Amor Plural
Pautadas no valor do afeto e da pluralidade, algumas pessoas abarcam a nova formação familiar e provam que o que vale é o amor e o respeito entre os membros
Dizem que “o melhor lugar é dentro de um abraço”. Se for de quem se ama, então, melhor ainda. A premissa — em alguns casos, clichê — serve para qualquer situação: para um encontro entre amigos, entre namorados, para um reencontro ou até para a comemoração da vitória de um time de futebol. Em todas as situações, lá está ele, para confortar, acolher, cuidar, dar segurança e emanar amor, como e onde for.
Avó que mora com os netos, pai que é padrasto, mãe que cuida dos filhos sozinha, filhos que se dividem entre duas casas, pais homossexuais que adotaram filhos e avó que gerou um bebê para o filho: mudanças na legislação contribuíram para a nova formação e ampliaram o conceito de família. O abraço, então, torna-se a metáfora da vida real, pois cabe muito amor dentro de cada um.
Em dez anos, o Brasil ganhou 1,1 milhão de famílias compostas por mães solteiras. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2005 o país tinha 10,5 milhões de famílias de mulheres sem cônjuge e com filhos, morando, ou não, com outros parentes. Já segundo dados de 2015, os mais recentes do instituto, são 11,6 milhões de novas formações familiares.
Assim foi para a educadora física e escritora Verônica Toledo de Carvalho, que abraçou o papel de mãe e cuida — sem a presença constante da figura paterna — dos filhos Anita Carvalho Mendes, de sete anos, e Gael Carvalho Mendes, de três anos e meio. Gael nasceu com 26 semanas de gestação e a prematuridade extrema trouxe consigo a displasia pulmonar (doença resultante de infecções, acúmulo de líquidos ou malformações), que lhe obrigou a permanecer internado por um ano no Centro de Terapia Intensiva (CTI).
Para Verônica, a maternidade chegou em momentos e com experiências muito distintas entre si. “Anita nasceu no formato tradicional de família, papai, mamãe e filhinha, e, quando Gael chegou, nosso mundo se transformou totalmente, pois, aos três meses, eu e o pai dele nos separamos”, relembra.
Verônica diz que essa condição familiar passa por aprendizados constantes e diários. “Quando Gael teve alta, precisei entender que, a partir dali, éramos nós dois e a Anita e foi preciso, então, reestabelecer o vínculo com ele”, acrescenta.
Com o passar do tempo, ambos passam a entender que a convivência com outros membros, mesmo que não sejam representativos da figura familiar, também é um modo de amar, de prestar cuidados, de ser feliz. Para ela, viver nessa organização é um aprendizado constante. “Sou mãe em momentos diferentes, com filhos diferentes que contribuem diariamente para meu aprendizado como ser humano”, comenta.
Sob a ótica jurídica
Segundo o advogado Paulo Henrique Marques de Oliveira, o conceito de família, do ponto de vista jurídico, foi bastante ampliado ao longo dos anos. O Código Civil de 1916, vigente até 2002, fora editado ainda sob a ótica da sociedade do século XIX, extremamente conservadora e patriarcal. “Até meados dos anos 60, nem mesmo a união estável era legalmente admitida. O vínculo conjugal só era reconhecido pelo casamento formal”, explicita.
Mesmo com a instituição do divórcio, em 1977, o que antes existia em termos legais era o “desquite”, que colocava fim à sociedade conjugal, mas não ao casamento — o casal não podia estabelecer nova união legal.

Apenas com a Lei 6.515/77, os divorciados passaram a ter a possibilidade de um novo casamento reconhecido juridicamente, dando origem à primeira transformação direta do conceito de família. Daí por diante, mais atualizações foram possíveis: a promulgação da Constituição Federal de 1988, que estabeleceu a igualdade de direito entre homem e mulher, a igualdade de direito dos filhos fora do casamento e ampliou o conceito de família para a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes, conhecida como “família monoparental”. “Além disso, outra relevante modificação no conceito de família veio pela decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2011, que reconheceu a união de pessoas do mesmo sexo como entidade familiar, que passou a ser seguida por todos os tribunais do país”, acrescenta Paulo Henrique.
De acordo com ele, é a sociedade que dita as mudanças e, assim, outras transformações virão. Exemplo disso está no possível reconhecimento da união poliafetiva como um novo formato familiar, confrontando o conceito de monogamia. “Impossível? Hoje, sim. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por decisão colegiada, determinou às Corregedorias-gerais de Justiça que proíbam os cartórios de seus respectivos Estados de lavrarem escrituras públicas para registar uniões poliafetivas. Amanhã, não sabemos”, conclui.
Aspecto emocional
Os últimos 60 anos foram cruciais para a transformação do conceito de família. A posição do homem como o único provedor e a mulher como dona de casa está extinta da sociedade. Informações do Censo 2010 mostram o reflexo da mudança estrutural dos grupos familiares, da maior participação da mulher no mercado de trabalho, das baixas taxas de fecundidade e do envelhecimento da população, além da maior disposição dos brasileiros para dar início a um novo relacionamento conjugal depois de uma (ou mais) experiências de vida a dois.

A psicóloga e educadora conjugal e familiar Valéria Giglio Ferreira acredita que, ao longo da evolução humana, o principal vetor impulsionador da composição familiar seja a preservação da espécie, uma vez que humanos são de natureza gregária e, segundo estudiosos, tiveram e têm no agrupamento um dos principais fatores de sua sobrevivência.
Assim, é possível elencar características comuns entre os perfis familiares e, para isso, Valéria recorre à teoria de Aristóteles: “por trás dos atos humanos, funcionais ou disfuncionais, existe sempre a busca da felicidade”. Esse, segundo ela, é o ponto comum entre os diferentes modelos de casais e famílias: o desejo de ser feliz.
Negar as diferenças nas configurações familiares, segundo Valéria, não evitará que as crianças registrem e sintam essas diferenças estabelecendo comparações em seu mundo interno. “Não sou favorável à negação das faltas, quando existe um pai ou uma mãe ausente, porque negar as faltas tanto quanto exacerbá-las somente contribui para a permanência da dor psíquica decorrente dessa falta. Ajudar a criança a lidar saudavelmente e superar essas lacunas contribui muito mais do que negar isso”, exemplifica.
De acordo com Valéria, mais importante do que aceitar novas condições familiares é resgatar a estabilidade nas relações conjugais e familiares. “A mudança nos modelos de conjugalidade e família geraram devastadores sentimentos de desamparo e abandono na humanidade e, com eles, novas demandas de sobrevivência física e psíquica, abrindo a busca de novas soluções para as angústias existenciais e para aplacar a solidão, pois, de todo modo, os seres humanos sempre tenderão a buscar alguém que lhes faça companhia e sinalize uma aliança para enfrentar a vida”, completa.

Unidos pelo Judô
Para Christian Leandro Pereira, 41 anos, eletricista, e Laura Célia Fernandes Meirelles, 41 anos, cirurgiã-dentista, o amor pelo judô só não é maior do que sentem um pelo outro. “Almas gêmeas sempre se reencontram e se reconhecem independente do tempo e do lugar”, define Laura. Namorados na adolescência, foi preciso que os dois caminhassem separadamente por 20 anos até o reencontro, em 2017. Laura, natural de São José dos Campos, e Christian, de Ribeirão Preto são praticantes da arte marcial milenar que tem como filosofia a suavidade para vencer o oponente. Para ficarem juntos, no entanto, o casal percorreu caminhos nada serenos: Laura foi morar em outra cidade para estudar, casou e mudou-se de país, onde se tornou mãe de Diogo Elia Neto, de dez anos. Já Christian, pai de Ana Luiza Bispo Pereira, também de dez anos, nunca saiu da cidade, entretanto, manteve-se distante do esporte durante o período em que foi casado. Depois da separação, a paixão pelo Judô foi mais forte. Vinte anos depois, a oportunidade de estar em um campeonato em São Bernardo do Campo, traria de volta seu grande amor: Laura, que também tinha passado pela separação conjugal. “Quando cheguei ao ginásio, na fila para ser chamada para a luta, eu o vi e não acreditei. Minha mão suou frio, meu coração acelerou, afinal, meu amor de adolescência estava a minha frente”, relembra a dentista. Para Laura e Christian começarem a namorar e viver juntos com os filhos era uma questão de tempo. Atualmente, Diogo e Ana Luiza convivem em harmonia nesse modelo familiar. “É divertido ter a companhia da tia Laura. Trocamos roupas, sapatos e várias confidências”, brinca Ana Luiza. Segundo o casal, os filhos percebem a felicidade de ambos. A união trouxe vida aos dois e a felicidade, para eles, é a base da nova família que surgiu depois de tantos anos separados. “Foi preciso que nós vivêssemos nossas histórias e que tivéssemos os próprios filhos para, realmente, estarmos prontos um para o outro”, completa Christian.

Novos Arranjos
Sofrer com a primeira febre do filho, passar a noite acordada com a tosse da outra filha, ir até o quarto diversas vezes durante a madrugada para ver se estão cobertos e dormindo bem são tarefas comuns na rotina de uma mãe. No entanto, para a supervisora de cobrança Etienne Mariana Picoli, isso é a tradução do amor representada na figura da esposa Lidiane Monteiro Fernandes, educadora física. As duas se encontraram depois de uma separação conjugal: Etienne era casada com o pai de Murillo Picoli Casadio e Rafaella Picoli Casadio, de nove e 12 anos, respectivamente. Lidiane também estava no mesmo processo com a namorada. Foi na academia que os olhares se cruzaram e, desde então, não se desviaram mais. “Divorciada, comecei a reestruturar minha vida novamente e, depois de um tempo de aceitação desta nova condição, resolvemos morar todos juntos”, conta Etienne. Hoje, para elas, a convivência nesse formato familiar é natural. Rafaella e Murillo respeitam Lidiane como mãe e, ainda, segundo ela, sentem orgulho de poder contar com duas mães nos cuidados do dia a dia. “Foram eles que, no início, sugeriram nosso namoro, pois perceberam que tínhamos um carinho especial uma pela outra”, acrescenta. Entretanto, o processo da construção dessa nova família ainda é um caminho a ser percorrido pelo casal. “Família significa compartilhar momentos. Tudo o que se dá, tem seu retorno. É a base de tudo, é o remédio para um dia estressante, é onde ganhamos força para o dia a dia, é achar graça em algo bobo que a criança faz e sentir felicidade nisso. Nossa família é diferente, unida e feliz. E nos orgulhamos muito disso”, conclui Lidiane.

Transformações Sociais
De acordo com o historiador Marcelo Gouveia de Araújo, não existe um momento específico na história do país e dos municípios que identifique a mudança radical do tradicional paradigma familiar-patriarcal, para os novos modelos familiares plurais. Segundo ele, essa nova concepção familiar, que se entende como plural, surgiu de mudanças sociais que vêm ocorrendo desde a década de 1950, como frutos das inúmeras necessidades de adaptação da própria sociedade em função de cada momento histórico. Nesse contexto, é possível destacar dois aspectos importantes: a liberalidade do pensamento que começou a partir da década de 1950, quando a sociedade passou a questionar e a se libertar de antigos preconceitos e a própria modernização da sociedade que, neste período, vivenciou o fluxo migratório do campo para as cidades onde o mais importante era o tempo e não as pessoas. O fenômeno do avanço tecnológico, para o especialista, é visto como o terceiro fator promotor de novos conceitos a respeito das uniões familiares, bem como da mentalidade do brasileiro, além da inserção da mulher no mercado de trabalho e a ascensão dela a cargos elevados nos ambientes empresariais. Apesar dos avanços, segundo Marcelo, a sociedade vive, em partes, um retrocesso nas leis que asseguram a pluralidade e a diversidade social baseado no desrespeito à ideia de privacidade e na individualidade do ser. “Presenciamos o ecoar de vozes eloquentes que procuram o retorno a um único modelo familiar, o patriarcal. Isto não significa que esteja errado — pelo contrário, é um dos muitos modelos familiares ideais da nossa sociedade, que é diversa e plural, onde coexistem, para além da família tradicional, aquela com casais homoafetivos, com pais e mães solteiros e tantos outros. O que falta a muitos é extremamente simples: respeito à individualidade alheia”, alerta.
Texto: Cristiane Araujo || Fotos: Ibraim Leão e Luan Porto