Alerta na via

Alerta na via

Ruas, avenidas e rodovias de Ribeirão Preto contabilizam uma morte a cada quatro dias e especialistas debatem causas e soluções para a situação

Ostentando a quinta maior frota do estado de São Paulo, com um total de 530.711 veículos, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), Ribeirão Preto sofre consequências de tanta imponência nas vias. De acordo com o Infosiga, do Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, uma pessoa morre a cada quatro dias no trânsito da cidade.

Ao todo, em 2018, 92 pessoas perderam a vida em razão de acidentes na cidade. A quantidade de mortes, contudo, pouco mudou nos últimos quatro anos, revelando um problema crônico no município. 
Segundo Maurício Godinho, acidentes são a principal causa de traumas
O diretor do Centro de Trauma da Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas (HC-UE) de Ribeirão Preto, Maurício Godinho, adverte que os acidentes de trânsito já se tornaram um problema de saúde pública. “O trauma, que não envolve somente acidentes de trânsito, é a principal causa de morte entre pessoas de 0 a 49 anos no mundo. Por conseguinte, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), os acidentes de trânsito são os principais responsáveis por estes traumas”, analisa o médico.

A avenida que concentrou a maior quantidade de mortes das 92 registradas em 2018 em Ribeirão Preto foi a Francisco Junqueira, seguida da Via Norte e da Marechal Costa e Silva, com quatro mortes cada. Para o superintendente da Empresa de Trânsito e Transporte Urbano de Ribeirão Preto (Transerp), Antônio Carlos de Oliveira Júnior, o grande fluxo de veículos nessas vias é um dos principais motivos para os acidentes fatais. “Se calcularmos o número de automóveis que passam pela avenida em relação ao número de mortes, talvez a Francisco Junqueira não seja a pior”, pondera Oliveira. 
Luiz Gustavo Correa avalia que a imprudência de motoristas é resultado da falta de fiscalização no trânsito
Para o superintendente, o principal problema que assola toda a cidade é a imprudência dos motoristas. Em contrapartida, o especialista em planejamento e gestão de trânsito Luiz Gustavo Correa avalia que a falta de zelo, na verdade, é resultado da falta de fiscalização no trânsito. “Incluo, também, a qualidade do asfalto. Nas avenidas existem inúmeros buracos com cavaletes”, comenta.

Impacto financeiro 

Um estudo da Escola Nacional de Seguros, realizado com base em dados do Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres (DPVAT), revela que, só em 2017, acidentes graves de trânsito provocaram um impacto econômico de R$ 199 bilhões no Brasil. O montante equivale a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O valor é um cálculo aproximado do que seria produzido pelo trabalho das vítimas, caso os acidentes não tivessem ocorrido. “Custa muito caro para a Saúde, porque não é só o atendimento pré-hospitalar, com o Samu e os bombeiros, e o intra-hospitalar. Depois, também temos a reabilitação”, comenta o diretor do Centro de Trauma do HC-UE. Uma diária na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do hospital, por exemplo, tem o custo estimado de R$ 2 mil. Por ano, são atendidos cerca de 3 mil acidentados na instituição.
“O objetivo das fiscalizações deve ser proteger vidas e não arrecadar receita”, diz Bruno Aurichio Ledo
Para o economista Bruno Cesar Aurichio Ledo, a ciência econômica pode contribuir fornecendo ferramentas para a análise de dados. “É possível verificar, por exemplo, se existe correlação entre as vias com mais mortes e os locais onde são colocadas as fiscalizações por excesso de velocidade. Com ferramentas mais sofisticadas, é possível, também, identificar causalidade, ou seja, se a fiscalização reduz os acidentes. Caso contrário, é preciso realocar estes recursos. O objetivo das fiscalizações deve ser proteger vidas e não arrecadar receita”, explica Bruno.

Texto: Paulo Apolinário | Fotos: Julio Sian, Ibraim Leão e Luan Porto

Compartilhar: