Aprendizado além da escola
Tendo de se adaptar à rotina dentro de casa por conta da pandemia, crianças descobrem novos interesses e habilidades
Texto: Paula Zuliani
Assim como tem acontecido com muitas famílias, principalmente quando as crianças ainda são bem pequenas, a transição das aulas presenciais para o universo on-line não funcionou de acordo com o esperado na casa de Letícia Del Vechio e Tarcísio Faria Pereira. Mesmo com todo o empenho dos professores para passar os conteúdos pedagógicos de maneira criativa e da disponibilidade dos pais em intermediar esse aprendizado, tanto os gêmeos Miguel e Davi, de seis anos, quanto a a caçula, Manuela, que acaba de completar três anos, apresentaram dificuldades para acompanhar as lições a distância. “Até tentamos seguir o cronograma estipulado, porém, a obrigatoriedade de cumpri-lo, fora do contexto escolar, gerou um estresse desnecessário. Decidimos amenizar essa carga, reservando apenas uma hora por dia para a realização das tarefas. Com isso, conseguimos mantê-los em uma rotina, com compromissos e responsabilidades, ao mesmo tempo em que abrimos espaço na agenda para que eles se divirtam, descobrindo novas habilidades”, revela Letícia.
Não existe regra ou fórmula mágica para lidar com os pequenos dentro de casa em tempos de pandemia
Os três já demonstraram que gostam de serem envolvidos na dinâmica do lar, com destaque para as atividades que acontecem na cozinha. Eles preparam, por exemplo, o próprio café da manhã. Ovo, tapioca, leite e lanchinhos estão entre os pratos prediletos. “Ensinei como fazer arroz, bolo de cenoura, pipoca e outras receitas simples. Eles pedem para ajudar todos os dias e adoram participar, com a minha supervisão e dentro das suas limitações. Além disso, arrumam os brinquedos, guardam as roupas e, uma vez por semana, tiram o lixo do banheiro deles. Entender o valor dessas ações é fundamental para que eles tenham autonomia e cresçam como seres humanos”, afirma a mãe. A família também incentiva o brincar e o contato com a natureza. “Eles andam de bicicleta, regam as plantas e sobem nas árvores. Adotamos, ainda, uma gatinha para os três cuidarem. Coordenar tudo isso é um verdadeiro desafio. Alguns dias mais difíceis que outros, mas vale a pena. A intenção é que, de alguma forma, esse período seja bem aproveitado”, conclui.
Informação e imaginação
É importante ressaltar que não existe uma regra ou uma fórmula mágica para lidar com os pequenos dentro de casa em tempos de pandemia. As adaptações acontecem a todo instante, de acordo com a realidade e com o estilo de vida de cada família, sempre prezando pela segurança e pelo bem-estar das crianças. Para chegar a um modelo que funcione, a pediatra Maristella Bergamo dos Reis acredita que a comunicação seja o melhor caminho. “Eu e o meu marido somos médicos e, desde que o vírus se espalhou pela Europa, estávamos aflitos com essa situação, pois sabíamos que chegaria aqui. Tivemos de cancelar uma viagem que faríamos para São Paulo e vimos a oportunidade de explicar o que estava acontecendo para os nossos filhos Lucas, de oito anos, e Luiza, de quatro. Conversamos sobre o assunto e respondemos as perguntas que fizeram sem mentiras, claro que de um jeito que facilitasse a compreensão deles”, recorda Maristella.
Munidos de informação, os dois aceitaram de forma tranquila a questão do distanciamento social. “Antes da pandemia, saíamos bastante e raramente ficávamos sozinhos. Agora, estamos aprendendo, juntos, que a nossa alegria não depende de outras pessoas ou de outros lugares. Estarmos nós quatro, cuidando uns dos outros e da nossa casa, tem sido uma experiência gratificante. Acampamos nos quartos, preparamos pratos de países diferentes e nos aventuramos nos jogos de tabuleiro”, descreve a mãe. Enquanto Lucas segue sem problemas com a rotina escolar de forma remota, Luiza se distrai mais facilmente. “Mostramos o conteúdo e se ela não quer fazer, respeitamos”, pontua Maristella. O tempo de reclusão tem sido utilizado, ainda, para entrar em contato com assuntos diversos. Assistindo ao lançamento de um foguete da NASA em uma Live, Lucas ficou fascinado pelo espaço. Já Luiza apura o olhar lúdico e solta a imaginação, criando histórias sobre tudo o que a cerca.
Paixão compartilhada
Atentos às demandas e aos interesses da filha, o casal Paula Pelais Licheri e Antônio Giulio Licheri também encontrou uma maneira de minimizar o impacto da pandemia no desenvolvimento da Valentina, de quatro anos. “Nossa família tem as suas particularidades. Sou brasileira, meu marido é italiano e moramos por 15 anos na Inglaterra. A mudança para Ribeirão Preto aconteceu apenas há um ano e meio. Valorizamos esse aspecto cultural, que é profundamente enriquecedor em todos os sentidos. Por isso, quando nos deparamos com a nova realidade imposta pela Covid-19, optamos por tirar a Valentina da escola e focar nos ensinamentos que nós dois poderíamos passar para ela por meio do homeschooling”, comenta Paula.
A pequena tem adorado as aulas, que são ministradas em italiano e em inglês. “Nós sabemos que não somos professores e o intuito não é substituir o papel da escola. Queremos que, nesse momento, pela idade da Valentina, o processo de aprendizagem se desenrole de uma forma mais leve. Ela vem respondendo bem aos nossos estímulos, escrevendo e falando algumas palavras. Fica animada com as aulas. Leva até as bonecas para a ‘escola’ que improvisamos em casa”, declara. Outra característica da família que Valentina parece ter herdado é o talento para a culinária. “Meu marido trabalhou a vida toda no ramo de restaurantes e eu faço bolos artísticos sob encomenda para aniversários, casamentos e ocasiões especiais. Desde bem pequena, a Valentina já queria participar das nossas atividades e nós sempre incentivamos. Com a pandemia, a relação com a cozinha acabou ficando mais forte. Ela quebra os ovos, coloca a farinha, mede o açúcar e até ajuda a limpar os utensílios e a bancada. Compartilhar essa paixão com a nossa filha é algo precioso e uma emoção indescritível”, finaliza.
Um grande desafio
Para a psicóloga Carolina Olivato Calil Neves, é inegável que a pandemia trouxe uma série de desafios para os pais. “Esse momento, permeado por incertezas, preocupações e insegurança, afeta as percepções, os sentimentos e os hábitos de todos. Vivenciá-lo exige dos adultos o desenvolvimento de recursos emocionais internos e de habilidades psicossociais para o enfrentamento e a aceitação de uma situação desconhecida e que lhes foi imposta sem aviso prévio”, argumenta Carolina. No caso de quem tem filhos, a especialista explica que, além de lidar com o próprio sofrimento que essa condição pode trazer, é necessário agir com cautela e paciência, abrir espaço para o diálogo, oferecendo escuta compreensiva, encorajando-os a expressar e falar sobre seus sentimentos, exercitar a capacidade de empatia e de resiliência, reinventar-se, redefinir padrões pré-estabelecidos, ser flexível, acolher e trabalhar no autocontrole das emoções para, assim, antecipar reações, possibilitando relações mais saudáveis e equilibradas no âmbito familiar.
Isso porque, é natural e condizente com a nova realidade que as crianças apresentem mudanças de comportamento, oscilações de humor e até regridam em alguns aspectos, já que elas ainda não têm maturidade suficiente para compreender e processar os reais motivos que provocaram tantas restrições, privações e distanciamento das pessoas que gostam. Lidar com tamanha ausência, isolamento, falta da rotina habitual, da escola, dos amigos e dos familiares pode ser muito sofrido, despertando neles sentimentos de insegurança, angústia e ansiedade. “Não devemos esquecer que as crianças são espelhos e esponjas, muito sensíveis e atentas ao seu redor. A forma com que os pais irão se relacionar com seus filhos, as atitudes tomadas por eles serão uma influência direta na maneira com que os pequenos enfrentarão as limitações e as dificuldades, não só nessa fase, mas no decorrer da vida. É uma oportunidade de maior aproximação e de fortalecimento de vínculos”, conclui a psicóloga. Pensando nisso, é muito importante que os adultos estejam alertas em relação ao tempo de exposição à tecnologia e procurem junto a seus filhos se envolverem na criação de jogos, atividades e brincadeiras que permitam movimento e interação, despertem a percepção, sensações e ampliem a capacidade de autocontrole e inteligência emocional.