As profissões do futuro
Algumas atividades tendem a desaparecer com o passar dos anos, mas oportunidades começam a surgir nos ramos tecnológicos. Especialistas analisam as tendências no mercado de trabalho a partir de 2016
Se 2015 já foi um ano difícil para o mercado de trabalho brasileiro, 2016 não promete muitas mudanças. Diante de um cenário econômico estagnado, o lema “fazer mais com menos” deve continuar a dominar a estratégia de gestão e o foco seguirá ajustado na busca por mais eficiência e menos funcionários. Se os setores de óleo e gás, construção civil, automotivo e de bens de capital continuam em ritmo lento, por outro lado, surgem oportunidades para concentração de negócios, fusões e aquisições. As projeções apontam que haverá oportunidades também para substituição de negócios com tecnologia mais moderna, transição de modelos reais para virtuais e muita conectividade.
A tecnologia tem ganhado espaço indiscutível, presente em grande parte das atividades cotidianas e, é claro, que as profissões não ficam de fora. Com o passar dos anos, a modernidade no trabalho passa a ser tamanha, que muitas áreas profissionais, tradicionais em alguns períodos, nem ao menos são lembradas pelas pessoas em pleno 2016.
O século XXI é tratado como o período das gerações modernas. Em ramos específicos, quem nasceu antes dos anos 2000, mesmo que ainda jovem, é ultrapassado por crianças que já nascem “atualizadas em suas redes sociais”. Uma pesquisa divulgada pela Gazeta do Povo, do Paraná, em 2010, mostra que 81% das crianças com até dois anos já têm algum tipo de perfil na internet criado pelos pais, alguns mesmo antes de nascer. No Brasil, estima-se que 10% dos usuários sejam crianças e 60% do tempo de navegação seja gasto com redes sociais, sites de entretenimento e mensagens instantâneas. Especialistas alertam que os pais devem ficar atentos aos limites da exposição.
O especialista em tecnologia e coordenador da Escola de Inventor em Ribeirão Preto, considerada uma das 20 melhores empresas para se investir no país, João Guilherme Camargo, diz que o acesso instantâneo da tecnologia no mercado de trabalho já não é novidade para ninguém. Apesar disso, faltam profissionais capacitados para introduzir esse conceito na vida das crianças. “Consideramos que a tecnologia está ao nosso redor e o impacto na educação, por conta dela, existe há um bom tempo. Pensamos que, em vez de fugir das modernidades, o essencial é mostrar para as crianças que existem saídas e que elas são aptas a consertar, transformar e desenvolver sua realidade. Percebemos que, atualmente, ocorre um déficit em algumas profissões e ensinamos para que essas crianças, mesmo que não se tornem programadoras quando terminarem o curso, saiam independentes e conhecedoras dos meio modernos”, explica João.
Já que o tema é futurístico, é preciso entender a importância e as ressalvas que devem ser feitas. É necessário debater sobre as crianças e adolescentes, pois a influência da mídia na vida deles muda a rotina das brincadeiras, estudos e compreensão. Voltaire, filósofo francês, afirmava que o espírito da criança era sufocado com conhecimentos inúteis de gerações anteriores. “Trabalhamos introduzindo alguns conceitos que serão tendência para as crianças nos próximos 10 ou 20 anos. Linguagens como a inteligência artificial serão cotidianas. A internet, a robótica, a impressão 3D e a programação de aplicativos são áreas que podem empregar essas novas gerações”, considera João. No caso das crianças de famílias com menos recursos financeiros, o coordenador avalia que faltam espaços no país que possam treinar professores a ensinar utilizando essa nova metodologia tecnológica, baseada em projetos e na prática. “Apenas os professores podem fazer essa mudança. Lógica, ciências exatas e tecnologia são essenciais para um excelente local de trabalho no futuro”, ressalta.
Os pequenos já procuram formas de se envolver nesses ramos. Quatro jovens de Ribeirão Preto, por exemplo, chamam muita atenção no cenário regional. Tiago Kiyoshi Yasuda Inaba, 12 anos, descobriu que tinha vocação para a modernidade ao ver seus parentes trabalhando com programação. “Ao ver meus familiares, questionei o que gostava e descobri que adoro jogar o que programo. Os jogos que desenvolvo são os meus preferidos. Tenho em mente que farei Engenharia e Jogos Digitais na minha graduação. Sei que, no futuro, diversas áreas deixarão de existir por conta da substituição pelos robôs”, conta Tiago. Para aprender cada vez mais e se adaptar a essas áreas, ele faz pesquisas sozinho e pede a ajuda de profissionais, como o tio e o primo.
Com intuito de ajudar o próximo, Thales Gomes Maurin, 14 anos, pensa que são aos aplicativos que a humanidade tende a recorrer. “Em minha vida pessoal, programo um pouco de tudo: já fiz jogos, aplicativos exclusivos e muito mais. Há um tempo, percebi que era muito indeciso em algumas áreas, foi aí que criei o ‘Mamãe Mandou’. Ainda não o lancei, mas esse app me ajuda na escolha de tudo ao meu redor. Eu programo as opções e ele escolhe por mim. Futuramente, almejo trabalhar nesse caminho da tecnologia e da engenharia, além de desenvolver produtos que ajudam as pessoas. Penso em seguir essas áreas para ajudar as pessoas e tornar a vida mais fácil”, diz Thales. Na opinião dele, a tecnologia vai evoluir cada vez mais e novas áreas se abrirão, já que podem ocorrer mudanças principalmente em segmentos voltados à sustentabilidade, à tecnologia e à saúde.
Medalhista de prata na Olímpiada Brasileira de Astronomia e bronze na Olímpiada Brasileira de Robótica, modalidade teórica, Guilherme Machado, 11 anos, é outro adepto à área da robótica e da programação de jogos. Ele vê nessas áreas o seu futuro e o futuro das profissões. “Gosto de criar jogos, programar e sonho em levar isso para o futuro. Penso em criar diversos produtos e serviços destinados ao computador. Acredito que essa seja uma das tendências presentes que estarão a todo vapor nos próximos anos. Foi em pesquisas na internet que descobri um programa on-line para criar jogos. Aprendo muito por vídeos no Youtube e até programei robôs, o que adorei fazer. Com sete anos, iniciei meu curso em robótica e sei que nessa área vou errar, mas estarei atualizado”, prevê Guilherme.
Realidade impressa
Também estudante do colégio ribeirãopretano Liceu Albert Sabin, Leonardo Bugory, 15 anos, desenvolveu uma impressora 3D sozinho, em sua casa, o que chamou a atenção de muitas pessoas. Segundo o menino, a ideia surgiu da necessidade de usar ferramentas e peças diferentes para montar outros projetos manuais. “Com o hardware pronto, poderia desenvolver cada uma delas”, afirma Leonardo.
Para o estudante, a tecnologia é uma ferramenta que permite ultrapassar qualquer obstáculo, por isso, além de utilizá-la, ele também a produz, o que possibilita que não fique restrito a um equipamento ou ferramenta especifica. “O Arduíno, que é o cérebro da impressora 3D, é uma plataforma autônoma programável, que funciona como um minicomputador e possibilita criar circuitos eletrônicos compactos e funcionais sem alto custo”, explica Leonardo. O estudante lembra que a tecnologia se ramifica exigindo um conhecimento cada vez mais detalhado e, portanto, o mercado exige novos profissionais e novas especializações. Ele cita como exemplo a engenharia da computação, que se dividiu em engenharia de software e de hardware. Outra profissão emergente seria a dos makers, profissionais especializados em projetar, adaptar e imprimir peças utilizando impressão 3D.
Assim como Thales, o adolescente também pensa em ajudar os outros e, atualmente, está focado é em um projeto feito em conjunto com o professores da área de neurociência da USP. “Estamos adaptando uma impressora 3D para ser utilizada na criação de próteses, protótipos e modelos 3D que poderão auxiliar na cirurgia de pequenos animais e, no futuro, de humanos. Por ainda ser um mercado emergente, encontrar peças específicas e adaptá-las para possibilitar maior precisão acaba gerando um desafio, que possivelmente em poucos anos será superado”, acredita Thales.
Especialistas em impressão 3D prometem que ainda há muitos processos para surgir. Atualmente, patentes de tipos importantes de impressão 3D estão expirando e novos fabricantes surgem no mercado. São indícios claros de que esse mercado ainda continuará se reciclando e de que novos produtos e tecnologias serão lançados. “Vemos gigantes como Google, Apple, Toshiba, HP e Canon se posicionando para entrar no mercado com promessas de quebras de paradigmas desse tipo de impressão. Já há pessoas que fazem peças de reposição para seus eletrodomésticos, obras de arte em suas casas e objetos de decoração. Para as empresas, essa tecnologia oferece possibilidades de redução de resíduos descartados, de aceleração nos ciclos de desenvolvimento de produtos, de criação de produtos totalmente personalizados, de planejamento em cirurgias complexas e de otimização de estoques”, afirma Ricardo Nisioka Kimura, diretor comercial de uma empresa especializada no ramo.
O profissional informa que, em um futuro próximo, haverá impressões de casas inteiras, órgãos humanos, peças no espaço e aplicações em nanotecnologia. Todas essas tecnologias já existem, mas estão sendo aprimoradas. Vale destacar que a maioria das tecnologias não são recentes, mas eram inacessíveis, já que poucos fabricantes detinham muitas patentes e, consequentemente, exclusividade sobre a fabricação das máquinas. Atualmente, patentes importantes estão expirando e, à medida em que novos produtos forem lançados por outros fabricantes, a tendência é que os preços diminuam e que elas fiquem ao alcance de mais pessoas e empresas. Isso aconteceu com as impressoras 2D com jato de tinta e com a as impressoras 3D FDM, que usam plástico fundido nas impressões. Materiais como cera, resinas, metais e ligas metálicas, borracha e gesso podem ser utilizados nesta impressão.
Rotina conectada
A tecnologia se dissemina entre pessoas de todas as faixas etárias e, por isso, diversas vertentes têm atraído os novos talentos da região. Com um ramo bem promissor financeiramente, jovens encontram espaço no mercado de trabalho na criação de aplicativos. Nascido em Santa Rita do Passa Quatro, mas desde o início de 2015 morando em Cravinhos, Eliseo Fernandes, 23 anos, é o autor de um aplicativo que tem ajudado muitos estudantes da região. O jovem acredita que, assim como aconteceu com a revolução industrial, nos séculos XVIII e XIX, uma nova revolução está ocorrendo agora, a da computação, que se autopromove por meio das mídias digitais. “Dessa forma, novas profissões surgirão e estarão cada vez mais presentes em toda a parte e em todas as áreas”, prevê Eliseo.
Desde os sete anos, o jovem cientista se interessava em aprender como o computador e o videogame funcionavam e como seus softwares eram feitos. Esse ano, ele começou o mestrado em Computação Aplicada, tendo como projeto um tipo de simulador para ultrassom que treinará médicos para realizar o exame de biópsia para diagnóstico do câncer de tireoide. O estudante pretende, ainda em 2016, finalizar e colocar em funcionamento um aplicativo para acabar com a poluição de panfletos de propaganda de supermercados e afins. Eliseo acredita que todas as áreas ficarão cada vez mais dependentes da tecnologia, principalmente porque ela está presente desde a fabricação dos alimentos até o lazer das pessoas. “Todos os dias, vemos lançamentos de novas invenções tecnológicas. Assim, todos esses dias são novos dias no futuro que já começou há mais de duas décadas”, observa o estudante.
Mercado de trabalho
Entre os principais visionários da região, Isabella Del Vecchio, uma das líderes no e-commerce de Ribeirão Preto, enxerga no futuro muita oportunidade. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico, para os próximos anos, o setor deve permanecer apresentando altas taxas de crescimento, impulsionadas, principalmente, pela maior utilização da Internet, o aumento do hábito de compras on-line entre os usuários da web e o crescimento da banda larga no país. Além do consumidor brasileiro estar mais confiante para comprar on-line, as novas gerações, que agora entram no mercado de trabalho, já nasceram em tempos de internet. “Para o consumidor, existem inúmeras vantagens na compra na web. Além da facilidade, do conforto e da agilidade, esse tipo de compra economiza tempo, evita trânsito, filas, estacionamento e ainda tem a comodidade de receber o produto em casa e realizar a compra a hora que quiser”, enumera Isabella.
Na visão dela, o setor é promissor, porém desafiador. De acordo com a pesquisa feita pela E-commerce School, existem atualmente 23 mil lojas virtuais no Brasil. Dessas, apenas 30% estão ativas. As outras 70% estão no ar, mas foram abandonadas. “Para mim, aí está o maior desafio: é necessário um alto conhecimento do mercado e de seus concorrentes, um bom planejamento de negócio e diferenciação, tanto em mix de produtos como em preço, já que, no comércio on-line, o consumidor tem uma facilidade enorme de comparação. Além disso, o tempo vem se mostrando um dos itens mais preciosos na vida das pessoas. Isso faz com que se tornem cada vez mais promissoras atividades que permitam que as pessoas otimizem mais a sua vida, como o uso de internet banking, comunicação por vídeo conferência, cursos a distância e também as compras on-line”, explica Isabella.
Como dica, a empreendedora comenta que qualquer que seja a profissão que a pessoa deseja investir, é preciso que ela nunca tenha medo, que se arrisque, vá em frente, mas tenha os pés no chão. “Sempre planeje, conheça, estude muito, acompanhe tudo, analise, critique, dedique o seu máximo e não desanime jamais. Sendo futurístico ou não, sempre haverá riscos em investir em um negócio e você precisa estar disposto e muito preparado para enfrentá-los”, aconselha.
Redes Sociais
Cotada como uma das áreas mais promissoras no mercado em 2016, o gestor de redes sociais aparece forte na lista entre as profissões que mais empregarão. A publicitária Margarete Vendruscolo vê o movimento de divulgação de conteúdo nas redes de forma positiva. “Imagine que, alguns anos atrás, uma notícia demorava pelo menos um dia para chegar até as pessoas. Hoje, é instantâneo. Essa rapidez viabiliza o poder de conhecer o fato e ter decisões mais assertivas. Considero e defendo que todos têm que ter acesso à boa informação. Digo boa no sentido da informação orientadora, verdadeira e útil. Do ponto de vista comercial, algumas mídias sociais oferecem o poder da segmentação de público e de região, o que torna essa veiculação muito acessível para as empresas de qualquer porte que queiram divulgar seus produtos e serviços”, afirma.
A publicitária explica que o administrador tem que conhecer muito bem o produto ou serviço que representa e sempre deve haver pesquisas nas mídias sociais de como empresas do mesmo segmento se comportam. “Tem que ter visão panorâmica e de futuro, enxergar oportunidades, responder com propriedade às questões feitas nas redes e ficar atento às mudanças de comportamento. Um texto que li da jornalista Flávia Gamonar cita um estudo da CompTIA que mostra que o ambiente de trabalho no futuro irá muito além das fronteiras da vida pessoal. Essa pesquisa avaliou a chegada da geração Millennials (nascidos entre 1980 e 2000) ao mercado de trabalho e identificou alguns direcionamentos que farão sucesso no futuro, como maior ênfase no engajamento nas mídias sociais e conhecimentos em tecnologia”, analisa Margarete.
Essa mudança tecnológica ainda não terminou e novas possibilidades se abrirão para quem tiver conhecimento e disposição para enfrentar os desafios.
Profissões do futuro
O Instituto Canadian Scholarship Trust Plan apontou quais serão os trabalhos que estarão em alta até o ano de 2030. São eles:
• Nostálgicos
São designers de interiores que serão encarregados de ajudar a criar espaços que refletem suas décadas favoritas.
• Telecirurgião
A telecirurgia, também conhecida como cirurgia remota, permite que profissionais treinados operem pacientes remotamente, usando braços de robôs. Esse conceito já está em prática.
• Reflorestador
O trabalho do reflorestador vai ajudar a reparar os danos que os seres humanos têm causado ao meio ambiente.
• Projetista de lixo
Esses designers vão fazer carreira aperfeiçoando modelos de reciclagem. Projetistas de lixo criarão reciclagens mais eficientes e bem trabalhadas.
• Especialista em simplicidade
Esses profissionais encontrarão maneiras de ajudar a simplificar as operações diárias de negócios. Pessoas que se destacam em matemática, design e boa relação interpessoal se encaixarão nessa área.
• Navegador de saúde
É difícil para pacientes e familiares entenderem o funcionamento de um hospital, mas, com a ajuda de um navegador de saúde, os pacientes terão mais conhecimento das informações que precisam. Os profissionais responderão a perguntas sobre procedimentos e documentos.
• Conselheiro de robô
Os robôs irão desempenhar um papel importante no dia a dia humano. Os modelos domésticos, por exemplo, assumirão as funções de cuidador, babá, faxineira, segurança, entre outros. Um conselheiro de robô será excelente para ajudar a saber qual modelo melhor se encaixa em suas necessidades familiares.
Profissões em extinção
Sapateiro
Trabalhadores rurais
Frentistas de postos de gasolina
Cobrador de ônibus
Texto: Pedro Gomes
Fotos: Pedro Gomes, Julio Sian e Ibraim Leão
Arte: Adriano Chereguini