As consequências do silêncio
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio está entre as principais causas de morte entre jovens; para Juliana Vendruscolo, o tema precisa ser abordado, com clareza e objetividade
Assunto silenciado e pouco discutido, o suicídio ainda é um tabu social. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ato está entre as principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, são registrados, em média, 32 casos por dia — ou um a cada 45 minutos. Dados globais indicam que há cerca de 800 mil suicídios no mundo todos os anos. Do total, 79% dos casos ocorrem em países de baixa e média renda. A vivência de conflitos, desastres, violência, abuso, perda e isolamento está intimamente ligada ao suicídio. As taxas também são altas entre refugiados e migrantes, indígenas, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, intersexuais (LGBTI) e prisioneiros. Entre 2002 e 2012, o total de suicídios no país aumentou 34%, o que representou alta em relação ao crescimento da população no mesmo período, que foi de 11%. Das três causas trabalhadas pelo Mapa da Violência de 2014, esta foi a de maior crescimento decenal, superando os homicídios (2,1%) e a mortalidade em acidentes de transporte (24,5%).
O suicídio é resultado de um sofrimento físico e emocional que parece não ter fim, tirando o sentido da vida. A sensação é de total solidão, sem possibilidade de ser ouvido por outra pessoa. As perspectivas para o futuro parecem não existir e a melhor alternativa no momento do desespero é acabar com a dor. Entre as causas do problema estão depressão, problemas amorosos ou familiares, bullying, uso de drogas ou de álcool, entre tantos outros fatores. Pensando em sensibilizar e conscientizar a população sobre o tema, a OMS criou o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, 10 de setembro, mês que ficou conhecido como “Setembro Amarelo”, que alerta para os riscos de atentar contra a própria vida.
Durante o mês, inúmeras campanhas são reforçadas para mostrar que há maneiras de procurar ajuda, seja recorrendo a profissionais, como psicólogos, ou através do Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio emocional na tentativa de prevenir o suicídio. O atendimento é voluntário e gratuito para pessoas que querem conversar, sob total sigilo, e pode ser realizado por telefone, e-mail ou chat, diariamente. O número é 188. Na luta contra o suicídio, é importante discutir o assunto. Essa é a ideia defendida pela psicóloga e docente Juliana Vendruscolo, que alerta para a importância de estar atento ao comportamento suicida. Segundo ela, o tema deve ser tratado de maneira clara e objetiva.
Emile Durkheim já dizia que a causa de todos os tipos de suicídios é social. Você concorda com a afirmação do pensador francês?
Esta é uma perspectiva, que ocorreu num determinado período histórico. Hoje, no entanto, não falamos em uma única causa, são várias. Quando pensamos no suicídio, devemos olhar para vários fatores, inclusive sociais, mas não apenas.
Abordar esse assunto incentiva as pessoas a praticarem tal ato?
A saúde pública tem trabalhado bastante para quebrar essa crença de que falar sobre suicídio incita ou induz sua prática. O ponto não é discutir ou não, mas de que maneira tratá-lo, a quem e quando se dirigir. Então, podemos até entender que o modo de pensar tenha sido esse: “não vamos falar, vamos deixar bem quieto e aí está resolvido”. No entanto, estamos vendo que essa conduta não resolveu o assunto.
Como falar a respeito de suicídio?
É importante abordar o tema de uma forma clara e objetiva, livre de sensacionalismo, não mobilizadora, mas descrevendo a situação com exatidão.
A prevenção é a melhor forma de combater essa epidemia?
Acredito que destacar campanhas como “Setembro Amarelo” seja fundamental, mas tenho um pouco de receio da fantasia de que isso vá resolver essa questão. Se fosse simples assim, pensaríamos no suicídio como algo isolado. Na verdade, precisamos olhar o contexto atual: histórico, político, cultural e econômico em que esse ato está ocorrendo. A prevenção, portanto, é importante, contudo, não é a resolução de todos os problemas.
Como os pais podem ficar mais atentos ao comportamento dos filhos?
Talvez, apenas recomendar atenção já seja um dos problemas do nosso mundo. Isso deveria ser natural: estar atento a algo diferente que esteja ocorrendo no universo dos filhos. Se a pessoa — filho ou outra pessoa que convive comigo — está tendo comportamentos estranhos é importante estar atento. Se o filho está mais triste, mais calado e mais isolado, vale reforçar a atenção, mas, novamente, prevenção, controle e identificação de riscos não é sinônimo de controle absoluto. Dessa forma, caímos em outro lado do problema, a culpabilização desses pais. “Ah, mas não viram, não perceberam”, como se fosse um descuido.
Além da família, a escola pode colaborar no combate a fatos que levam ao suicídio, como o bullying, por exemplo?
Todos podem: a escola, a sociedade, os pais, estando atento ao outro, a tudo o que ele traz em sua vida. A escola deve observar se o aluno está trazendo alguma dificuldade. Independentemente se isso vai aumentar o risco de suicídio ou não, esta é uma questão que deve ser vista pela escola — não que a instituição possa resolver tudo, mas irá contribuir acolhendo aquele problema.
Acredita que as pessoas que passam por problemas emocionais têm suas dificuldades subestimadas pela sociedade?
Acho que devemos redobrar a atenção às relações. Faço questão de reforçar, mais uma vez, que isso não quer dizer que, necessariamente, alguém se matou porque o outro falhou. Entender isso é fundamental. Estamos falando de uma questão que ultrapassa os relacionamentos. Você mencionou o bullying. Quando existe uma situação que envolve um jovem e termina em suicídio — como a exposição física nas redes sociais, por exemplo — devemos pensar em como coibir isso. O que permeia as relações humanas capazes de tanta crueldade? Há diversas experiências cruéis de desrespeito. A sociedade atual vive cobranças muito contraditórias: devemos estar felizes o tempo todo, sermos bem resolvidos e desinibidos, falarmos bem, sermos competentes, darmos conta de tudo. Os jovens precisam, ainda, seguir o comportamento esperado para a idade.
Que comportamentos são mais recorrentes em um suicida?
Algumas situações podem ser chamativas. Pessoas que passaram por um impacto muito forte, uma perda afetiva brusca ou um rompimento afetivo intenso. Outros fatores, como doenças mentais, transtornos de personalidade, quadros depressivos, devem ser considerados. Na literatura, há relatos de pessoas que sofreram abusos na infância, físicos ou sexuais. Esses fatores podem aparecer combinados a características de comportamento, como isolamento, baixo humor, certa apatia, falta de planos e, às vezes, verbalizações, que chamamos de ideação suicida. A pessoa pensou, mas há todo um caminho até chegar à tentativa. Ela falou? Fala sempre? Menciona não só de morrer, mas de se matar? Esses podem ser alguns sinais. Há pessoas, ainda, que não comentam nada disso e eu costumo dizer que são essas que escorrem pelo meio dos dedos.
De que forma a internet pode influenciar indivíduos a cometerem suicídio?
A internet é o instrumento da nossa era. Se estivéssemos em outro século, não seria a internet, mas livros, revistas e ilustrações. Acho complicado demonizar o mundo virtual. De novo, vale avaliar o que estamos vivendo em termos de ética, de relacionamentos e de respeito, para que esse instrumento encontre tamanho espaço. Por outro lado, estamos aprendendo a reagir melhor a essas tecnologias.
Como evitar correntes de whatsapp que influenciam jovens a tirarem a vida, como a boneca momo, usada recentemente para promover desafios, como se enforcar com transmissão ao vivo pelas redes sociais?
Sobre isso, há algumas questões primordiais, entre elas, o acesso da criança ao celular ou a qualquer outro dispositivo sem supervisão. Os pequenos precisam ser acompanhados quando estão lidando com esses equipamentos. Além disso, os pais devem falar com os filhos sobre a presença de pessoas mal-intencionadas na internet. Se a criança notar algo diferente que os pais não viram, precisa se sentir à vontade para comunicar aquilo. Há escolas de Ensino Fundamental — inclusive em Ribeirão Preto — que estão se mobilizando. Já mandaram cartas e e-mails para os pais contando o que é a boneca momo e orientando como conduzir uma conversa com os filhos. Não estão esperando acontecer.
Como aprender a lidar com os conflitos ou as perdas do dia a dia, como um relacionamento terminado na juventude, que parece encerrar o mundo?
Esse jovem que termina o relacionamento e pensa em se matar ou considera essa possibilidade depois de uma briga em casa ou qualquer outro problema do gênero é reflexo de um mundo de mínima intolerância a qualquer tipo de frustração, que espera satisfação e resolução imediata. Vivemos em uma sociedade em que a velocidade de tudo é muito intensa.
O que é a pós-venção?
É o cuidado com aquele indivíduo que possui ideações ou que tentou cometer suicídio, e também com família em luto devido à perda de alguém que se matou. Esse trabalho de pós-venção é fundamental, em termos de saúde mental e de acolhimento a essa dor.
Quais os mitos que rodeiam o assunto?
Algumas afirmações, como “quem fala muito, não faz”, “ah, ele fez isso só para chamar atenção”, são alguns deles. Não interessa se a pessoa morreu ou se machucou alguém. Ela está dizendo que algo não está legal e isso já é suficiente para merecer cuidados. Outro mito é crer que “uma vez suicida, sempre suicida”, o que não é necessariamente uma verdade. “Quem quer, escolhe a forma perfeita” também não condiz com a realidade. Todas as afirmações citadas são completamente infundadas.
O suicídio tem caráter hereditário?
A literatura médica traz alguns pontos que sugerem que haja um caráter hereditário no suicídio, principalmente, quando associado a algumas patologias. No entanto, é um erro imaginar que casos na família sejam determinantes: é preciso que haja uma combinação de fatores.
Por que decidiu levar seu trabalho para fora do consultório?
Sou psicóloga clínica e dou aula em duas universidades, na Estácio e na Unaerp. Na Unaerp, trabalho na área hospitalar. Lá, também faço plantões psicológicos, um serviço da nossa clínica-escola destinado ao atendimento da comunidade. Nesse plantão, ouvimos muitas pessoas mencionarem o desejo de se matar ou relatando que já tentaram cometer suicídio. De alguma maneira, estou sempre em contato com isso no meio acadêmico. Além disso, minha pesquisa de pós-doutorado é relacionada ao luto. A Unaerp oferece, também o ambulatório de luto — por morte, por rompimentos afetivos ou por perdas laborais. No início do último semestre, fui convidada pela mesma faculdade para dar uma palestra de capacitação para os professores abordando essa temática.
Como os alunos recebem esse tema dentro da sala de aula?
O aluno de Psicologia se assusta, mas é bom que ele tenha a oportunidade de lidar com isso dentro do curso de graduação. Dessa forma, o estudante se sente mais preparado para o que possa aparecer em seu dia a dia, futuramente, porém, precisa de muito suporte. Atendemos pessoas que tentaram tirar a vida e também aquelas que estão planejando uma ação suicida. É preciso muita retaguarda para dar conta de acompanhar esse paciente.
De que maneira podemos aconselhar quem passa por problemas emocionais a levarem uma vida feliz?
Estamos vendo que a população está se mobilizando. No Facebook e no Instagram, por exemplo, há muitas pessoas oferecendo ajuda nesse sentido. Apesar de ser muito válido, é preciso também ter cuidado com esse tipo de oferta porque é preciso preparo para ajudar efetivamente quem está passando por uma situação limite. Quem está procurando ajuda pode se identificar com seu interlocutor ou não ter sua dor acolhida como deveria, o que pode piorar a situação. Profissionais habilitados para isso, por meio de escuta qualificada, tem mais condições de chegar até a pessoa, e acolhê-la de forma apropriada, para que ela possa compartilhar a dor, depois, desenvolver recursos para sair sozinha do problema em questão.
Juliana Vendruscolo | Texto: Bruna Romão | Fotos: Ibraim Leão