Árvores podem resolver buracos
Engenheiro agrônomo defende arborização como forma de minimizar danificação do asfalto
Não é uma solução para curto prazo. Mas uma prevenção para o futuro. O engenheiro agrônomo José Walter Figueiredo Silva, que trabalha com treinamento e desenvolvimento ambiental, afirma que a melhor prevenção contra os buracos que atormentam moradores de Ribeirão Preto está na arborização urbana.
Ele considera uma boa arborização uma cidade que, vista de cima, mostre entre 40% e 45% de cobertura vegetal. Mais árvores reduzem a temperatura que danifica o asfalto e as folhas amortecem o impacto da chuva sobre o asfalto.
“É muito simples. O sol incide sobre o asfalto, a temperatura alta faz com que as partículas, pequenas pedras que formam o asfalto se soltem, porque volatiliza o produto que as agrega. Quando vem a chuva, o pingo de água ao bater no asfalto faz buracos. O tráfego de veículos só os aumenta”, diz José Walter.
Ele recomenda como árvore ideal a sibipiruna, que tem folhas pequenas. “A sibipiruna retém cerca de 70% da água da chuva em suas folhas. O restante desce pelos galhos, tronco ou de forma amortecida, sem causar danos ao asfalto”. Para o engenheiro, árvores de pequeno porte não resolvem o problema.
“São necessárias árvores de grande porte e de forma continuada. Se a sobra está em apenas uma parte, há perda da energia, que se dissipa. O correto é uma árvore próxima da outra. Até porque elas se protegem encostadas e não caem”, argumenta. Ele recomenda inicialmente um diagnóstico e, depois, um plano de arborização gradual, mas contínuo.
“Falta vontade política para um plano desses. E como o poder público não faz, a população faz de forma errada, plantando árvores anãs e sem deixar o espaço necessário para o crescimento. Plantam mudas que não são da natureza urbana”, aponta.
No final da década de 1990, um plano de arborização chegou a ser elaborado por José Walter, quando era secretário municipal de Meio Ambiente. O custo, na época, era de R$ 450 mil. Mas três administrações já se passaram sem que o projeto saísse do papel.
Temperatura
José Walter garante que não se trata de “viagem”, mas de constatação científica. Para uma amostra de sua teoria, ele mediu, acompanhado da equipe de reportagem, a temperatura em dois locais do mesmo bairro, no Jardim Irajá, e na sequência.
Às 10h30 da manhã, depois de dez minutos colocado sobre a calçada da Rua Heitor Chiarello, o termômetro marcou 42 graus celsius. Na sequência, o mesmo termômetro foi colocado na sombra de duas grandes árvores, na Rua Manoel Achê, entre 10h50 e 11h. E mediu a temperatura em 28 graus, 14 a menos.
“Não é uma amostra científica, mas comprova a redução da temperatura. Se fossem mais árvores, em continuação, a redução seria ainda maior”, comenta o engenheiro, garantindo que uma árvore faz o mesmo efeito de refrigeração que cinco ou seis aparelhos de ar condicionado ligados permanentemente.
Atuação da prefeitura
A Prefeitura diz manter em vigência o programa "Vamos Arborizar Ribeirão", que teve início em março de 2013 e concluiu o ano plantando 11 mil mudas de árvores nativas de 16 espécies, nas calçadas, com mudas produzidas pelo horto municipal, sem custos. “Os bairros que receberam o plantio foram regiões consideradas prioritárias, diagnosticadas pelo professor Demóstenes Filho, da USP”, registra nota da Administração Municipal.
Segundo a nota, os bairros que receberam as mudas foram Centro, Roberto Benedetti, Manoel Penna, Parque São José, Bancários, Vila Seixas, Marincek, Avelino Palma, Adelino Simioni, Dom Mielli, Geraldo de Carvalho, Ipiranga, Arlindo Laguna, Alexandre Balbo, Maria Casagrande, Jardim Dona Branca, Diva Tarlá, Jardim do Trevo, Paulo Gomes Romeu, Paiva, Planalto Verde, Eugenio Mendes, Jardim Procópio, Jose Sampaio, José Figueira, Jardim Herculano, Jardim Helena, Jardim Eugenio Nunes, Jardim Florestan, Jovino Campos, Castelo Branco, Jardim Paulista, Jardim Paulistano, Jardim Independência, Campos Elíseos, Jardim Macedo, Quintino, Lagoinha e Educandário.
De acordo com a Prefeitura, as mudas oferecidas à população são algodoeiro, calicarpa, canudo de pito, resedá mirim, cássia macantreira, quaresmeira, ipê, carobinha, araçá amarelo, aldraga, pitangueira, resedá do campo, cássia, mirindiba, bauínia de Hong Kong.
“As árvores foram especificamente escolhidas por serem de pequeno e médio porte e atingirem altura ideal para arborização urbana”, aponta a nota da Prefeitura. Justamente o contrário do que afirma José Walter.
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Texto: Guto Silveira
Fotos: Carolina Alves