Apneia do sono

Apneia do sono

Estima-se que cerca de 30% da população tenha apnéia obstrutiva do sono

Se alguém da sua família já revelou que você ronca toda vez que dorme, vale à pena parar e procurar um médico especializado no assunto, pois algumas vezes o ronco é apenas um barulho incômodo para quem dorme ao seu lado, mas também pode ser diagnosticado a Síndrome de Apneia/ Hipopneia Obstrutiva do Sono (Sahos). A doença é fácil de identificar, o ronco vem acompanhado de paradas respiratórias durante o sono, noites mal dormidas, cansaço, sonolência durante o dia e em alguns casos, problemas como pressão alta e batimento cardíaco irregular, são características da Sahos ou apneia do sono.

A palavra apnéia vem do grego que significa “sem ar”, e consiste na pausa momentânea da respiração durante o sono. “A apneia do sono consiste em um problema respiratório que se caracteriza por paradas ventilatórias breves e repetidas, geralmente com duração de pelo menos dez segundos e com a frequência superior a cinco episódios por hora, que ocorrem enquanto dormimos”, explica o otorrinolaringologista especialista em medicina do sono, Paulo Renato Eleuterio Mestriner.

O projetista Antonio Luiz Ascanio desconhecia a síndrome e após várias conversas com sua esposa procurou um especialista para tratar a apneia. “Eu desconhecia que tinha apneia; devido ao meu ronco que incomodava minha esposa e família. Segundo ela além de roncar eu parava de respirar por alguns minutos e me mexia muito durante a noite e, por isso, fui a busca de um especialista do sono, lá passei uma noite na clinica especializada em ronco e apneia e após realizado o exame retornei ao meu médico e fui informado que o meu maior problema não era o ronco mais sim a apneia e também um desvio séptico. A partir de então iniciei o tratamento”, conta.

Nos últimos 25 anos houve um aumento relevante da apneia, que é um dos principais distúrbios do sono, a síndrome pode acontecer de duas maneiras, a primeira chamada de apneia central é menos frequente, e se dá quando o cérebro não envia informação para a musculatura responsável pela respiração, a segunda forma é chamada de apneia obstrutiva, e ocorre quando existe uma obstrução da via aérea superior, ou seja, apesar do cérebro enviar o estímulo necessário aos músculos e esses realizarem a movimentação adequada, o ar não entrará, pois existe algo impedindo a sua passagem. O número de episódios de apneia/hipopnéia por hora de sono é chamado de índice de distúrbio respiratório. Pessoas com índices maiores do que cinco já são consideradas portadoras de apneia do sono, embora pacientes com índices de até 20 sejam raramente sintomáticos.

O médico ressalta que existe outra característica onde é possível classificar a apnéia. “Também podemos classificar as duas formas da doença de acordo com a frequencia em que ocorre esse distúrbio. Esse tipo de classificação é importante, pois quanto maior for à gravidade do quadro maior será a possibilidade do desenvolvimento de complicações”, enfatiza.

Para Dr. Paulo Mestriner, a apneia pode ser considerada caso de saúde pública mundial, devido o número de pessoas com os sintomas e as consequências que a doença traz. “Levando-se em conta que a síndrome da apnéia do sono atinge cerca de 4% da população adulta de meia idade e as possíveis consequências que essa doença pode ocasionar, podemos afirmar que sim, esse é um problema de saúde pública mundial comum”, revela.

Segundo os dados divulgados pela Sociedade Brasileira do Sono, de 2% a 4% das mulheres adultas e de 4% a 9 % dos homens adultos são apnéicos, com esses números mais de 4% da população mundial seriam apnéicos, aumentando para 25% o índice entre idosos, algumas crianças também apresentaram apnéia do sono em 1% a 3% dos casos. Outro distúrbio que atinge grande parte da população é a insônia, que atinge entre 30% e 40% das pessoas, sendo 15% de insônia crônica.

Dra Daniela Vianna Pachito, médica neurologista responsável pela clínica Prossono, explica que existem diversos distúrbios do sono associados a doenças patológicas crônicas. “Existem 80 tipos de distúrbios de sono e todos são associados a doenças patológicas crônicas. Esses distúrbios só podem ser amenizados por meio de tratamento contínuo. O sonambulismo, por exemplo, é tratado com medicamentos enquanto o bruxismo com o uso do aparelho odontológico. O sonambulismo costuma atingir crianças e, quando surge na idade adulta, tende a melhorar. Já a apnéia é uma doença crônica, por isso, não melhora com o tempo. Seu tratamento deve ser contínuo, e raramente, há a possibilidade de cirurgia”, comenta a neurologista.

A apneia do sono geralmente vem acompanhada do ronco, episódios visíveis de interrupção da respiração e sono excessivo durante o dia. O ronco pode ser alto e interferir o sono dos outros. Portadores de sintomas mais graves costumam acordar com sensação de sufocamento, refluxo esofágico, boca seca, e vontade de urinar, além disso, a apneia esta associada à obesidade ou ganho de peso precoce, tabagismo, o uso de relaxantes musculares, tranquilizantes, antidepressivos, além da má alimentação e, claro, problemas otorrinolaringológicos, como os desvios obstrutivos do septo nasal, hipertrofia de cornetos nasais e das estruturas linfóides do nariz e garganta, a rinite alérgica e a rinosinusite.

O diagnóstico é estabelecido através da polissonografia, um exame que permite testar durante o sono os potenciais elétricos da atividade cerebral, dos batimentos cardíacos, os movimentos dos olhos, a atividade muscular, o esforço respiratório, entre outros aspectos.

O tratamento cirúrgico é indicado para a remoção de obstáculos e correção de distúrbios anatômicos que dificultem a passagem de ar.  Perda de peso, no caso de obesos, uso de aparelhos intra-orais, troca de colchões e evitar dormir de “barriga para cima”, são outras medidas úteis para auxiliar no tratamento da apneia.

De acordo com Valdir de Oliveira, mestre em implante dental, o uso de aparelhos intra-orais pode auxiliar no tratamento de alguns casos da apnéia do sono. “Os aparelhos intra-orais são semelhantes a alguns aparelhos ortodônticos móveis. As partes superior e inferior são unidas, formando um só conjunto. O objetivo do uso do aparelho é fazer com que a mandíbula se posicione mais para a frente e mais para baixo, criando maior espaço dentro da boca para acomodação da língua. O paciente apneico, tem as vias aéreas superiores bloqueadas durante o sono, devido à língua, relaxada, ir para trás, bloqueando parcial ou totalmente a passagem do ar. O aparelho permite que a língua encontre espaço para vir para frente, mantendo livre a passagem do ar, reduzindo ou eliminando o ronco e a apneia”, explica o ortodontista.

Após um ano e meio, Antonio já consegue ver os resultados do tratamento. “Após um ano e meio de tratamento comecei a perceber que ao despertar tenho mais disposição durante o dia e me sinto mais concentrado no trabalho, e o melhor resultado foi eu e minha esposa voltar a dormir no mesmo quarto, coisa que antes não acontecia”, revela.

As consequências da apneia do sono vão além das noites mal dormidas, a mortalidade entre os portadores da doença que não recebem tratamento geralmente é mais alta do que aqueles que apenas roncam sem ter momentos de apnéia. Diferentes estudos revelam que a apnéia está associada ao aumento de infartos do miocárdio, derrames cerebrais e arritmias cardíacas, além da hipertensão arterial que é encontrada em 70% a 90% dos que sofrem de apneia do sono.

Texto: Pâmela Silva
Fotos: Carolina Alves

*Matéria publicada em 03/06/2011.

Compartilhar: