Além dos limites

Além dos limites

Há 28 anos atendendo a crianças e adultos com paralisia cerebral, o Cantinho do Céu comprova que para o amor não há barreiras

Basta olhar ao redor para sentir a presença do amor por todos os lados: no toque, no gesto, no olhar, na fala mansa. Um ambiente claro, recém-pintado, com música, sala de TV, ambientes e corredores rigorosamente limpos, áreas externas bem cuidadas. Nas paredes, a história da vida que se reafirma em cada retrato dos que ali habitam. O jardim, como todo o resto, reflete o capricho e o zelo de quem procura, nos mínimos detalhes, mostrar ângulos mais belos e suaves do dia a dia para aqueles que têm uma série de limitações. Por todos os lados, vê-se a movimentação constante de profissionais e de voluntários atentos a cada som, a cada gesto e a cada grito. Para quem não fala e convive com graves barreiras motoras, mudanças, por mais tênues que sejam, podem ser um sinal de bem ou de mal-estar.
Esse é o cotidiano do Cantinho do Céu, uma Instituição que abriga 49 pessoas com paralisia cerebral. Desse total, apenas nove passam os finais de semana com a família ou com os pais de coração, como chamam os voluntários que doam parte do seu tempo e do seu afeto a crianças e adultos, que não têm com quem contar.

Foi justamente um ato de doação que deu início a essa história. Ao perder a mãe, a pequena Elaine teve no seu caminho a chegada de Sônia Ponciano, de quem recebe cuidados desde então. Ao procurar ajuda, Sônia conheceu a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e outras crianças com problemas semelhantes ao da menina, que requeriam cuidados especiais. “Fazer esse trabalho foi uma oportunidade que ganhei de Deus, uma experiência que eu não podia deixar passar. Quando conheci outras crianças, formamos um grupo. A creche teve início no dia 5 de setembro de 1983, com um funcionário e quatro crianças em dois cômodos”, conta a fundadora do Cantinho do Céu, que cuida da Instituição e de Elaine, com quem mora até hoje.

Segundo a assistente social Aparecida de Oliveira Mendes, a Instituição conta com a subvenção da Prefeitura de Ribeirão Preto e de outras cidades da região, mas a verba direcionada não chega a 20% do necessário para manter a entidade. “Os internos e semi-internos precisam de serviços especializados, cada um custa, em média, R$ 2 mil ao mês. Vivemos de bazares de roupas, de móveis, de eventos e de doações espontâneas”, explica. Por meio de voluntários e parceiros, são oferecidos tratamento odontológico, médico, equoterapia, nutrição, fisioterapia, fonoaudiologia e hidroterapia às crianças e aos adultos.

Atualmente, o Cantinho do Céu conta com mais de 60 funcionários e um cadastro de 300 voluntários, do qual seis contribuem efetivamente. A dona de casa Clélia Marisa Poggi Garcia faz parte desse quadro. Apesar dos três filhos adultos, após o falecimento do marido, decidiu “adotar de coração” Marquinhos, a quem visita todas as quartas e sextas-feiras. “A história dele me tocou porque ele não tem família, ninguém se importava com ele. Mas gosto de todos, cada um tem seu encanto. Achei que conseguiria preencher esse vazio se tivesse algo para dividir com alguém. E não há nada melhor do que dividir amor com essas crianças. Minha história com elas é recente, mas o que sinto parece de anos. Hoje, ao olhar para elas, não vejo mais deformidades. Para mim, são crianças normais”, afirma.

A técnica em enfermagem aposentada, Ana Cristina Pereira Jardim, encantou-se pela pequena Tábata há nove anos, a quem leva para sua casa às sextas-feiras para passar o final de semana com sua família. Mas percebeu que poderia ajudar mais: resolveu adotar como filho do coração o pequeno Cleilton, de dois anos e sete meses, que convive com ela de segunda a quinta-feira. Mas Ana auxilia também as outras crianças que precisam, levando-as ao médico. “Essas crianças me ensinaram muito. Estamos acostumados a reclamar de coisas banais, mas conviver com elas muda nossa forma de pensar. Eu era uma pessoa muito triste. Depois que conheci a Tábata, passei a ser uma pessoa bem melhor: sofremos e compartilhamos tudo. Já não consigo mais viver sem o Cantinho do Céu”, conclui.

Quem tiver interesse em ajudar a instituição, pode fazer um depósito na conta 5715-0, do Banco do Brasil (agência 028-0) ou entrar em contato pelos tels.: (16) 3622.4543 e 3622.0853

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian

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