Arte, cultura e música
Publicitário Lucas Lima conta o que o levou a escolher a profissão e a carreira
O mundo das artes encanta Lucas Lima desde a infância. Papel, tinta, caneta e tudo mais que estava ao alcance das mãos servia como matéria-prima criativa. Os esboços feitos como brincadeira, despretensiosamente, já demonstravam potencial. Não foi surpresa, portanto, quando ele decidiu cursar Publicidade e Propaganda. Nessa área, pode aguçar os sentidos, explorar novas formas de comunicação e empregar toda a sua bagagem cultural na elaboração de campanhas de grande impacto. Nesta entrevista concedida à amiga, fã e parceira de trabalho, Marina Diniz, Lucas conta sua trajetória, analisa o mercado de trabalho atual e revela os planos para 2014.
Marina: Por que você decidiu cursar Publicidade e Propaganda?
Lucas: Foi algo totalmente intuitivo. Desde pequeno, pegava qualquer papel que encontrava pela frente para desenhar. A cada dia, fazia uma coisa diferente: novos traços, formas, cores e temas. Gostava de imaginar, de criar personagens e materializá-los de alguma maneira. Meus pais também tiveram influência, mesmo que indiretamente nessa escolha, pois possuem uma forte ligação com a arte e o desenho. Ele atuava como arquiteto e sempre desenhava à mão. Ela tinha como um dos seus principais passatempos a pintura. Acabei me inspirando nos exemplos de casa e segui o mesmo caminho. A todo momento, o meu pai me incentivava, dizia que eu tinha talento e que eu deveria cursar Publicidade. Quando chegou a hora da decisão, também pensei em fazer Desenho Industrial, mas acabei optando pela Publicidade e Propaganda com ênfase em Marketing, pois senti que nesta área poderia atuar criativamente com mais liberdade e amplitude.
Marina: A faculdade fez com que você tivesse certeza de que estava no caminho certo?
Lucas: Para falar a verdade, não. A faculdade oferece apenas uma base, nada aprofundado, nada muito definitivo. Você aprende mesmo é quando sai da sala de aula para encarar o mercado. É na prática que entendemos verdadeiramente como essa engrenagem funciona e, com isso, descobrimos a função em que melhor nos enquadramos. Tive o privilégio de trabalhar desde cedo. Comecei aos 15 anos, como DJ. Aos 20, já terminando o curso, era designer independente. Eu e um amigo criamos uma marca de streetwear. Confeccionávamos e vendíamos camisetas, moletons e boardshorts. Depois de três anos, voltei para a Propaganda. Sendo assim, acabei pulando a fase dos estágios. A identificação com a área de criação foi nata. Atuei em algumas campanhas como redator e diretor de arte, mas meu ponto forte é mesmo a criação de conceitos através de imagens. Portanto, sou um diretor de arte de ofício.
Marina: No que você se inspira para desenvolver o seu trabalho?
Lucas: Absolutamente tudo é usado como referência. Estou atento o tempo todo no que acontece ao meu redor, desde algo que vejo na rua enquanto caminho até um diálogo que escuto no bar. Uma conversa em família, a história de um amigo, uma música, um filme, uma peça. Tudo fica registrado na minha memória, às vezes, por muitos anos. Na hora certa, esse conteúdo se torna matéria-prima para os meus projetos.
Marina: O lado pessoal também influencia, de alguma maneira, a sua obra. Como você definiria seu perfil? Do que você gosta?
Lucas: Tento enriquecer ao máximo o meu repertório cultural. Quanto mais informações registradas no arquivo, mais recursos eu tenho para conceber novas ideias. Por isso, sou bem eclético. Por exemplo: adoro os filmes assinados pelo Quentin Tarantino — desde os atuais, até os mais antigos. Também acho o David Fincher sensacional. A adaptação para o cinema de “Clube da Luta” que ele dirigiu é fantástica. Ao mesmo tempo, gosto de “Hitch - Conselheiro Amoroso”, uma comédia romântica estrelada por Will Smith. São estilos completamente diferentes. O mesmo acontece com a música. Sou fã tanto do ACDC quanto de Frank Sinatra, Amy Winehouse e Jorge Bem Jor. Cada um oferece elementos específicos que vão me auxiliar em algum momento do processo criativo.
Marina: Então é isso que você faz nas suas horas vagas? Continua trabalhando?
Lucas: De certa forma, sim. Ir ao cinema, assistir TV, acessar a internet, ler livros, escutar boa música, viajar, conhecer pessoas e descobrir inovações que facilitam a nossa vida nos mais variados ramos: tudo isso é a mais pura diversão para mim. Mas quando se trabalha com algo que você realmente gosta e que exige esse tipo de inquietação intelectual, fica difícil desligar a tomada, separar a vida pessoal da profissional. Essa ligação acaba sendo tão natural que eu nem percebo mais. Para ser um bom publicitário, tem que ser curioso por natureza, saber absorver a informação, processá-la e reinventá-la.
Marina: Você adquiriu experiência, participou de diversas campanhas de destaque, conquistou prêmios e, desde então, vem sendo apontado como referência no segmento. Esse reconhecimento é importante?
Lucas: Com certeza. Fico muito feliz com a resposta positiva do público, com a satisfação dos clientes pelos resultados positivos e com o reconhecimento dos meus colegas de profissão. Ganhei o meu primeiro prêmio no ano em que inaugurei a minha própria agência, em 2008. Foi inesquecível. Outros vieram em seguida, todos de grande relevância, como o Grand Prix da Associação dos Profissionais de Propaganda (APP) de Ribeirão Preto. Essas conquistas são extremamente valiosas para mim.
Marina: Existe uma receita para o sucesso?
Lucas: Não há uma receita pronta. Tem que ter aptidão para essa área. No fundo, o publicitário que atua com criação é um artista e todo o artista tem algo a dizer. Mas só isso não basta. A pessoa precisa saber como se expressar. Encontrar as ferramentas certas para estabelecer um canal entre o produto a ser vendido e o público. Também precisa ter uma boa dose de sorte para aproveitar as oportunidades que surgem pelo caminho. Estar no lugar certo e na hora certa faz toda a diferença. Vi muitas pessoas talentosas que não conseguiram emplacar. Acontece mais do que a gente imagina, infelizmente.
Marina: Às vezes, dá uma pane, um branco, e a criatividade some?
Lucas: Acontece sim. Na propaganda, temos a ideia ruim, a boa e a genial. E é claro que queremos ter, em todos os trabalhos, aquela sacada incrível, mas nem sempre ela aparece. Aí temos que recorrer a outros recursos para montar a peça ou a campanha. Vale lembrar que a Publicidade não se restringe à inspiração. Tem muita técnica envolvida: semiótica, a escolha da linguagem para cada público, o texto claro e bem construído, entre outros fatores. O mais fantástico dessa profissão é ter a habilidade de juntar elementos diferentes, até inusitados, e, de uma maneira simples, transmitir a mensagem do anunciante, para que ela faça todo o sentido para as pessoas.
Marina: Tem algum ídolo na sua profissão?
Lucas: Eu não diria ídolo, mas há pessoas que eu admiro. Tem gente boa de verdade em todos os setores. Reconheço, exalto e me espelho nos pontos fortes de cada um. É quase que impossível selecionar apenas um nome. Já que sou da área de criação e brasileiro, se for para escolher um entre tantos, destaco o Washington Olivetto. Ele é o Pelé da Publicidade e Propaganda, um vendedor nato, um excelente contador de histórias, que sabe bem o caminho que deve ser percorrido para entrar na mente das pessoas. Muitas campanhas marcantes veiculadas no país levam a assinatura dele. Em termos de design ou ilustração, os projetos do ilustrador mexicano Bakea e do brasileiro Adhemas Batista são interessantíssimos: modernos e cheios de personalidade. Para não deixar o mercado onde atuo de fora, aqui em Ribeirão Preto, cito o Zeppa Tudisco, com quem tive a chance de trabalhar, e o Rodrigo Faustino.
Marina: Qual é a atual situação da Publicidade no Brasil?
Lucas: Há quem diga que, criativamente, a propaganda brasileira não é mais tão poderosa quanto antes. Entretanto, ao analisarmos as premiações, notamos que, nos últimos anos, agências como a AlmapBBDO, DM9 e Ogilvy conquistaram um merecido destaque. Elas superaram concorrentes internacionais e foram eleitas as agências do ano no Leão de Ouro, em Cannes. Em termos de mercado, com a chegada da mídia digital, a propaganda vem sofrendo adaptações e transformações constantes para os novos canais que esse veículo oferece. Eles são extremamente rápidos e, fazendo bom uso, bastante eficazes. Um claro exemplo são os aplicativos para celular e tablets de grandes marcas, que viraram uma verdadeira febre. Hoje, não vendemos apenas produtos e serviços. Vendemos histórias, onde a marca convida o consumidor a contá-las junto com ela. O público precisa se identificar com a marca e com o produto. A imagem-chave, o jingle, o site ou o texto elaborado são apenas elementos de identificação, que fixam a mensagem na mente dos consumidores. Se o país cresce economicamente, a Publicidade vai junto. Os mais variados setores, como saúde, educação, beleza, alimentação, entretenimento, entre outros: todos recorrem à propaganda.
Marina: Como está o cenário de Ribeirão Preto especificamente?
Lucas: Houve uma boa evolução. Porém, ainda falta um nível maior de profissionalismo, de confiança e de investimento. Tanto na relação agência/colaborador como agência/cliente. É uma profissão, principalmente para o publicitário que atua na criação, com uma carga horária alta e um salário relativamente baixo. A cidade ainda registra um número impressionantemente alto de agências para a quantidade de clientes. Isso, de certa forma, atrapalha os bons contratos. Quem está na faculdade, ou quer cursar Propaganda, vai enfrentar, muitas vezes, uma metodologia rasa e básica, além de um mercado superlotado, onde muitos formandos são assumidamente indecisos e optaram por esse curso acreditando ser mais fácil. Isso gera profissionais com pouca capacitação, o que acaba prejudicando o andamento e o futuro do mercado. Porém, o progresso do setor em Ribeirão Preto, desde quando iniciei a carreira até hoje, é claro e merece destaque.
Marina: E no meio de tanta gente, é possível sobressair-se?
Lucas: Claro que sim. Temos os chamados “medalhões”, que são praticamente deuses da Propaganda. O próprio Olivetto, além de Nizan Guanaes, Marcello Serpa e Fábio Fernandes são alguns exemplos mais relevantes, mas cada área tem seus profissionais de destaque. Eles chegaram ao topo, tornaram-se verdadeiros mitos pelo portfólio que construíram. Por muito tempo, essa elite dominava soberana. Isso continua acontecendo, só que, de forma, menos intensa. O foco está diluído e o mercado está mais eclético e rápido, ávido por novos pontos de vida. Temos hoje, redatores ou diretores de arte de destaque que se tornaram grandes diretores de criação, como o Renato Fernandez, Andre Kassu e Dedé Laurentino. Há, ainda, alguns jovens talentos que estão edificando carreiras bacanas, como Marcelo Tolentino, Guto Chicanelli e Pedro Izique. Os dois últimos são de Ribeirão Preto. Por isso, quem trabalha com seriedade e comprometimento, tem que batalhar, diariamente, por um lugar ao sol.
Marina: Para finalizar, quais são seus planos para 2014?
Lucas: No momento, estou atuando como profissional independente. Tenho dez anos de experiência, já tive a minha agência aqui em Ribeirão Preto, a Lao Tse Propaganda, conheço bem o mercado e gosto da cidade. Já tive o convite para atuar em São Paulo. Mas, por vários motivos, preferi me estabelecer aqui. Continuarei trabalhando com publicidade e na área de criação. Como é uma das minhas principais características, a inovação vai marcar presença nos meus projetos em 2014. Busco novos desafios e entrei no processo de desenvolvimento de aplicativos para celular e tablet. Confio muito nesse tipo de mídia como um grande campo a ser explorado.
AMIGO PARA TODAS AS HORAS
“Conheço o Lucas desde a adolescência, das festinhas que a minha turma organizava. Ele e o DJ Tigre eram os responsáveis por animar a galera e sempre cumpria a missão com êxito. Foi o Lucas que me apresentou a maioria das músicas que marcaram essa época da minha vida. Posteriormente, essa trilha sonora registrada na memória se tornou uma referência importante na carreira que decidi seguir. Ficamos um tempo afastados e, para a minha surpresa, tivemos um reencontro na faculdade: eu fazendo Jornalismo e ele, Publicidade e Propaganda. Logo nos tornamos bons amigos. Quando assisti ao trabalho de conclusão de curso dele, fiquei impressionada com o que vi. Era muito talento. A partir daí, além de ser um ótimo conselheiro no aspecto pessoal, encontramos uma identificação no campo profissional. Conforme minha atuação como DJ evoluía, surgiu a necessidade de montar um material para divulgação. Ninguém melhor do que o Lucas para desenvolver esse portfólio. Com bom gosto e criatividade, que ele tem de sobra, aperfeiçoa e efetiva ideias brilhantes. É muito bom tê-lo por perto.”
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Carolina Alves
Agradecimento: Galeria Marcelo Guarnieri