Aposta certa
Em entrevista, Márcio Campos fala sobre o aplicativo da PagPop, que pode substituir máquinas de cartão de crédito
Márcio Campos, 37 anos, é um dos fundadores da PagPop, companhia com sede em Ribeirão Preto, criadora de um aplicativo que permite pagamentos de produtos e serviços via celular, smartphones e tablets, usando cartão de crédito. Voltado para profissionais liberais que não utilizam maquininhas de cartão, o aplicativo da PagPop é um software gratuito que o usuário baixa no celular e recebe um dispositivo que, conectado à saída do fone de ouvido, faz a leitura do cartão de crédito. A empresa também já tem protótipo de um dispositivo para cartões de débito, e estuda lançá-lo até novembro deste ano.
Em entrevista à Revide Online, Márcio Campos conta como surgiu a ideia do aplicativo, o mercado dessa tecnologia e o profissional-alvo para o que chama de ‘inclusão socioeconômica’.
Revide: Como surgiu a ideia de criar este aplicativo, que permite pagamentos de serviços e produtos com cartão de crédito via celular, smartphone ou tablet?
Márcio Campos: Havia uma dificuldade muito grande de alguns profissionais aceitarem cartão de crédito. Entendendo que não conseguiría alçar o voo necessário com seu formato, a PagPop conseguiu ser aprovada por uma aceleradora do Rio de Janeiro que ajustou a companhia para a escalada nos números. Uma companhia americana, chamada Square, fez um aplicativo que permite às pessoas aceitarem cartão, usando leitores de cartões. Então, pegamos o modelo de leitores de cartões da Square e adaptamos ao Brasil, no entanto, não copiamos sua ideia, pois já fazíamos esse trabalho. O modelo de aplicativo veio, na verdade, em função da nova geração de tecnologia, que são os smartphones e tablets, que têm esse tipo de solução.
R: E como você chegou até a aceleradora do Rio?
MC: Estava em uma palestra promovida pela ENDEAVOR sobre capital de investimento Anjo em São Paulo e, ao final da palestra, fui conversar com o palestrante e ele me falou que estava montando uma aceleradora, falou também que eu deveria fazer o ‘application’. Fiz e fomos a duas fases de seleção, fomos selecionados ao final da período de aceleração, passamos seis meses trabalhando no Rio, ganhamos um Prêmio do Silicon Valley Bank, para visitar fundos de investimento no Silicon Valley. Inclusive que hoje a PagPop tem escritório em Ribeirão Preto e Rio de Janeiro contando com mais de 40 funcionários.
R: O aplicativo funciona como uma ‘maquininha’ de passar cartão?
MC: A ideia é não precisar de maquininha, mas sim que todos consigam fazer suas transações usando seu próprio aparelho. Ao invés de investir numa alta mensalidade de uma maquininha que não é sua, não é melhor comprar um celular, que é seu, ter um aplicativo e passar cartão com ele? Isso representa modernidade, segurança e facilidade, principalmente quando se pensa em um ambiente econômico que garante a venda, o que é fundamental.
R: O método é seguro?
MC: É 100% seguro. Hoje a PagPop é a única companhia desse porte que faz parte de Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços) onde também estão Cielo, Redecard, Santander, Visa e Mastercard. A PagPop tem um processo com anos de história, é seguro para o cliente e validado junto às bandeiras. Existe toda uma tratativa para que o cliente final, o lojista e a companhia estejam protegidos. Temos uma plataforma antifraude muito forte. A gente ouve falar muito em cartão roubado, cartão clonado, lojista fraudador, mas a plataforma antifraude protege. É seguro tanto para o cliente que está pagando quanto para o lojista que se cadastrou com a gente.
R: Você chama o aplicativo de “inclusão socioeconômica”. Por quê?
MC: Porque dentro desse ambiente [de pagamento online], quebramos um paradigma, o de entrada, dando amplitude para que qualquer pessoa que vende um produto ou serviço tenha acesso ao sistema. Em nosso negócio, a forma de se credenciar é muito simples, por isso, chamamos de um trabalho de inclusão socioeconômica, pois é mais fácil, é mais barato, é mais rápido e mais objetivo. Realmente a amplitude [em atender profissionais] é muito maior, é algo que os bancos não fazem.
R: O aplicativo era algo que estava faltando no mercado?
MC: Eu tenho certeza absoluta que a cadeia de resgates, fora o que se aplica a cartão de crédito no Brasil, é extremamente olipolizada, pois tirando as três empresas que fazem isso: Cielo, Redecard e Santander, não há mais opção. Com esse trabalho, conseguimos dar uma amplitude muito maior, viabilizando esse processo para grande número de pessoas. Indiscutivelmente, trata-se de um facilitador. O que nos propomos a fazer é facilitar a vida do microempreendedor.
R: A PagPop patenteou a criação do aplicativo?
MC: Não há como patentear. O que nós temos é uma licença, do nosso layout, mas não há como ‘travar’ para que outra empresa não faça o mesmo. Na verdade, trata-se de uma prestação de serviço. Vão surgir outras empresas que farão isso ao longo do caminho, mas a realidade é que não se trata apenas do processo do aplicativo, mas de haver uma empresa segura por trás dele. Esse é o nosso caso hoje e temos alguns investidores que dão suporte para esse negócio. O aparelho é produzido fora, mas a linguagem tecnológica é nossa, só que isso não impede que alguém desenvolva outro aplicativo. Não há como impedir isso.
R: Existem outras empresas que já criaram ou tentaram criar algo parecido?
MC: Sim, a PagSeguro lançou mês passado um leitor para passar cartão via celular. Ainda não sabemos se foi uma medida de mera concorrência ou protecionista, pois começamos a crescer muito. Muitas pessoas que só operavam com eles começaram a operar conosco também. Mas a concorrência é esperada.
R: Você fez parceria com empresas para a criação e uso deste aplicativo?
MC: Fiquei toda semana indo ao Rio de Janeiro, durante seis meses, melhorando o processo da PagPop. Eu tinha quatro mil clientes em 2011 e, no final de 2012, chegamos a 24 mil. Agora já tenho mais de 31 mil. Mas para isso acontecer foi difícil. A PagPop foi fundada por mim e meu pai e quando comecei a crescer precisei de dinheiro, tanto que o meu primeiro investidor foi o meu cunhado. Eu atuava como dentista, tirava dinheiro da boca do paciente e botava na empresa. Quando passei para a aceleradora do Rio, participei um evento chamado Demo Day [evento no qual a companhia é apresentada a empresários e investidores]. Esse dia foi maravilhoso! Eu ganhei um prêmio do Silicon Valley Bank, que é o Banco do Vale do Silício. Esse prêmio me levou ao Vale do Silício (EUA) e eu falei com todo mundo, com uns 15 fundos de investimento, e isso permitiu que eu tracionasse alguns investimentos como, por exemplo, a Intel que se tornou sócia da empresa. Temos também a Cetus Investimentos, cujo fundador é o mesmo fundador da Net no Brasil, o grupo venezuelano Cisneros e também temos investimentos da Maubisa. Comercialmente nós temos parcerias com a Mary Kay, Inspiração Cosméticos e outras empresas. O nosso foco comercial é trabalhar com revendedores de cosméticos, taxistas, cabeleireiros, profissionais liberais, médicos, dentistas, etc. Desde o profissional mais simples até o grande empresário, nossa meta é atender quem não tem ‘maquininha’.
R: Como a PagPop divulga o produto?
MC: O principal meio de divulgação é via web. Se a pessoa escreve na internet ‘maquininha de cartão’, ela já vê uma propaganda da PagPop. A gente recebe em média 150 novos clientes por dia.
R: Qual deve ser o procedimento para quem quiser ter o aplicativo?
MC: Basta a pessoa acessar www.pagpop.com.br, colocar email e senha, e fazer o cadastro (com nome, endereço, telefone, profissão). A pessoa já recebe o login e senha e pode acessar o cartão; o dispositivo é enviado pelo correio com um material para a pessoa ler em casa.
R: E a taxa de manutenção?
MC: É cobrado um valor mensal de R$19,90. Qualquer pessoa cadastrada vai pagar esse valor, que é cobrado a partir da primeira venda. Funciona como a ‘maquininha’ de banco — que custa cerca de R$100 —, a diferença é que somos quase 80% mais barato.
R: Qual foi o caminho que a PagPop percorreu para chegar hoje onde está?
MC: Não há resultado positivo sem sacrifício. Chegar ao patamar que estamos hoje exigiu muitos anos de dedicação, perseverança e foco no problema que queríamos resolver. Passamos uma primeira fase como ‘startup’ pura, ou seja, pequenos, sem grana e com muita vontade de acertar. Uma segunda fase, onde conseguimos um primeiro grande parceiro de negócios: a APCD (Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas), que nos levou a sustentabilidade operacional, e EBITDA positivo. E uma terceira fase de ajustar a empresa para poder escalar os números, que nos trouxe um time de profissionais mais forte, crescimento viral e um ‘pool’ de investidores que nos levaram a outro patamar. Posso falar que a caminhada teve e tem todos os dias muitos espinhos, mas temos consciência e miramos nas flores que avistamos no ápice.
Revide Online
Texto: Fernando Belezine (colaborador)
Fotos: Carolina Alves