Arte na Pele

Arte na Pele

Com história e tradição artística, a tatuagem representa um estilo de vida para muitas pessoas e suas diversas vertentes trazem culturas de várias partes do mundo

Telas e quadros à moda antiga, orientais e tribais chamam a atenção quando se entra no estúdio de Diogo Rios. Entre desenhos de “quimonos” típicos da tradição oriental de tatuagem e pequenos quadros em Maori — arte indígena oriunda da Nova Zelândia — é que ele desenvolve novos trabalhos. “Comecei em 2007, em Araxá, minha cidade natal. Incentivei um amigo e fui incentivado por ele. Fiquei pouco tempo na cidade e vim para Ribeirão Preto, em 2008”, revela o tatuador, contando que antes de conhecer a tatuagem gostaria de ser jogador de futebol.

Quando chegou a Ribeirão Preto, Diogo trabalhou, primeiramente, no estúdio A Velha Escola. Lá, começou a praticar e foi incentivado a desenvolver melhor o Maori, um estilo de que gostava muito. “Comecei a disseminar essa questão do estilo, de tatuar só isso, que são os tribais que hoje estão mais em alta”, conta Diogo. Em 2010, foi convidado por Márcio Nascimento a fazer parte do estúdio Márcio Tattoo. “Fui para lá, principalmente, por conta do estilo. Tinha uma procura grande no estúdio dele, e como ele é mais direcionado para os estilos oriental e tradicional, fez o convite para mim”, conta ele. 
O Maori é o estilo que Diogo Rios prefere fazer
Os traços geométricos e minuciosos do Maori nunca foram uma dificuldade para Diogo. A prática e a proximidade com bons e experientes profissionais, de acordo com o tatuador, é a melhor forma de aperfeiçoar a técnica. “O importante, para mim, é a prática. Até chegar ao ponto de ter uma técnica aperfeiçoada, o profissional desenvolve seu estilo. Não há certo ou errado”, avalia Diogo.

As tatuagens tribais, que incluem o Maori, estilo em que Diogo tem mais experiência, trazem desenhos que possuem significados específicos em cada tribo. No Maori, por exemplo, elementos geométricos, desenhos de animais e símbolos têm seus conceitos. As tatuagens são feitas unindo esses elementos. Juntos, criam novos significados e podem até contar a história do tatuado.

O chamado “Old School”, por sua vez, representa um dos estilos mais tradicionais. Esse foi o precursor da tatuagem no mundo ocidental, que tinha como os primeiros adeptos os marinheiros, os fuzileiros navais, os piratas e os rebeldes, responsáveis, talvez, pelo tom marginalizado com que se enxerga a tatuagem até os dias atuais no Ocidente.  Os tatuadores instalavam suas lojas próximas às bases navais e, como não havia variedade de materiais e muito menos de tintas, o estilo ficou conhecido por ter nos desenhos somente as cores verde, vermelho, amarelo e preto para o contorno.

Um dos maiores nomes do tradicional é Sailor Jerry, ou Norman Collins, seu nome de batismo. Ele foi o primeiro a ter uma loja — ou estúdio, como se conhece hoje — voltado para a arte da tatuagem, no Havaí. Seu espaço foi aberto nos anos 30, ao fim da carreira como marinheiro, que concedeu a ele contatos e experiências que estão traduzidos em seus desenhos. 
No local, Sailor Jerry tatuava principalmente jovens marinheiros que partiam para a Segunda Guerra Mundial e que queriam levar consigo uma lembrança da América. Com a prática, criou novas técnicas e até mesmo novos pigmentos, ampliando a cartela de cores da época. Falecido em 1973, o tatuador deixou seu legado a dois aprendizes: Ed Hardy e Mike Malone. Para Diogo, entre tantos estilos e significados (ou até a ausência deles), gravar o que se gosta na pele é uma atitude de irreverência. “Não tem preço ver seu trabalho na pele de uma pessoa”, salienta Diogo Rios.

Mercado em ascensão 
Danilo Pereira tatua desde 2014 e encontrou sua identidade no Old School
Quando começou a tatuar, em 2014, Danilo Andrew Pereira, mais conhecido como Dap, já tinha se preparado por algum tempo, observando até mesmo as condições essenciais para organizar um estúdio, como a limpeza e o atendimento. Natural de Santo André, ele observava, desde criança, as tatuagens do irmão mais velho e reproduzia seus desenhos favoritos, como o Homem Aranha de Todd McFarlane. Assim que começou a se dedicar à tatuagem, passou a estudar o Old School e encontrou seu lugar. “Quando comecei a estudar tatuagem com meu amigo e professor Lúcio Souza, fui orientado a mudar meu olhar sobre o desenho e transformá-lo em desenho para tatuagem. Inicialmente, estudei o Old School porque o Lúcio também trabalha com esse estilo e eu me identifiquei. Parecia mais simples para o começo, porém, eu estava enganado. O Old School é bem mais complexo do que aparenta ser. É um estudo profundo e interminável”, revela Dap. Entre as referências do tatuador estão Amund Dietzel, Owen Jensen e outros artistas do estilo.

Para Dap, que trabalha atualmente no estúdio A Velha Escola, a tatuagem representa um estilo de vida que, por essência, foi construído por pessoas à margem da sociedade, rebeldes e livres de estereótipos sociais, e para que elas mesmas usufruíssem. Hoje, porém, há um grande mercado em ascensão, o que amplia sua atuação.  “A tatuagem me proporcionou muita liberdade, apesar de ser um ofício que exige um nível altíssimo de responsabilidade e empenho”, conclui Dap.

Sem restrições
Danilo Gasper é um dos artistas com mais experiência em Ribeirão Preto
Danilo Gasper é um dos artistas com anos de experiência no Old School de Ribeirão Preto. “Comecei na tatuagem em 2002. Eu grafitava. Vim de São Paulo para cá e, como não tinha ninguém para me acompanhar no grafite, eu andava com o pessoal do bairro. Até que um dia, escutando rap na rádio comunitária, ouvi que ia ter um curso”, conta Gasper. O curso de grafite era ministrado por Ton Lima, mesmo amigo que incentivou Diogo Rios a traçar seu caminho na tatuagem. 

Ton também tinha um estúdio de tatuagem, frequentado por Gasper. Assim, ele se tornou atendente da loja e daí para frente teve a oportunidade de começar a tatuar. “Eu chegava no estúdio às nove da manhã e limpava tudo, para todo mundo. Por estar trabalhando no estúdio, as coisas foram acontecendo. Quando vi, já estava tatuando”, explica. Ele conta que, no início, não havia o costume de escolher um estilo para tatuar. “Quando comecei a tatuar, não tinha muito isso de escolher estilo. Tatuávamos o que as pastas ofereciam: borboletas, dragões, índios, enfim, não tinha a opção de escolher a dedo o que seria feito”, conta o tatuador. O interesse pelo tradicional era um gosto pessoal de Gasper, mas, no começo, não tinha muitos adeptos.

“Depois de seis ou sete anos é que consegui implantar mais o meu estilo. Intitular um tatuador é uma ação nova. Um tatuador tem que fazer de tudo, ele não pode ficar preso a uma arte só, porque a tatuagem é uma arte muito ampla”, conclui Gasper.

Trabalho premiado
Para Márcio Nascimento, os estilos tradicionais, como o Old School e Oriental, são atemporais
Márcio Nascimento, conhecido por seus trabalhos em Old School e Oriental, conta que sempre gostou de desenhar, desde a adolescência em sua cidade natal, Pirassununga. Aos 16 anos, ganhou seu primeiro kit de tatuagem da mãe e começou a trabalhar na cidade de origem. Mais tarde, foi convidado por um amigo a trabalhar em seu estúdio, que ficava em Ribeirão Preto. Após alguns anos, em 2001, abriu o estúdio que leva seu nome, o Márcio Tattoo. 

Para o profissional, os estilos tradicionais representam algo atemporal. “Eu gostava desses estilos por ver os tatuadores que faziam o tradicional e perceber que o trabalho é legal para sempre, fora das modas. Acabamos fazendo as tendências também, mas o tradicional não se perde no tempo: foi, é e continuará sendo legal”, explica Márcio. Ele conta, também, que na época em que começou não havia muitas outras opções fora desses estilos.

Entre as várias convenções das quais já levou prêmios para casa, as que mais marcaram aconteceram na Argentina e em São Paulo, capital. “Na Argentina, foi uma surpresa. Inscrevi meu trabalho sem nenhuma pretensão e acabei ganhando. Em São Paulo, na convenção do Led’s Tattoo, também resolvi arriscar e inscrever outro trabalho. Acabei levando o segundo lugar como Melhor Preto e Branco”, relembra Márcio. Recentemente, ele passou uma temporada no estúdio Iron Glory Tattoo, em Miami.

Estilo de vida
Bobó começou sua história com a tatuagem há 24 anos, em 1995
Por incrível que possa parecer, a tatuagem não foi uma das paixões da adolescência de Emerson Dourado, conhecido pelos clientes e amigos como Bobó. “Eu desenhava, mas não tinha interesse pela tatuagem. A atração surgiu no meu último ano de faculdade de Agropecuária, em Salvador. Um amigo chegou com uma máquina de tatuagem e sugeriu que eu fizesse um desenho. Isso aconteceu em 1995”, conta Bobó. Assim, ele perdura na profissão até hoje.

Bobó não segue uma linha de estilo em seu estúdio, mas prefere os desenhos orientais e em preto e branco. “Fica difícil não fazer de tudo, mas essas são as minhas preferências, nos mais variados estilos”, explica o tatuador, enquanto faz um dos trabalhos de que mais gosta, em preto e branco. “Esta tem um tema Oriental, mas não é tradicional!”, explica o profissional.

Ele relembra que, no começo da trajetória, nem mesmo as famosas revistas de tatuagem, que exibem vários trabalhos e costumam habitar as salas de espera dos estúdios, existiam. “Em 1995, ouvia-se falar de um ou dois tatuadores. Não era como hoje, em que se consegue informação muito fácil na internet. Em 1999 para 2000 é que começaram a surgir as revistas de tatuagem, que, na verdade, eram publicações de rock com um espacinho para tatuagem”, esclarece Bobó. Hoje, ele acompanha alguns artistas que fazem os estilos de que gosta, como Maurício Teodoro, que se dedica ao Oriental, e Cigano, que faz realismo. “A tatuagem sempre representou um estilo de vida. Antes, ainda mais. Hoje, já se vê mais desenhos à mostra, nos braços, nas mãos”, comenta. 

Para ele, há algumas pessoas que aderem a esse estilo de vida por modismo, porque pessoas famosas, por exemplo, fizeram algum desenho. Porém, a maioria faz pelo gosto. “Você pode ver até que a pessoa segue um padrão quando gosta mesmo”, observa Bobó, complementando que a tatuagem traz consigo uma cultura e que outras artes estão ligadas a ela. “Alguns estilos musicais e o grafite têm muito a ver com tatuagem”, declara Bobó.

Um novo estilo
A fluidez das tatuagens aquareladas fascinam Bruno Tardioli, que se especializou no estilo
A aquarela é uma vertente que ganha cada vez mais espaço como estilo. Bruno Tardioli é um dos nomes que mais se destacam entre esses desenhos fluidos e coloridos em Ribeirão Preto. As referências dele vão de tatuadores como Victor Montaghini, Megan Massacre e Bruno Cavalcanti até obras de Salvador Dalí, Michelangelo e Caravaggio. “A aquarela me fascina pela fluidez e pelos movimentos de água. A tatuagem ganha vida”, destaca Bruno. 

O tatuador conta que, de início, teve receio de se entregar à profissão e, por isso, demorou para começar a praticar. Agora, há seis anos e baseado em muitos estudos que o incentivaram, faz da arte seu trabalho. “Estudei a aquarela em Londres e em Roma. No Brasil, invisto em workshops com os melhores artistas”, revela Bruno.

Identidade underground

Kelsen afirma que não conseguiria se enxergar de outra forma, a não ser com todas as suas modificações corporaisQuem conhece Kelsen Renato Bianco pessoalmente ou o encontra pelas ruas do Centro de Ribeirão Preto dificilmente esquece de sua imagem, seja pela extrema gentileza ou pelas tatuagens, piercings, acessórios e todo o estilo que carrega no corpo. “Minhas modificações corporais não têm um significado. Não vou falar que é forma de protesto. Acho que é algo meu, do meu gosto mesmo. Eu não me vejo de outra maneira, sem tatuagem, sem a dor. Fiz porque gostava e isso sim não deixa de ser uma forma de protesto, porque fugia dos padrões”, declara Kelsen. 

Em maio de 1993, ele foi um dos personagens da matéria de capa da Revide, “Guerreiros da Contracultura”. De lá para cá, para Kelsen, permanece a consciência de que nada vai mudar. “O mundo não vai mudar e você fica mais velho. Só isso”, afirma. Outro fator que perdura desde aquela reportagem é a música, que sempre esteve presente em sua vida. Kelsen toca há 35 anos e é integrante da banda Distúrbio Mental, há 26 anos. Como vocalista, apresenta-se na forma da personagem Abigail Papillon.

Abigail representa a pessoa que mais ama no mundo: a mãe. O sobrenome, Papillon, foi escolhido por representar a transformação que acontece com ele no palco. O nome significa borboleta, em francês, e também é título de seu filme favorito. A inspiração para a estética da personagem veio das bonecas de pano. “Peguei referências dessas bonecas, meio de vodus, meio sombrias, macabras. Aí fui juntando tudo com isso e fazia a pintura do rosto como se fosse a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo”, conta. 

A música proporciona momentos marcantes para Kelsen, como a situação vivenciada em um show em Araraquara, há 17 anos. Uma menina na plateia, que mesmo ouvindo um som pesado, estava dançando no colo do tio e jogando beijinhos chamou sua atenção. No fim da apresentação, ela foi conversar com o músico, o chamou de palhacinho e foi presentada com uma cornetinha. Ele pediu para os pais dela guardarem o instrumento, porque gostaria de rencontrá-la já moça. “Um dia, eu quero estar tocando em Araraquara e encontrar uma moça com uma cornetinha na mão, que virá falar comigo. Isso será a maior satisfação da vida”, ressalta Kelsen. 

Aquele encontro fez com que ele incorporasse de vez um “palhaço” do undergound. Além da Distúrbio Mental, há 16 anos Kelsen também tem um projeto paralelo, o Cabeça de Bode, que recebe influências do punk, mas com uma pegada mais industrial, segundo ele. 

Texto: Tainá Colafemina 
Fotos: Júlio Sian
Ilustração: Alexandre Nascimento

Compartilhar: