As professoras da arte de viver

As professoras da arte de viver

Mulheres exemplares, que inspiraram seus filhos de diferentes maneiras no campo pessoal e profissional, são o tema dessa matéria especial em homenagem ao Dia das Mães

Não existem manuais, fórmulas ou regras pré-estabelecidas que preparem a mulher para exercer o papel de mãe. Mesmo assim, quando se sentem prontas para gerar uma nova vida, embarcam nessa jornada rumo ao desconhecido sem pestanejar, um ato de amor e de coragem que exige grande responsabilidade. Logo no início da gestação, forma-se um elo físico e emocional inexplicável. Sentimento sutil e poderoso que só quem passou por essa experiência única consegue dimensionar. Após o nascimento, começa um longo processo de aprendizado, já que esse pequeno ser humano chega ao mundo com suas próprias necessidades e desejos. Saber a hora de amamentar, entender o jeito certo de trocar fraldas e de dar banho, identificar o choro da cólica e reservar o momento ideal para o soninho de descanso são apenas alguns dos desafios cotidianos. Cumprir cada um deles não é uma tarefa fácil. Mãe e filho precisam de um tempo para se conhecer e para afinar a sintonia. Aos poucos, dúvidas, inseguranças e angústias são gradativamente aplacadas e a relação ganha mais leveza e tranquilidade.

Durante a fase de formação, o bebê fica suscetível a absolutamente tudo o que o rodeia, sem filtros. Por isso, cabe aos pais, desde cedo, criar um ambiente propício para o desenvolvimento e oferecer bons exemplos. Como, geralmente, a mulher é a figura mais presente nessa etapa, ela acaba desempenhando com maior frequência a função de ensinar, tornando-se, assim, uma espécie de primeira professora. As lições vão muito além do bê-á-bá e incluem, desde ações simples, como sorrir, falar, comer e andar, até conceitos mais complexos, como valores e crenças familiares. Com essa convivência intensa e constante, é natural que a criança a enxergue como um modelo a ser seguido. Em alguns casos, essa identificação é tão profunda que os filhos optam por seguir os mesmos passos mães. Isso pode ser notado através de diferentes aspectos, como no modo de se comportar diante de uma situação, na escolha de um hobby ou no campo profissional.

Foi exatamente o que aconteceu com Anne, Bianca, Fernanda e Camila Sitta. Desde pequenas, as quatro viviam passeando pela loja comandada pelas mães. As irmãs Luciane e Viviane deixaram de lado carreiras consolidadas em Pedagogia e em Biomedicina, respectivamente, para trabalhar com móveis e artigos de decoração. “Nossa mãe estava
sempre com a casa muito bem arrumada, com elementos decorativos de bom gosto impecavelmente distribuídos pelos ambientes. A nossa paixão pelo segmento surgiu justamente por causa dela. Também temos um irmão, o Décio, que é artista plástico e entende bastante do assunto”, lembram Luciane e Viviane. Unindo as aptidões de cada um, os três fundaram, em 1994, a Incontri, em Jaboticabal.

As filhas cresceram acompanhando essa dinâmica de perto, com admiração e orgulho. Na faculdade, formaram-se em Administração de Empresas e decidiram replicar essa receita de sucesso em Ribeirão Preto. À frente da Sittas Presentes e Decorações, elas encontraram a realização plena. “Não poderíamos estar mais felizes com a nossa escolha. Nossas mães foram fonte de inspiração e, hoje, graças ao incentivo e ao apoio delas, trabalhamos com algo que realmente gostamos. Ainda temos como bônus essa proximidade com a família. Mesmo que a nossa loja tenha um estilo próprio, distinto da Incontri, fazemos compras juntas e estamos, frequentemente, trocando experiências e know-how em busca do aprimoramento permanente. O fato de atuarmos no mesmo ramo fortaleceu ainda mais o nosso elo”, revelam as sócias.


Segundo a psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP), com mestrado e doutorado pela mesma Universidade, coordenadora do curso de Psicologia da UNAERP e professora supervisora de estágio na área de Orientação Vocacional / Profissional, Mariana Araújo Noce, esse cenário é bastante comum e até compreensível. “Atualmente, a vocação não é compreendida como algo inato. Ela é construída ao longo da história de vida do sujeito, em sua relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo. De maneira geral, o grupo familiar é responsável por apresentar para as crianças os conceitos, as concepções, os valores, os exemplos e as imagens referentes a determinadas profissões. Perceptivos, os filhos coletam opiniões e analisam o grau de envolvimento e de satisfação dos pais diante do trabalho. Na hora de escolher uma carreira e de traçar planos para o futuro podem, consciente ou inconscientemente, incorporar essas visões”, explica a especialista.

Mariana recomenda aospais, especialmente às mães, que participam ativamente desse momento, com muita observação, diálogo e acompanhamento para que a influência ocorra de maneira positiva. “Ações de incentivo, apoio, aceitação, disponibilidade para comunicação, estímulo à autonomia e às potencialidades, oferecimento de recursos materiais e educacionais são muito benéficas. É preciso controlar a ansiedade para evitar cobranças excessivas, pressões e imposições, que impedem o amadurecimento. Os resultados dessa postura, geralmente, são decisões precipitadas e, em longo prazo, possíveis frustrações que contribuem para adoecimentos físicos, psíquicos e dificuldades de relacionamento”, ressalta a psicóloga. O jovem tem que ter a liberdade para investigar seus interesses e testar as habilidades na vida real. Acertar e errar faz parte do aprendizado. Mariana destaca que, aos olhos da Psicologia, ao selecionar uma profissão, a pessoa não escolhe somente o que fazer, mas também quem quer ser. Vale lembrar que a definição não é irrevogável e nem dá garantia de sucesso. Sempre é possível rever conceitos e mudar o rumo.

A história de Lafayette da Costa Tourinho Neto é um bom exemplo. Conhecido por sua atuação sólida no meio acadêmico, o professor e diretor do Colégio FAAP é graduado em Engenharia. “Aos 16 anos, resolvi ser engenheiro, sem nenhuma segurança. Quando estava no 3º ano, fiz um teste para ser auxiliar de professor. Queria a independência financeira dos meus pais, ajudá-los a sustentar os cinco filhos. Pensava que seria uma função provisória, mas a identificação foi imediata. Concluí o curso e, paralelamente, estudava e ministrava aulas de História. Ser professor foi um desses maravilhosos acasos que a vida proporciona”, comenta. Agora, o professor está do outro lado, oferecendo auxílio aos alunos nessa importante tarefa. “Contamos com a colaboração de Luiz Toledo, responsável pelo setor de orientação vocacional. Especialista no tema, ele realiza entrevistas individuais, em grupo, visitas a universidades, palestras com profissionais renomados nas mais variadas carreiras, entre outras atividades. Tudo isso contribui para que o jovem construa argumentos fortes e coerentes que alicercem sua decisão”, aponta Lafayette.

Devido à magnitude da escolha, o professor aconselha os jovens a pesquisar o mercado, conversar com experts na área e ouvir os pais. “No entanto, muitas vezes, na ânsia de ajudar, os pais se equivocam por refletir apoiados em suas experiências pessoais, vividas em outro tempo e com outras especificidades. Os filhos são diferentes e vivem sob contexto diverso. Caso haja discordância de posicionamentos, creio que a melhor opção é verificar o grau de segurança da decisão do jovem”, indica. Estar preparado para escutar algo inusitado, que saia do convencional, é um grande dilema para algumas famílias. Por isso, o professor enfatiza que, sobretudo, respeitar a individualidade do adolescente é fundamental.

Depois de todos esses esclarecimentos, fica evidente que ser uma mãe inspiradora não quer dizer, necessariamente, instigar os filhos a seguirem os mesmos caminhos profissionais. O primordial é dar amor, suporte e estrutura para que eles encontrem a própria identidade e, com isso, persigam metas e sonhos particulares. Formada em Direito pela Unaerp, juíza de Direito há 22 anos, Mestre e Doutora em Direito Processual Civil e professora dos cursos de graduação e pós-graduação da Unaerp, Flávia de Almeida Montingelli Zanferdini sabe o quanto é gratificante trabalhar com o que se gosta de verdade. Por isso, deixou os três filhos à vontade para elegerem suas preferências.

Fábio Felipe, de 29 anos, é um advogado atuante. Antônio Samuel, de 21, estava indeciso. Depois de muita ponderação, quis ser piloto. Formou-se em Ciências Aeronáuticas pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), de Bauru e, agora, mora em Daytona, na Flórida, Estados Unidos, onde estuda na Phoenix Aviation School para obter a carteira de piloto privado. Na sequência, começará o curso de piloto comercial, o de multimotores e, no ano seguinte, o de instrutor. “Os dois sempre compreenderam as minhas ausências por conta do trabalho e me falavam que, assim como eu, queriam se dedicar à vida profissional com comprometimento e motivação”, relata Flávia. Já o caçula, Antônio Fernando, tem 11 anos e o mundo inteiro pela frente. Ele está na 6º ano e diz que vai ser médico, neurologista ou pesquisador, como o avô da mãe, que se aposentou como professor catedrático da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. “Independente das escolhas, a maior conquista que uma mãe pode ter é ver a alegria e a realização dos filhos”, conclui Flávia.


Texto:
Paula Zuliani

 
 
 

Compartilhar: