Sou taxista bem antes dos aplicativos chegarem à cidade. A maioria dos meus clientes é formada por estudantes. Tenho corridas agendadas a semana inteira, levo ao trabalho e depois busco para deixar na faculdade. As festas também são frequentes. Como já me conhecem, eles entram em contato comigo direto, pois já adquiriram uma certa confiança em mim”, analisa a taxista. 

Vida nova

Chegar a uma cidade nova e lidar com responsabilidades e burocracias como a de alugar um lugar para morar é só uma entre tantas tarefas dos estudantes recém-admitidos nas universidades. Repúblicas, moradias oferecidas pelas próprias instituições e pensionatos estão entre algumas das alternativas encontradas, porém, a divisão do aluguel de casas e apartamentos lidera.

Para facilitar essa empreitada, a imobiliária Santa Maria conta com um serviço especial para os universitários. “A Santa Maria sempre foi uma grande parceira dos universitários. Há anos escutamos as solicitações e necessidades, pois sabemos que ingressar em uma faculdade é um momento único para todos nós. Tentamos fazer dessa conquista uma experiência única e, por isso, separamos a dedo os imóveis que ficam perto das faculdades. Criamos condições em que o universitário não precisa comprovar renda na hora de alugar, entre outras facilidades”, explica Sérgio Valente, diretor da Santa Maria. 

Segundo ele, as regiões próximas às faculdades e o centro são as mais procuradas. “Facilita a locomoção dos estudantes que não têm carro. Se o imóvel é próximo à faculdade, então o estudante procura encaixar dentro do seu orçamento ou dentro do orçamento que a família tem”, completa o empresário. Ele ressalta, ainda, que no início do ano há a maior procura pelos imóveis, e que a imobiliária preza por facilitar a vida do estudante. “Tudo isso foi criado com o objetivo de agilizar o processo de locação e fazer desse momento de mudança na vida do universitário um momento prazeroso e não estressante”, completa Sérgio.

Estudante do último ano de Fonoaudiologia da USP, Paula Sanches conseguiu uma vaga na moradia estudantil do campus desde que ingressou no curso. “No começo, eu vim completamente com a cara e a coragem, porque ninguém da minha família havia se mudado de cidade, e todos os meus primos e irmãos, fazem faculdade em Catanduva, minha cidade natal. Então eu não tinha muito conhecimento. Vim com a minha mãe, me informei, porque no terceiro colegial eu fiquei sabendo que tinham moradias aqui na USP. Já fiquei aqui direto, o que a gente chama de apoio emergencial, e, desde então, moro aqui”, explica a estudante. 

No dia a dia, Paula frequenta o bandejão da universidade. “Vou bastante a festas universitárias e gosto muito de barzinho. Quase toda semana vou a bares do centro”, aponta Paula. Aos finais de semana, ela recorre aos shoppings próximos dos locais em que marca os compromissos. “Apesar de morar no campus, eu também dou aula de xadrez e, aos finais de semana, vou bastante aos shoppings e como comida japonesa”, explica Paula.

Quando o assunto é transporte, tem de haver equilíbrio entre a economia e a segurança. A estudante, quando trabalhava, já chegou até mesmo a fechar com um motorista de táxi para fazer o transporte da moradia para o trabalho em segurança e com agilidade. “Sempre que é viável andar de ônibus, que a rota é rápida e segura, eu vou de ônibus. Se eu estou um pouco atrasada e fica difícil de pegar o transporte público, eu vou de Uber”, finaliza Paula.

Impulso econômico

Para o consultor e mestre em Administração pela Faculdade de Economia da USP Valdir Domeneghetti, os benefícios que uma cidade pode ter por receber universitários vão além da movimentação de pequenos negócios. Segundo ele, os estudantes atraem investimentos de grandes empresas nacionais e até estimulam a geração de empregos e a especialização de mão de obra. “Principalmente em cidades pequenas e médias, há um aumento considerável da população flutuante — aquela que não é captada pelo censo, mas reside eventualmente no município, característica dos estudantes das cidades universitárias. Por esse motivo, acabam atraindo franquias de grandes marcas de departamentos ou consumo, aumentando a arrecadação dessas cidades com os impostos adicionais gerados por esses negócios. Há, também, em consequência, um maior fluxo de pessoas de cidades menores circunvizinhas, que são atraídas pelas novidades, ou seja, promove-se um círculo virtuoso”, explica o consultor.

Segundo Valdir, o público-alvo representado pelos universitários forma um nicho de mercado que a maioria dos segmentos de negócios tem interesse, o que faz com que as empresas invistam na qualificação e na especialização da mão de obra. Com o aumento da demanda por produtos e serviços, a geração de empregos também cresce. “Nas cidades universitárias há aumento do número de prestação de serviços como academias, cursos livres, lavanderias, assistência técnica em dispositivos móveis como celulares, tablets e notebooks, além de entretenimento como bares, restaurantes, shows, festas temáticas e produtos de consumo destinados a esse público-alvo. Ressalta-se, também, o fato de que o segmento de serviços é um dos que respondem mais rápido à geração de empregos e necessitam de pessoas capacitadas para realizarem as funções, qualificando a mão de obra local”, finaliza o especialista.

JOGOS AQUECIDOS
Foto: Indie click
Os jogos universitários também costumam movimentar as cidades que os recebem. As competições podem acontecer de várias formas: entre o mesmo curso de várias universidades, entre universidades diferentes, entre campi da mesma universidade e entre cursos de uma universidade. Em Ribeirão Preto, o Inter Unaerp é realizado entre os cursos da universidade e conta com diversos patrocinadores a cada ano, além do apoio da própria instituição. 

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