Amor que não se mede

Amor que não se mede

Fazer exames de rotina e cuidar da saúde do corpo e da mente, mais do que uma atitude preventiva capaz de salvar vidas, representa um gesto incalculável de amor próprio

Frases do tipo “com saúde não se brinca” ou “quem se ama se cuida”, embora possam soar como jargões cansativos, são a mais pura representação da maneira ideal de tratar o próprio corpo físico, mental e espiritual. Há um valor à vida impresso nestas palavras difícil de ser mensurado em toda a sua extensão, até que venha a doença para surpreender, dando o sinal de alerta para uma mudança de atitude.

A saúde preventiva é um desafio constante para médicos e órgãos governamentais de todo o mundo. Não é novidade que consultar o médico periodicamente, para exames regulares diminui muito o risco de doenças, incluindo o câncer de mama, que quanto mais cedo descoberto, mais possibilidade de cura apresenta. O acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a exames preventivos desse tipo de tumor avançou bastante nos últimos anos. Segundo o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), as mamografias no país cresceram 37%, no comparativo entre os primeiros semestres de 2010 e 2016 — passando de 1,6 milhão para 2,2 milhões. Na faixa etária de 50 a 69 anos (faixa prioritária), o aumento foi ainda maior no período, chegando a 64% — saindo de 854 mil para 1,4 milhão de mamografias.

Novas opções

Para o médico radiologista Luiz Mário Labadessa, responsável pelo setor de Mamografia da Documenta – Centro Avançado de Diagnóstico por Imagem, a mamografia continua sendo o exame de escolha para rastreamento, mas há uma tendência de se individualizar a estratégia de diagnóstico e tratamento para cada mulher, com base nas características próprias da paciente e do tipo de tumor. “Uma das novas possibilidades é a chamada terapia-alvo (target therapy), baseada no uso de drogas específicas para proteínas e outros marcadores presentes em determinadas células tumorais e ausentes nas células saudáveis. Isso permite uma ação mais localizada dos medicamentos (anticorpos, bloqueadores hormonais, inibidores da angiogênese, entre outros), com menos efeitos colaterais e melhores resultados”, explica Labadessa.

Para o médico, esse avanço está diretamente ligado ao desenvolvimento de técnicas de diagnóstico genético e molecular que permitem, além das caracterizações celulares, detecções de mutações que aumentam significativamente o risco de câncer de mama como os genes BRCA 1 e 2. “Desde os anos de 1960, quando os primeiros programas de rastreamento populacional sistemático do câncer de mama tiveram início nos Estados Unidos, na Suécia e em outros países europeus,  houve um enorme progresso nas modalidades de diagnóstico e de tratamento. Embora seja a neoplasia de maior incidência entre as mulheres — serão cerca de 58 mil novos casos este ano no Brasil, segundo estimativa do INCA —, estes programas determinaram uma diminuição da mortalidade pela doença”, afirma o radiologista.

Todo investimento para encurtar o tempo entre a realização do exame e o diagnóstico anatomopatológico definitivo da lesão é fundamental porque esse intervalo gera grande ansiedade para a paciente e deve ser abreviado ao máximo. Ainda segundo o médico, as campanhas de conscientização sobre a importância do envolvimento da paciente no diagnóstico precoce do câncer de mama — como a do Outubro Rosa — são fundamentais e devem ser aproveitadas para enfatizar outro aspecto que tem adquirido enorme importância: o consenso entre especialistas de que, além dos fatores genéticos individuais, os fatores ambientais e comportamentais estão diretamente envolvidos na origem do câncer. 

“Numerosos estudos científicos demonstram que a obesidade, o sedentarismo, dietas ricas em gorduras saturadas e hábitos como o tabagismo e o consumo de álcool aumentam significativamente o risco de desenvolvimento de câncer de mama. Devemos todos, portanto, estimular a busca por uma vida mais saudável, equilibrada e fisicamente mais ativa”, conclui Labadessa. 
 

Perdendo o chão

Depois de uma mamografia de rotina, aos 59 anos, a vendedora Isabel Boscolo Girasol foi surpreendida pelo diagnóstico de tumor maligno na mama direita, notícia que a deixou completamente perdida. “Minha cirurgia foi marcada rapidamente, não tive muito tempo para pensar. Lembro apenas do médico perguntando sobre pressão, colesterol e outros indicadores da minha saúde. Quando cheguei ao carro, desabei a chorar. Pensar nesse dia ainda me faz chorar, pois foi um momento muito marcante, difícil de aceitar. Meu maior medo era não ter força suficiente para me manter, mas, aos poucos, consegui superar. Pensava na minha mãe, que precisava muito de mim, e isso me deu força”, conta Isabel.

O mais difícil durante o tratamento — 34 sessões de radioterapia — foi superar os problemas na pele decorrentes da medicação, como ardência e queimaduras, assim como o sono. Durante este período foram muitas histórias inventadas por Isabel para a mãe não descobrir a doença. “Faço o impossível para não deixar meus braços incharem, pois morro só de pensar em ficar sem movimentos”, revela a vendedora, que atribui a doença ao estresse do trabalho. 

Procurando manter os pensamentos positivos, Isabel afirma que o câncer a ensinou a ser uma pessoa mais tranquila e a aproveitar mais os momentos, pois a vida é feita deles. “Nenhum esforço físico exagerado compensa se vai colocar em risco nossa saúde”, acrescenta. Ainda em tratamento, fazendo fisioterapia no Grupo de Reabilitação de Mastectomizadas da USP (Rema), Isabel procura se manter informada sobre a doença para ajudar as mulheres que viveram ou ainda vivem esse drama. “Dizer que é fácil é mentira, mas conservo a gratidão por todo o auxílio recebido. Ajuda mudar a vida e se colocar mais à disposição dos outros, porque acabamos percebendo que nosso sofrimento, muitas vezes, é menor do que imaginamos. Com isso, temos mais força para enfrentar a realidade com mais garra e positividade”, garante Isabel. 


Agenda Rosa

Lencinho com carinho
Engajado na campanha Outubro Rosa, o Novo Shopping e o Grupo de Voluntárias Lencinho com Carinho realizam no dia 15 de outubro (sábado), uma ação de distribuição de lenços para as mulheres com câncer que forem até o shopping.  Cerca de 15 voluntárias do grupo estarão junto aos estandes da Feira de Artes, bordando lenços e distribuindo os já prontos. Interessados em ajudar o projeto — que doa os trabalhos para instituições que tratam da doença —, também poderão fazer doações de tecidos, lenços para cabeça e pedrarias, para colaborar com o trabalho das bordadeiras.

Doação de cabelo e perucas
Apoiando a campanha Outubro Rosa, a Clínica Matrix, especializada em reprodução assistida, criou uma ação para captação de doações de lenços, cabelo e perucas —, que serão revertidos em redução no valor da primeira consulta das pacientes para serem entregues ao Hospital de Câncer de Ribeirão Preto - Fundação SOBECCan.

Hidratação Solidária
O Platino Cabeleireiros também entrou no Outubro Rosa. Todas as quartas-feiras do mês na “Hidratação Solidária”, o valor simbólico de R$ 30 pago pelo tratamento  da marca NG de France será integralmente revertido para Associação Brasileira de Combate ao Câncer Infantil e Adulto (ABRACCIA). Ainda como parte da ação, R$ 30 de cada corte de cabelo realizado nestes dias também serão destinados à entidade. 

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