As prioridades da nova geração

Ter a casa própria, realizar os planos profissionais e, só depois, constituir família é o objetivo da nova geração

Sonhar, fazer planos, lidar com altos e baixos pessoais e profissionais. Criar expectativas, administrar frustrações e, mesmo assim, manter o foco no futuro. São essas as características que unificam Fabrício, Monique, Paulo e Naianne: ainda jovens, estão preocupados em crescer, amadurecer, consolidar a carreira e, finalmente, formar uma família.

Para esses jovens adultos, a formação universitária não é suficiente para assegurar sucesso profissional, assim como ter um emprego estável não garante tranquilidade e felicidade. Eles querem mais e não medem esforços para realizar seus planos, sem se preocupar com a idade  ou com a velha imposição do casamento.

Movido por desafios, Fabrício Scaff Galvão abriu seu primeiro negócio — uma empresa de marketing — aos 20 anos. Atualmente, aos 29, comanda seu segundo investimento: uma distribuidora de equipamentos médico-hospitalares. “Os jovens costumam definir seus objetivos durante a faculdade. Nessa fase, é importante fazer um planejamento e começar a executá-lo. Seja qual for o projeto, essa escolha merece ser respeitada. Eu sempre quis ser empreendedor e busquei esse sonho. Pretendo formar uma família, mas, antes, quero conquistar estabilidade financeira para, assim, proporcionar o melhor para minha esposa e meus filhos”, explica o jovem, formado em Publicidade e Propaganda e mestre em Comunicação.

O empresário acredita que o primeiro passo é traçar uma meta, não muito longa, de como e aonde se pretende estar em alguns anos. Depois, é preciso fazer uma escolha profissional que esteja de acordo com essas expectativas. O raciocínio é o mesmo quando o assunto são os relacionamentos. Para o empresário, muitos problemas recorrentes nas relações atuais estão relacionados à falta de coragem de correr atrás dos sonhos. “Quem sabe o que quer tem mais chance de ter um relacionamento de sucesso”, avalia Fabrício.

Paulo César Brambilla Bíscaro divide seu tempo entre a residência em Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas, os projetos pessoais e os plantões. Para o médico, a maior dificuldade dos jovens modernos é manter saudáveis as relações interpessoais. “A rotina do trabalho e de outros compromissos é muito intensa e, dificulta a manutenção dos vínculos. Assim, os contatos se tornam majoritariamente virtuais, feitos através das redes sociais, emails e outros recursos”, observa. Paulo salienta que a tecnologia permite a comunicação entre mais pessoas, mas gera uma falsa sensação de proximidade e colabora com o distanciamento físico.

Com tantas exigências, os jovens também precisam de organização para realizar projetos particulares. Paulo quer conciliar o trabalho a outros interesses. Há dez meses, resolveu que deveria retomar uma atividade esportiva e se propôs um desafio: participar do IronMan 2012, prova de triathlon com percurso de 3800 m de natação, 180 km de bicicleta e 42 km de corrida. “Durante a adolescência, sempre pratiquei natação e participei de competições, mas interrompi essa rotina durante a faculdade por falta de tempo. Agora posso retomar o esporte. Com a inscrição feita, procurei orientação especializada. Neste momento, meu maior desafio é conciliar os treinos (dois períodos por dia) ao trabalho e à vida social”, declara o médico residente.

A coordenadora de marketing da Fortes Guimarães & Coelho da Fonseca, Monique Alves Barbosa, acredita que a ansiedade é outro mal dessa geração. “Tudo muda muito rápido e a velocidade das informações leva o jovem a pular etapas porque já não espera o momento certo de cada coisa. Além disso, o mercado de trabalho é cada vez mais exigente e acaba tomando todo o tempo de quem quer investir na carreira. Passou o tempo em que graduação e inglês eram diferenciais. Hoje, são obrigações”, analisa Monique, que pretende concluir seu MBA em 2012, conhecer um país ou lugar novo a cada ano e comprar um apartamento.

Estudante de Direito Naianne Alvarenda Detoni, de 22 anos, já traçou as metas para o futuro. Apesar de ainda cursar a sexta etapa da faculdade, pretende prestar concurso público e seguir carreira como delegada federal. “Quero me realizar profissionalmente, ter uma condição estável e, depois, constituir uma família. Essa fase anterior ao casamento é essencial para desenvolver o autoconhecimento, conquistar mais independência e aprender a controlar as emoções”, acrescenta a estudante.

Consolidar a carreira e ser independente são características que tornam os jovens modernos um mercado interessante. Segundo pesquisa da consultoria Data Popular, os 47,1 milhões de solteiros brasileiros gastam cerca de R$ 418,7 bilhões por ano. Por não serem provedores de família, os focos de consumo dessa fatia etária são aquisições pessoais e entretenimento. Sair para bares, comprar roupas e viajar não são problemas para esse público. A busca por um imóvel também faz parte dos interesses desse perfil.

A independência financeira torna os jovens mais difíceis de contentar também nos relacionamentos. Eles buscam companheiros com características semelhantes as deles e, por manterem o grau de exigência muito alto, frustram-se com frequência. Esta é a percepção do filósofo, pedagogo e especialista em relações de gênero, Wlaumir Doniseti de Souza. “Há uma vitória do capitalismo nesses jovens. Desde cedo, essa geração é preparada para o mercado de trabalho. Nessa busca, sobra pouco espaço para os sentimentos e para a realização pessoal. Nunca se vendeu tanto calmante na ‘era da libertação’ afetiva”, ressalta Wlaumir.

O casamento
Diferente de décadas atrás, estar solteiro aos 30 anos é muito natural atualmente, opção de boa parte dos jovens. A conquista da casa própria, de um emprego estável e uma vida com qualidade são preocupações que antecedem a realização afetiva. Com expectativa de vida mais longa e crescente, protela-se questões antes consideradas urgentes. “Até meados de 1970, a possibilidade de planejamentos a longo prazo era nula, pois vivia-se menos. Casar cedo era uma decisão natural. Hoje, a possibilidade da maternidade mais tarde, por exemplo, torna os projetos de família menos urgentes”, avalia Wlaumir.

Além disso, o casamento acontecia mais cedo por uma questão cultural. “Casar cedo era quase uma imposição social. No mundo contemporâneo, os jovens têm outras escolhas: viajar é mais simples, especializar-se profissionalmente é quase obrigatório e a comunicação está facilitada pela tecnologia”, complementa o especialista. Apesar da mudança, Paulo Bíscaro acredita que a juventude mantém o desejo de ter uma família, assim como as gerações anteriores. “O que mudou foi o momento que isso acontece. A maioria das mulheres não faz mais do casamento um objetivo de vida. Assim como os homens, elas preferem concluir sua formação profissional e realizar interesses pessoais antes de pensar no casamento”, acrescenta o jovem.

Essa percepção é comprovada pelas estatísticas. Segundo estudo realizado pela consultoria Data Popular, quase 70% dos solteiros brasileiros têm até 35 anos, sendo que 77% deles integram as classes A e B. “Aos 25 anos, nossos pais já estavam casados e muitos tinham filhos. Estou solteira há algum tempo e percebo que estar sozinha não é sinônimo de solidão ou de infelicidade. A estabilidade da economia possibilitou a descoberta do prazer de investir na própria realização em primeiro lugar”, considera Monique.

Com tantas mudanças no cenário social, a mulher ainda busca uma identidade, driblando o instinto feminino, principalmente na hora em que o desejo de ser mãe bate à porta. Elas encaram duas ou três jornadas diárias na tentativa de conciliar o desejo pela realização profissional e os compromissos com a família e a casa, ainda pouco divididos com os maridos. “A nova realidade ainda é recente e os homens estão aprendendo a lidar com essas mulheres contemporâneas”, complementa Wlaumir.

O empresário Fabrício Galvão acredita que as mulheres ainda sofrem mais por estarem solteiras. “As mulheres ainda vivem conflitos quando o assunto é, por exemplo, ser mãe”, acrescenta o empresário. Monique também acredita que os planos em relação ao casamento mudaram. “Desde criança somos condicionadas à fórmula perfeita da felicidade: namorar, noivar, casar e ter filhos. Nossa geração evoluiu, mas também trouxe fatores negativos. Os jovens estão intolerantes, o que dificulta a estabilidade de um relacionamento. Além disso, acredito que alguns valores foram deixados para trás e encontrar uma pessoa com o respeito de antigamente é cada vez mais difícil”, explica a coordenadora de marketing.

Segundo o especialista em gêneros, tudo é possível na contemporaneidade. “Vivemos todos os tempos nessa época. Há espaço para todos os perfis: independente, romântico, sonhador, pés no chão, acomodado, entre outros. Acredito que o grande problema dos relacionamentos hoje em dia é a falta de comunicação”, conclui Wlaumir.

Texto: Mariana Secaf
Fotos: Carolina Alves e Julio Sian
Agradecimentos: Essence Maison Degaine, Eurobike e Da Fiori

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