As ironias do amor

As ironias do amor

Muitos vivem tentando encontrá-lo, mas a verdade é que o amor pode estar em qualquer lugar ou nas situações mais inusitadas

O amor pode até ser “o espinho que não se vê em cada flor”, como definiu o poeta Vinícius de Moraes, mas, difícil quem não se arrisca a uma boa espetada, quando um simples olhar é capaz de revolucionar todo o corpo, causar arrepios na pele, reviravoltas no estômago, acelerar o coração, sem falar da mente, que simplesmente abandona o plano terreno e passa a divagar, sem hora de partida ou de chegada.
O amor é um gatuno que tira a paz, a lógica, o sono e o bom-senso, mas, também, um amante arrebatador que põe as emoções e sentimentos em colapso. Não é à toa que muitos passam a vida toda em busca de sua cara metade. Mas será que é algo que se deva buscar ou uma ironia do destino, que simplesmente o coloca à sua frente, sem nenhum aviso, mas com data e hora marcadas?

Se alguém perguntasse qual seria a chance de encontrar o grande amor em um salão de beleza, certamente ouviria que é quase nula, mas foi exatamente o que aconteceu com Marcela Vianna e Franck Valochi, em 31 de maio de 2013, no salão “Marta Brandão – as meninas e os meninos”, em Ribeirão Preto. Lá estava ela, ao lado da manicure, quando Franck entrou, acompanhado de um amigo para cortar cabelo. Quando ia subir ao piso superior, ala masculina do salão, viu Marcela. “Foi amor à primeira vista. Perguntei quem ela era ao barbeiro e comentei: ‘com essa eu casava’”, conta Franck, que pediu ao cabeleireiro que descesse e perguntasse o nome e o telefone da moça.

No mês seguinte, Franck retornou ao local e novamente solicitou o número do telefone. Em julho, o jovem mandou uma mensagem pelo facebook, dizendo que, embora parecesse loucura, a tinha visto no salão e que queria conhecê-la. No dia 19 do mesmo mês, Marcela estava em uma boate, um amigo de Franck a viu e ligou para ele, que decidiu ir até lá. Depois de se conhecerem em plena balada, marcaram um encontro para o dia seguinte. O resultado é que estão noivos, com casamento marcado para o mês que vem, dois anos após o primeiro encontro.
Segundo Marcela, o amor aconteceu para ela à segunda vista, pois na primeira vez não viu Franck. “Logo nas primeiras vezes que nos encontramos, senti que era algo diferente. Eu não estava pensando em me relacionar naquela época, mas o Franck é tudo o que eu imaginava. Sempre nos levamos muito a sério, conversamos sobre tudo, fizemos uma boa base”, conta a jovem, afirmando que o rapaz é carinhoso, atencioso e companheiro.

À medida que o conheceu no papel de filho, de amigo e no trato com outras pessoas, ficou cada vez mais encantada.

Para ele, não foi diferente: descobrir quem era Marcela só indicou que estava no caminho certo e a frase que disse ao amigo e ao barbeiro em tom de brincadeira, quando a viu pela primeira vez, estava se tornando profética. “Quando a gente se conheceu e saiu para conversar, vi seu jeito meigo, sua sinceridade, seu amor, sua determinação. Depois, quando passamos a nos conhecer melhor, percebi que ela era tudo o que eu pensava”, afirma Franck, para quem esse encontro com Marcela foi obra do destino.

Marcela vai mais longe: “Foi coisa de Deus. Foi um presente porque é muito bom estar com ele. Nosso encontro aconteceu em uma sexta-feira, por volta das às 18h30, um horário que não costumamos frequentar o salão. De alguma forma, tínhamos que estar ali, naquele dia e horário”, explica a noiva.

SINAL VERDE PARA UMA VIDA A DOIS

Essa mesma ironia do destino tomou a forma de um sinal vermelho para o casal Heloísa Carla de Moraes e Ronaldo Frata. Lá estava o policial militar, indo para um bar, parado no semáforo do cruzamento das avenidas Paschoal Innechi e Paris, quando olhou para o lado e viu a jornalista. “Na hora que a vi pensei: ‘nossa, que mulherão chique!’”. Obviamente, aproveitou o empurrãozinho do destino para convidá-la para uma cerveja. Como ela não quis, pediu que encostasse o carro para que batessem um papo. Depois dessa cena, que aconteceu em dezembro de 2010, conversaram por um mês ao telefone e, em 9 de janeiro, finalmente se reencontraram em um pub, não por obra do acaso, mas através de um amigo de Frata, com quem Heloísa começou a conversar e disse que havia conhecido um policial militar que, como ele, era de Brodowski.

O amigo ligou para Frata convidando-o para ir ao bar e, quando ele já estava a caminho, sem saber de nada, recebeu uma mensagem de Heloisa dizendo que estava lá. “Começamos a conversar, dançamos Creedence e ele me acompanhou até em casa. Na mesma semana, voltamos a nos ver e começamos a namorar, sem pedido nenhum”, conta a jornalista. A partir daí, a progressão amorosa foi meteórica: em três meses já haviam comprado uma casa, passaram a morar juntos e a planejar o casamento, que aconteceu pouco mais de um ano depois, no dia 16 de novembro de 2012, em uma cerimônia com direito a todas as honras militares.

Heloísa garante que não teve nenhuma dúvida que ficaria com ele, pois já havia tido dois relacionamentos sérios, experiências que a ajudaram a distinguir se daria certo uma vida a dois com Frata. “Ele é simples, trabalhador, humilde, honesto, companheiro, aberto ao diálogo, sabe calar, ouvir e é maduro”, pondera a jornalista. Para o companheiro, a sensação foi a mesma. “Acreditei no potencial dela como uma pessoa disposta a crescer junto, não a se apoiar em alguém. É bonito quando a pessoa se dispõe a fazer, não espera acontecer. Sem falar que ela é muito dedicada a mim, ao nosso lar, às nossas coisas”, ressalta o policial.

Para Frata, o encontro deles foi providência divina. Para ela, foi obra do destino. “Ele é meu tudo. É meu companheiro, o parceiro que me apoia, vibra com minhas conquistas, sofre quando as coisas não saem como eu gostaria. É a pessoa com quem queria, quero e pretendo continuar vivendo. Não vejo minha vida sem ele”, afirma. O marido acrescenta: “A Heloísa foi um divisor de águas, sempre a admirei muito, acreditei na nossa história. Ela é carinhosa, atenciosa, sempre busca harmonia em tudo, busca a igualdade de pesos e de opiniões. O amor não é só presentes e flores, é a demonstração no dia a dia, nas situações mais difíceis, é articular, é buscar o conviver”, revela o militar.

DA TRAGÉDIA À FELICIDADE

Quando o cupido decide, de fato, alvejar corações, o amor acontece, mesmo nas situações mais inusitadas. No dia 31 de outubro de 2013, uma sucessão de eventos culminou com um encontro que, em princípio, tinha tudo para dar errado. Magna Sousa Carrijo saiu de Rio Verde, Goiás, para visitar um amigo em Rondonópolis, no Mato Grosso. Quando chegou a Mineiros, pensou em desistir da viagem e decidiu parar para almoçar. Enquanto ela comia no restaurante, o vendedor Nilton Neves passava por ela, na BR-364, rumo a Jaciara, para um compromisso de trabalho. Ele tinha pressa, pois seu caminhão havia quebrado duas vezes no percurso, atrasando em dois dias a viagem.

Mais à frente, Magna ultrapassou Nilton e não demorou muito para o vendedor ver o carro que o havia ultrapassado perder o controle e sair da estrada. Outro motorista que seguia entre eles já estava parado no acostamento, sinalizando, pedindo auxílio. Nilton encostou o caminhão e viu o carro de Magna na ribanceira. Quando percebeu que o vendedor pretendia descer até o carro, o homem que chegara primeiro lhe disse que não fosse, pois com tanta fumaça, o carro poderia explodir. O vendedor desceu, conferiu as condições do veículo e viu Magna bater com as mãos no para-brisa, tentando sair. Ele pediu que ela se afastasse e protegesse o rosto, quebrou o vidro com um galho e a retirou do veículo.

Foi nesse momento que algo quase mágico aconteceu. “Quando quebrei o para-brisa, ao invés de uma mulher, vi uma luz muito bonita e não consegui mais abrir mão. Parei de pensar em serviço, em viagem, e só conseguia pensar nela. Meu irmão disse que eu devia estar louco”, afirma o vendedor, confessando que bastou olhar para Magna para que o propósito inicial de ajudá-la se transformasse em outras intenções. “Ela transformou minha vida. Nunca havia me sentido tão feliz. O que, naquele momento, era motivo de tristeza para ela, me causou grande alegria, por conhecê-la”, relembra o vendedor.

Sem nem pensar, Nilton abandonou todos os compromissos para ficar ao lado de Magna e, mesmo sem saber se ela era comprometida ou não, naquele mesmo dia, a pediu em casamento. “Ele ficou comigo desde que me resgatou, por volta das 15h, até quase meia-noite, quando meu amigo chegou ao hospital. Fiquei impressionada com a agilidade dele em resolver os meus problemas, com o carinho e a atenção que demonstrava comigo”, diz Magna, contando o que a havia atraído naquele estranho que passou a fazer parte de sua vida.

Após o acidente, a região, que já fazia parte do roteiro de trabalho de Nilton, passou a ter outros atrativos: foi visitar Magna, levando chocolates e presentes. Dezoito dias depois, Magna já estava em Ribeirão Preto, hospedada na casa de Nilton, para fazer exames que não conseguia realizar em Rio Verde. A partir daí, passou a dividir o mês entre o período que passava com Nilton e o período que ficava na cidade em que morava. Hoje, juntos há um ano e sete meses, vivem em Ribeirão Preto. “O Nilton é muito importante para mim. É uma pessoa muito especial”, afirma, ressaltando que aquele homem à moda antiga, companheiro, que valoriza a família e está sempre alegre, a faz muito feliz.

Para Nilton, Magna é um presente de Deus, já que uma série de eventos ocorreu para que ele estivesse ali, no exato momento de resgatá-la, como os defeitos do caminhão que o fizeram atrasar a viagem e a recusa do motorista que chegou primeiro ao acidente em descer a ribanceira para acudi-la. “Assim como meus filhos, Magna é tudo de bom que aconteceu na minha vida. É minha vontade de viver, minha alegria e felicidade. Hoje, minha vida tem sentido”, ressalta o vendedor.

A PAIXÃO DECOLA

Um dos sintomas mais comuns e definitivos da paixão é viver com a cabeça nas nuvens. De fato, para os apaixonados, é quase impossível manter o foco e os pés no chão. Imagine, então, quando a já estonteante química do amor ocorre, justamente, dentro de um avião. Em 5 de abril de 2012, a farmacêutica Micheli Kitazono voltava, com sua mãe, das férias em Natal, rumo à sua casa, em São Joaquim da Barra. Dário Kitazono, administrador de empresas ribeirãopretano, voltava de uma viagem de trabalho que fez a Porto Alegre. Em Congonhas, pegaram o mesmo voo para Ribeirão Preto. Ela entrou no avião sem óculos e, mesmo sendo míope, percebeu um rapaz em pé, no final da aeronave, olhando fixamente na direção dela. Ao se aproximar dele, à procura dos assentos, percebeu que era para ela que ele olhava. Micheli notou também que as poltronas destinadas às duas ficavam justamente ao lado da do rapaz, separadas apenas pelo corredor.

Tímida, a farmacêutica deixou o assento do lado do corredor para a mãe e, ao tentar guardar a bagagem, o estranho rapidamente quis ajudá-la. Recusou, inicialmente, mas teve que aceitar, pois não havia espaço suficiente no bagageiro. Apesar da resistência da moça, o administrador de empresas não desistiu: aproveitou o primeiro comentário da mãe de Micheli para iniciar uma conversa que se prolongaria durante toda a viagem. Já próximos a Ribeirão Preto, o jovem passou seu cartão à farmacêutica e pediu o dela. Como ela respondeu que não tinha, Dário solicitou que ela anotasse seu perfil no facebook em seu celular. “Como eu namorava, imaginei que ele fosse perceber logo de cara, mas, apesar de estar com alguém, estava muito infeliz. Sempre rezava e perguntava se aquilo que eu sentia era realmente amor”, conta Micheli.

Depois de semanas conversando pela rede social, Dário quis encontrá-la para entregar uma carta que havia escrito, mas ela desconversou. Num dia de temporal, fez fotos da sacada e postou no Facebook. Dário mandou uma mensagem dizendo que sabia onde ela morava, pois, na foto, reconheceu o condomínio que fica em frente à casa de sua avó. Micheli ficou impressionada pelo fato de Dário ser tão observador e por estarem tão próximos e nunca terem se visto.

Como não conseguia se aproximar, o rapaz partiu para a tática usada no avião: adicionou a mãe e a irmã da jovem no Facebook, que passaram o celular de Micheli. Quando ele ligou, ela ficou furiosa e disse que ele não deveria mais ligar, nem deixar mensagens. Porém, dias depois, a farmacêutica terminou o namoro e começou a sentir falta das mensagens com música que Dário a enviava todos os dias. Por um MSM decidiu perguntar se ele estava vivo. “Neste momento, ele estava em São Paulo, a trabalho, contando de mim para um colega. Ele me ligou na hora e voltamos a conversar”, conta Micheli.

No dia 9 de junho, ela aceitou um convite para jantar e, quando se despediu de Dário, aconteceu o primeiro beijo. “Ele sempre dizia que iria ficar comigo e que, quando esse dia chegasse, ia querer namorar, uma frase que nunca pensei que fosse escutar. Parecia que ele tinha o meu manual e, em várias situações, eu me surpreendia com as coisas que ocorriam entre nós”, ressalta a jovem, para quem a insegurança foi dando lugar, aos poucos, a uma certeza que crescia a cada encontro com o rapaz.

Casados há 10 meses, Micheli encontrou sua alma gêmea quando entrou no avião. “Ele é a minha certeza de que o verdadeiro amor existe porque tornou minha vida mais feliz do que jamais sonhei”, revela a jovem, para quem o encontro foi coisa do destino, já que o universo conspirou para que acontecesse: a avó paterna dele mora em frente à sua casa; a avó materna morou na cidade em que ela nasceu e foi vizinha da avó paterna de Micheli; eles fizeram várias viagens para os mesmos lugares, nas mesmas épocas, sem nunca terem se visto.

Hoje, Dário, assim como os outros casais, concorda com o poeta que também disse “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Ele manda um recado a quem ainda procura o verdadeiro amor: “Não desista, pois ele pode estar onde menos se espera. Devemos estar abertos às chances que o universo nos proporciona todos os dias. As pessoas perdem e ganham novas oportunidades quando o sol nasce e a noite cai, basta estarem abertas e, principalmente, não perderem o brilho no olhar”, conclui o rapaz.


Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian
Produção: Marcela Versiani
Agradecimento ao Hangar Gold Sky de Ribeirão Preto, tel.: (16) 3626.7917, pelo empréstimo da nave Cirrus

 
 

Compartilhar: