Arte em desenvolvimento

Arte em desenvolvimento

Com o dom de interpretar a subjetividade descoberto ainda na infância, o artista plástico ribeirãopretano Dante Velloni nutre paixão pela arte, colecionando uma série de experiências nos cenários na


Texto: Paula Viana | Fotos: Luan Porto


Natural de Ribeirão Preto, foi na própria cidade que o artista plástico Dante Velloni iniciou a carreira artística. Logo na infância, começou a demonstrar talentos que o diferenciava dos demais colegas. Na escola, não se considerava bom aluno. Com dificuldade para compreender as disciplinas de Exatas, sempre se destacou em Humanas, tendo certo dom para entender a subjetividade e interpretar expressões literárias. “Na escola, não me ensinaram a aprender. Na minha vida, tudo foi muito intuitivo e a arte é intuitiva. Foi aí que me encontrei”, destaca o artista.

Com a habilidade artística descoberta ainda na infância, Dante contou com o apoio da família para seguir na carreira. Pelo talento para o desenho, os pais acreditaram que o dom do filho deveria ser valorizado e o matricularam em uma escola de arte. Apesar de não ter aprendido técnicas no curso, Dante explica que foi por meio dessa escola que passou a respirar arte e se rendeu totalmente à prática.

Descoberta a paixão, o ribeirãopretano mudou-se, então, para São Paulo, onde ingressou na Faculdade de Belas Artes para cursar Artes Plásticas e, depois, tornou-se docente na Instituição. Ao longo da carreira, chegou a lecionar em diversas universidades, públicas e privadas, sendo professor até hoje. Além da carreira acadêmica, Dante se destaca pelo prestígio conquistado em diversos países, onde apresentou exposições coletivas e individuais e se destacou pelo trabalho em multimeios. 

Em entrevista, o artista detalha o trabalho que desenvolve na arte há mais de quatro décadas.

Você admite que faz uma arte densa, transmitida em diversos tipos de linguagens. Quais seriam essas linguagens em que você se expressa?

Costumo utilizar duas linguagens nas obras: uma de discurso e uma técnica. A linguagem de discurso é aquela que propõe um diálogo com o espectador e a linguagem técnica é a que se adapta de acordo com aquilo que o discurso visual quer transmitir. Ou seja, primeiro eu penso o que eu quero transmitir para o espectador, depois utilizo uma determinada técnica que vai reproduzir aquele diálogo que eu pensei. Dessa forma, utilizo discurso e técnica para transmitir mensagens variadas em cada trabalho — e existem vários canais para passar essas mensagens. Já realizei por scanners, livro-arte, carimbo, foto, radio-arte, fita K7, entre outros. Escolho aquele que melhor traduz aquilo que quero passar para o público. 

Como foi o processo de amadurecimento de suas obras?

Eu não amadureci em minhas obras. Para mim, um verdadeiro artista nunca se acha maduro, ele está sempre buscando uma evolução. Portanto, eu não me considero maduro e nem busco a maturidade. Eu tenho o ímpeto da descoberta, estou em busca do desenvolvimento e estarei até o fim da vida. Eu preciso viver com o sentimento de que estou descobrindo algo, na arte e na vida.

O que suas obras representam?

Sinceramente, não sei detectar isso perfeitamente, pois é necessário que o artista saia de si para enxergar a obra de fora e poder entender o que ela representa. Isso é difícil, mas eu posso dizer que trabalho com fases artísticas e cada fase vai transmitir um conceito diferente. Esses conceitos são definidos com base em interpretações e reflexões amplas sobre o mundo. A representação das obras também vai variar conforme o repertório cultural do indivíduo que a aprecia. Cada espectador interpreta a obra de uma forma diferente, dependendo da bagagem cultural que carrega. O que a arte permite é desvelar um pensamento que o indivíduo já tem dentro de si e, às vezes, nem sabe que tem.

Para o artista, Ribeirão Preto carece de uma valorização local da arteQuem são suas inspirações no mundo artístico?

Não tenho inspirações artísticas. Conheço e admiro muitos artistas, mas não gosto de me inspirar para não haver plágios. Sempre digo que devemos conhecer vários profissionais para não imitar nenhum.

Quais outras questões te influenciam na hora de criar?

Não é possível definir, porque eu quase não trabalho com temática pontual, prefiro temas atemporais. Assim, as influências variam muito. Na maioria das vezes, são influências do mundo como um todo e não algo específico.

Comente sobre suas principais fases criativas: “Inferno de Dante” e “Céu de Dante”

Em Inferno de Dante, eu criava uma obra radical, em que eu pintava com a mão esquerda, trazendo uma arte densa que objetivava chocar o público e quebrar tabus. Inclusive, nessa época, eu trabalhei em um Hospital Psiquiátrico para buscar uma bagagem tensa do universo psicodélico e compor melhor essa fase. Depois de um, tempo eu já estava esgotado dessa temática, precisava criar algo novo, então resolvi falar sobre a inexistência de Deus, que é um tema que faz parte já do meu repertório herético. Comecei, então, o Céu de Dante. 

De que forma sua vida pessoal tem influência sobre essas fases?

A vida pessoal não influencia diretamente nas obras. Vai depender das fases artísticas pelas quais estou passando. Às vezes, o artista não quer falar sobre si na arte, mas quer falar sobre o mundo, então, em maioria, as influências são externas. 

Como você avalia o cenário artístico em Ribeirão Preto?

O público de Ribeirão Preto tem o hábito de tratar e valorizar de forma diferente os artistas daqui e os de fora. Nós, que nascemos e iniciamos a carreira artística aqui, acabamos sendo desvalorizados pela cidade em comparação com artistas de outros locais. Muitas vezes esses artistas nem tem uma bagagem tão grande, mas são vangloriados pelo público por virem de outra região, por terem um sotaque diferente, entre outras diferenças. Por isso, hoje, não me preocupo com o cenário daqui. Acredito que já fiz minha contribuição para Ribeirão Preto.

Como estimular a valorização da arte?

Eu acho que o Brasil precisa de uma descentralização da arte. As pessoas têm o hábito, como eu disse, de valorizar só aquilo que vem de longe e não dão o devido reconhecimento aos artistas locais. É necessário descentralizar a arte das capitais para obtermos o reconhecimento dos trabalhos em geral.

Qual é a sensação de criar uma obra?

É uma sensação de satisfação. A mesma sensação que qualquer homem sente ao produzir algo que acredita ser importante para o mundo, e isso é próprio do homem. Nós precisamos ter esse sentimento de satisfação, porque isso é vida. 

Sabemos que a arte demanda um longo tempo de análise e criação. Explique como funciona esse processo criativo.  

O processo de criação é dividido em séries. Conforme eu me esgoto de uma, crio outra, mas não encerro uma fase e parto diretamente para a seguinte. Antes, faço uma pausa, um processo de hibernação, no qual eu me alieno do mundo para pensar e refletir o que eu quero transmitir no próximo período. Depois desse tempo, que é indeterminado, vem um "start" de ideias e começo a colocar em prática aquilo que pensei.

Qual sua fase artística atual?

Atualmente, estou fazendo uma arte nova com outros materiais. Minha obra mais recente foi a representação do asfalto em alumínio, que apresentei na Eslovênia.

Conte sobre sua experiência no Art Cicle 2019.

Foi espetacular. Tive uma troca de experiências com artistas de 14 países que foi extremamente incrível. Havia muito respeito entre nós [artistas] e eu me senti muito valorizado lá fora, mais do que sou aqui.

Quais são os próximos planos de trabalho?

Meu plano é continuar trabalhando, seja prática ou intelectualmente. Continuar experimentando materiais novos, pois gosto e procuro a descoberta constantemente.

Podemos dizer que um artista está sempre em constante evolução?

Eu não sei se o artista evolui, mas eu sou daqueles que se transforma. Sou um homem em constante movimento, intelectual e prático. Evoluo na medida que desenvolvo minha cabeça, minha mente e minhas linguagens técnicas. 
Sem se classificar como um artista maduro, Dante revela que está em constantes descobertas artísticas
 

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