Arquitetura da saúde
Hospitais, clínicas e laboratórios possuem regras específicas que devem ser obedecidas na hora da construção ou reforma
Muitas pessoas que passam por um estabelecimento voltado à promoção da saúde, como hospitais, clínicas e laboratórios, não fazem ideia do quanto é complexo projetar um edifício adequado para todas as funções executadas nesses locais. Bem mais do que uma bela fachada, uma recepção aconchegante e quartos confortáveis, a arquitetura da saúde estuda e planeja cada detalhe da infraestrutura, começando pela divisão dos espaços, passando pela escolha de revestimentos, pela rede elétrica, pela logística de equipamentos, pelo fluxo de pacientes, acompanhantes e funcionários e pela armazenagem de produtos, incluindo também a mobília e a decoração. “Um hospital funciona 24 horas. É uma máquina viva, com uma intensa circulação e que sofre desgastes. Por isso, exige um conhecimento específico para ser projetado ou reformado”, afirma o arquiteto Joel Pereira. Especialista em arquitetura hospitalar, ele e sua equipe assinam o projeto de reformulação do Hospital São Francisco.
Na hora de criar, é preciso aliar a expectativa do grupo empreendedor ou o estilo do profissional, sem deixar de seguir as normas fundamentais para garantir a segurança da equipe e dos pacientes, além do bom andamento de todas as atividades. As regras que norteiam as construções na saúde são definidas pelo RDC 50, emitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Há, ainda, as normativas dos Conselhos Regionais de Engenharia e Arquitetura, as leis municipais, estaduais e os regulamentos específicos das entidades de classe. Essas entidades realizam inspeções com frequência para garantir que todas as indicações foram empregadas.
Marcelo Azevedo, gerente de hotelaria do Hospital São Francisco, explica a importância dessa preocupação com a arquitetura. “As técnicas e as ciências envolvidas nesses espaços, como medicina, enfermagem e administração, precisam de um local adequado para a concretização dos seus objetivos. A arquitetura contribui para isso. Ambientes que até pouco tempo não contavam com projetos hospitalares estão na planta hoje, como lanchonete, sala de conforto médico e áreas de compras. Outro fator importante é o conceito da sustentabilidade, com centrais de reutilização de água, fontes alternativas de energia e tratamento dos dejetos e do lixo”, complementa.
Segundo Joel, há mais um fator importante: a versatilidade. Como esse ramo é totalmente ligado à tecnologia e ela muda constantemente, é preciso pensar na funcionalidade dos espaços para promover adequações às evoluções da medicina e do aparato técnico. As inovações também estão presentes na decoração, promovendo a humanização dos espaços, com cantinhos aconchegantes, painéis e obras de arte. “Integramos arte e tecnologia com o objetivo de criar espaços mais humanos, onde eficiência, qualidade e funcionalidade convivem em harmonia com o bem-estar. É um verdadeiro desafio, mas o resultado compensa”, afirma. Ainda segundo o arquiteto, os trabalhos que envolvem a área da saúde correspondem hoje a 90% dos compromissos de seu escritório. “Há uma alta demanda para esse segmento”, comenta.
O Grupo São Lucas é outro exemplo de instituição de saúde que cuida de sua arquitetura para assegurar qualidade no atendimento, nos serviços e nas condições de trabalho de sua equipe. Wania Colombo Ferrari, coordenadora de projetos e construções do Grupo, ressalta que as regras são um ponto essencial para a elaboração do projeto. São elas que determinam o dimensionamento e a quantificação dos espaços físicos de cada unidade, bem como os materiais empregados, que devem ser duráveis, resistentes, de fácil limpeza e manutenção. As especificações abordam as particularidades de cada setor, como centro cirúrgico, CTI, quartos para internação, berçário, pronto atendimento, cozinha industrial e lavanderia. “Projetar um hospital é articular em um único edifício as evoluções humana e tecnológica. Cores, iluminação, ventilação, sons e mobiliários devem ser empregados corretamente. Assim, são capazes de contribuir positivamente para o estado emocional dos pacientes e dos acompanhantes”, indica.
Lucilena Françolin , gerente de qualidade do Hospital São Lucas, destaca que toda a atenção vale a pena. “Muitas instituições de saúde estão incorporando esse conceito em sua gestão. A arquitetura junto com a hotelaria faz com que as pessoas que frequentam o hospital se sintam acolhidas. O ser humano necessita desse carinho. Assim, a humanização dos espaços e do atendimento faz toda a diferença”, finaliza.
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Ibraim Leão e Julio Sian