Amor de mãe
A adoção também é um nobre caminho para quem quer provar a veracidade desse sentimento que só a maternidade proporciona

Desde menina, Andréa Siaticosqui Barbedo da Silva tinha o sonho de ser mãe. O primeiro passo para a realização desse desejo foi conhecer Robson Soares da Silva. O encontro, que aconteceu em 1994, na universidade, resultou em amizade e, dois anos depois, em casamento. “Quando o Robson apareceu, ter um filho com o homem que eu amava se tornou uma necessidade. Era a concretização de tudo aquilo que eu havia idealizado”, recorda. O combinado entre o casal era ter um bebê logo depois que o compromisso fosse firmado. Porém, a vontade era tanta que eles não esperaram. Andréa descobriu que estava grávida três dias antes do casamento. Nove meses depois, a chegada de Giovana foi motivo de festa. O mesmo aconteceu oito anos mais tarde, com o nascimento de Marcela.
Agora, Andréa passa novamente pelo período de gestação. Desta vez, nada de ultrassom, exames de pré-natal e mudanças no corpo. “Quando a Giovana tinha quatro anos, tentei engravidar, mas a facilidade da primeira vez não se repetiu. Fiz tratamentos dolorosos e nada surtia efeito. Comecei a acreditar que não era para ser e desisti. Tive uma surpresa quando soube que estava esperando outro bebê. Por conta da dificuldade no início, o medo e a preocupação eram companhias constantes. Felizmente, tudo correu bem, mas estava esgotada física e emocionalmente. Por isso, decidi não ter mais filhos biológicos”, explica Andréa. A vocação para a maternidade, no entanto, não acabou. Há sete meses, depois de muito pensar e de obter o consenso da família, ela foi até a Vara da Infância e da Juventude e se candidatou à adoção. Após cursos, entrevistas com psicólogos, visitas residenciais, avaliação do juiz e trâmites burocráticos, em janeiro deste ano, o casal recebeu a aprovação e teve o nome inserido na lista de espera.
Com isso, os dias passaram a ser de expectativa. A casa e o coração já estão prontos para receber o novo filho, ou filha, ou os dois. Isso porque, ao estipular o perfil da criança, a família deixou alguns campos em aberto. “Foi um processo difícil porque assim que você define um tipo, elimina todas as outras possibilidades. Mas é preciso compreender que temos nossas limitações e saber reconhecê-las e aceitá-las é a garantia de uma adoção feliz para as duas partes. Queremos uma criança de até cinco anos, independente de sexo, raça, cor dos olhos e cabelo. Se, por ventura, ela tiver um irmão menor, receberemos ambos com todo carinho”, afirma. Embora haja um caráter social envolvido, o que motiva Andréa é o desejo de ser mãe mais uma vez. “Temos duas filhas. Já sabemos que o amor não se divide, multiplica. Existem crianças que precisam desse amor e de uma estrutura familiar, então, acredito que podemos nos encontrar e nos complementar”, finaliza.
A empresária Marister de Cassia Vicentini de Oliveira também passou por essa fase de ansiedade e, hoje, comemora a alegria que a chegada de Maria Vitoria, de três anos, trouxe para a sua vida. Mãe biológica de dois meninos, Luis Felipe, de 18 anos, e Gustavo, de 12, Marister sentia que havia espaço para mais um bebê em seu coração. “Um dia, meu marido, Reginaldo, também manifestou esse desejo. Conversamos sobre o assunto e decidimos que seria ótimo ter uma menininha para completar a nossa família. Mesmo com condições para gerar mais uma criança, preferi adotar. Expliquei a situação para os meninos e eles ficaram encantados”, recorda. Uma amiga advogada orientou os pais sobre os trâmites legais necessários e, ao cumprir todas as etapas estabelecidas, entraram no cadastro de adoção.
Foram quase três anos até receber uma resposta e ela veio de um abrigo na Bahia. “Assim que a vi, tive certeza de que ela era a minha filha, um presente de Deus. Não tenho palavras para expressar tanto amor”, emociona-se. A palavra preconceito está fora do dicionário da família. “Nunca tivemos problemas em relação a isso. Familiares e amigos celebraram essa conquista conosco. Quando a trouxe, no aeroporto mesmo, fizeram uma festa”, diverte-se. Na casa, o assunto é tratado com naturalidade. Inclusive a própria Vitoria, mesmo novinha, já recebe doses homeopáticas de informação. “Sempre que surge uma oportunidade faço questão de explicar que ela não nasceu da minha barriga, mas do coração. Dizer a verdade é essencial. A história dela começou quando nos encontramos, mas não podemos esconder a origem dela. Vamos falando aos poucos, sem precipitação, para que ela possa compreender e aceitar. Jamais quebraria esse laço de confiança que foi construído entre nós”, relata.
A sinceridade também é a base do relacionamento de Teresinha Riolo Gonçalves com seus três filhos, Ana Paula, de 20 anos, Mariana, de 17, e Eduardo, de 18. “Desde quando eles eram pequenos, eu e o meu marido, Francisco, explicávamos a situação, sempre da forma mais tranquila possível. Isso foi fundamental para que crescessem sem traumas, felizes por saberem que foram desejados, escolhidos e que são extremamente amados”, ressalta Teresinha. No caso dela, a adoção foi a única solução encontrada para realizar o sonho da maternidade. Logo depois do matrimônio, o casal quis ter um filho, mas sem sucesso. Teresinha passou por diversos tratamentos, sofreu alguns abortos e, depois de anos de tentativas frustradas, a adoção apareceu como o caminho certo a seguir. Nesse processo, ela destaca a união e a cumplicidade com o marido, que foram imprescindíveis para que essa decisão fosse tomada de forma madura e consciente.
Para a satisfação dos dois, em 1993, a Ana Paula chegou, ainda recém-nascida. Logo depois veio a Mariana, com apenas alguns dias de vida e, por último, Eduardo, que entrou para a família com dois anos e quatro meses. “Esses três me fazem um bem incrível. Claro que temos problemas cotidianos, como toda família tem: chamo a atenção, puxo a orelha e dou bronca quando é preciso. Mas isso é apenas uma pequena parte da grandiosidade do sentimento que temos um pelo outro. Acompanhar o desenvolvimento de uma criança, vê-la aprendendo a andar, a falar, é realmente mágico. Fico feliz por participar da vida deles. Construímos uma história linda juntos. Acredito genuinamente que eles estavam destinados a mim. São meus filhos. Quanto a isso, não há dúvida. Se precisasse, faria tudo de novo”, comenta. Ana Paula, Mariana e Eduardo só têm elogios para a mãe. “Não conseguimos nos imaginar sem ela. Essa é a nossa família, esse é o nosso lar. Tudo o que somos hoje, devemos ao amor que recebemos da nossa mãe e do nosso pai durante todos esses anos”, finalizam.
A visão de uma especialista
Segundo a psicóloga e psicanalista Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis, a decisão de adotar uma criança é muito próxima da de ter um filho biológico. “As situações são praticamente iguais. Quando um casal assume esse compromisso, nos dois casos, está baseado muito mais em um campo de afetos do que em um campo racional. Como mensurar se o desejo é suficientemente grande para tomar tal atitude? Felizmente, quando o assunto é emoção, não há medidas objetivas. Minha dica para os futuros pais, é, ao invés de se perguntar ‘temos condições materiais para sustentar uma criança?’, trocar o questionamento para ‘temos disponibilidade afetiva para cuidar de uma criança, para sempre, seja ela quem for, venha como vier?’. A resposta a essa indagação vai indicar o caminho a seguir”, indica Maria Bernadete. 
A especialista ainda cita o psicanalista Antonio Sapienza, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, que amplia a noção de adoção dizendo que mesmo os filhos biológicos precisam ser adotados por seus pais, no sentido de que todos os pais precisam acolher o filho real e não aquele que corresponda às expectativas. “Quando temos uma criança, seja ela nascida do nosso ventre ou não, precisamos estar preparados para viver experiências, das mais prazerosas às mais dolorosas. Cada filho que chega traz consigo um potencial imenso e imprevisível. Não há como saber como será a personalidade, quais serão suas necessidades, suas habilidades e suas limitações. Diante disso, recomendo um coração aberto e receptivo”, explica a especialista. Portanto, o mesmo cuidado desprendido para preparar o berço, o quarto e o enxoval é necessário para que se construa um ambiente psíquico sensível e saudável para a criança.
A hora de contar
Não há dúvida entre psicólogos e psiquiatras de que a criança precisa saber que foi adotada. O assunto deve ser tratado com naturalidade, ou seja, os pais precisam estar cientes de que o filho não é diferente ou especial porque foi adotado. “Se isso está bem estabelecido para os pais, será mais fácil conversar com a criança de forma clara e segura”, opina Maria Bernadete. Não há uma idade determinada para contar para a criança. A sugestão da especialista é que os pais aproveitem oportunidades, como o contato com uma mulher grávida ou uma conversa sobre como nascem os bebês. Além disso, é importante que os adultos estejam cientes de que o assunto voltará. Com o passar do tempo, a criança vai recebendo mais informações. O aumento do conhecimento leva a mais questionamentos, especialmente sobre a família biológica. Os pais devem concordar entre si sobre as respostas a serem dadas e atitudes a serem tomadas. A segurança deles ao lidar com o assunto tranquiliza o filho. Porém, não é possível saber como cada criança lidará com o fato de ter sido adotada. 
Fugir da verdade pode gerar problemas. “As crianças têm radares emocionais poderosos que percebem o estado psíquico das pessoas à sua volta e, em especial, as reações dos pais. Elas sentem que há um segredo e, por não saberem exatamente do que se trata, passam a criar fantasias, que podem ser muito assustadoras. Se o filho ficar sabendo por outras pessoas, instala-se uma desconfiança no vínculo, muito difícil de ser revertida. É sempre preferível a verdade e a transparência no caso da adoção. O filho é gestado, gerado, nascido e cuidado na mente dos pais. Deste ponto de vista, nascer ou não da barriga é secundário”, finaliza Maria Bernadete.
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Carolina Alves, Julio Sian e Lucas Chaibub
Agradecimentos: Bambolelê e New Century