Arte Rebornista

Arte Rebornista

Técnica surgiu na Inglaterra após a Segunda Guerra Mundial, quando mães ‘remontavam’ bonecas velhas e quebradas para dar de presente às filhas

Com tamanho e peso semelhante ao de bebês recém-nascidos ou nos primeiros anos de vida, os ‘bebês reborn’ são caracterizados como humanos, dignos do mais puro trabalho artesanal e realista.

Frutos de uma técnica inglesa conhecida como ‘Reborn’ ou também ‘Rebornista’, esses bebezinhos de mentira, personalizados nos mínimos detalhes, do fio dos cabelos aos dedinhos dos pés, são a alegria de muita gente. A realidade do trabalho causa admiração, euforia e, às vezes, espanto.

A arte surgiu na Inglaterra, após a Segunda Guerra Mundial, quando mães ‘remontavam’ bonecas velhas e quebradas para dar de presente às filhas. O trabalho foi se aprimorando ao longo do tempo e ganhou muitos adeptos, tanto de artistas quanto de pessoas que admiram o trabalho.

A técnica de fazer ‘bebês reborn’ chegou ao Brasil há dez anos. Em Ribeirão Preto, a então farmacêutica Janaína Constantini começou pesquisando a arte em sites da internet. Ao comprar um boneco pela primeira vez, descobriu sobre cursos para aprendizagem da técnica. “Vi que tinha curso para iniciantes em São Paulo. Depois fui para Recife, Rio de Janeiro, para aprimorar. É um trabalho que precisa ser atualizado sempre, para dar mais realismo”, conta.

Há quase três anos vivenciando a arte, Janaína agora se diz uma artista rebornista. Para ela, montar peça por peça e realizar as etapas de pintura transmitem uma sensação maior do que paixão pelo trabalho. “É gratificante ver o bebezinho pronto e a reação das pessoas. É um trabalho ótimo”, afirma.

Para se fazer um ‘bebê reborn’, os moldes precisam ser encaixados, peça a peça, em um material de tecido articulado que remete ao corpinho da criança. Os membros, como cabeça, mãos e pernas – todos importados dos EUA – são de vinil siliconado e formam o restante do boneco.

Mas antes da montagem, Janaína explica que os membros passam por etapas. “Primeiro passo uma camada de tinta (cor da pele de bebê), espero secar, levo ao forno convencional para fazer com que a tinta penetre melhor e espero esfriar. Depois repito isso até dar a cor exata da pele”.

No molde da cabeça, a artista penetra fio por fio de cabelo, utilizando pelo de cabra ou lã de ovelha, e depois, os olhos são implantados. Nas mãos e pernas, o trabalho fica por conta da pintura. A riqueza de detalhes é tão grande que os bebês que Janaína ‘fabrica’ possuem até veias sanguíneas.

A técnica vai se aperfeiçoando até o ponto máximo da obra, que é quando o boneco ganha realismo. “O trabalho é artesanal, cada bebê é único. Os adultos ficam impressionados”, garante.

Segundo ela, um ‘bebê reborn’ leva dez dias para ficar pronto. No mês, a artista rebornista fabrica oito bonecos, em média; nos meses de maior movimento, como outubro e dezembro, ela chega a montar 24 bebezinhos. Cada um tem tamanho exato e o preço sai a partir de R$ 900. Para as mamães mais nostálgicas, Janaína cria bonecos semelhantes a bebês humanos a partir de fotografias.

Foi o que fez a advogada Daniela Cardoso, de 41 anos. A moradora de Cravinhos viu uma criança segurando um boneco no colo e se encantou pelo realismo do trabalho. “Fiquei apaixonada de imediato”, revelou. Ao conhecer o trabalho rebornista feito por Janaína, a advogada encomendou dois bonecos semelhantes aos filhos pequenos. “Senti amor a primeira vista pelos ‘bebês reborn’, então, entreguei fotos dos meus filhos para ela e os bonecos ficaram idênticos”, conta.

Hoje, com quatro bebês ‘reborn’ em casa, Daniela afirma que os trata como filhos de verdade e já tem planos para comprar mais. “Compro carrinho, roupinha, levo até para passear. Me sinto uma criança brincando no quintal de casa”, comenta.

Maternidade de brinquedo
A semelhança entre bonecas e bebês ou filhos pequenos geram nas mulheres sentimentos de afeição – não tão fortes como um bebê humano geraria, mas de forma quase igual. Muitas mulheres colecionam bonecas da mesma maneira que homens colecionam carrinhos de corrida.

De acordo com a psicóloga Myrna Coelho Matos, mestre em infância e adolescência e especialista em terapia comportamental, desde criança a mulher é estimulada a brincar de boneca e, de certa maneira, a se preparar para a maternidade. “Isso faz com que as bonecas, desde cedo, tenham um significado emocional grande para a mulher”, explica. Isto significa, segundo Myrna, que confeccionar ou colecionar bonecas pode ser um resgate da infância, tanto na parte lúdica quanto na parte de reviver aspectos que não foram bem resolvidos. “A motivação para quem compra pode variar, podendo ser adquirido como diversão e hobby, para presentear ou homenagear alguém ou para colecionar”, ressalta.

Entretanto, algumas mulheres podem usar o brinquedo com o objetivo de vivenciar elementos de uma maternidade verdadeira, mas que não foi realizada. “O que parece uma simples forma de obter prazer por meio de maternidade simulada pode ser fuga de uma realidade de vida que, por diversos fatores, não se consegue aceitar ou lidar”, conclui.

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Texto: Fernando Belezine (Colaborador)
Fotos: Carolina Alves

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